Evitar comer carne, lavar a cabeça ou varrer a casa: Conheça as mais estranhas superstições ligadas à Sexta-feira Santa

Não comer carne, evitar varrer a casa, não lavar o cabelo ou até não abrir a porta depois do pôr do sol. Parece estranho? Estas são algumas das superstições que ainda hoje marcam a Quaresma e a Sexta-feira Santa.

Patrícia Moura Pinto

A Quaresma e a Sexta-feira Santa são períodos centrais no calendário cristão, marcados por reflexão, penitência e preparação espiritual para a Páscoa. No entanto, ao longo do tempo, surgiram diversas crenças populares e superstições associadas a estas datas, especialmente em comunidades mais tradicionais. Apesar da sua popularidade, muitas dessas práticas não têm qualquer fundamento religioso ou bíblico.

A origem da ideia de um período “sombrio

Para a Igreja Católica, a Quaresma assinala os 40 dias em que Jesus Cristo esteve no deserto, enfrentando tentações. É um tempo de recolhimento e preparação espiritual. Ainda assim, algumas crenças populares interpretam este período como espiritualmente perigoso, defendendo que o mundo ficaria mais vulnerável ao mal.

Segundo essas interpretações, a ausência simbólica de proteção divina – associada ao sofrimento e morte de Cristo – abriria espaço para forças negativas. As sextas-feiras, em particular, são vistas como dias de maior risco, por estarem ligadas à crucificação.

Superstições populares durante a Quaresma

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Em várias regiões, sobretudo em zonas do interior, persistem tradições que impõem restrições ao comportamento diário durante a Quaresma. Muitas dessas práticas são seguidas após o pôr do sol e envolvem tanto adultos como crianças.

Entre as crenças mais comuns está a ideia de que não se deve varrer a casa, pois isso afastaria os “bons espíritos” e deixaria o ambiente desprotegido. Também se evita lavar ou pentear o cabelo, uma vez que se acredita que o cabelo representa a força vital e que poderia ser alvo de influências negativas.

Outra superstição frequente consiste em não abrir portas ou espreitar pelas janelas à noite, com receio de permitir a entrada de energias malignas. Em contrapartida, espalhar sal nas entradas da casa é visto como uma forma de proteção contra essas forças.

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Estas práticas estão geralmente associadas ao medo do mal e à tentativa de proteger o lar e o corpo durante um período considerado vulnerável.

Sexta-feira Santa: entre tradição e crendice

A Sexta-feira Santa, ponto alto da Semana Santa, concentra ainda mais costumes e superstições. Para muitos, é um dia de luto e respeito pelo sofrimento de Cristo, o que deu origem a várias tradições.

A abstenção de carne vermelha – e, por vezes, também de aves – é uma prática comum, entendida como forma de penitência e respeito pelo sacrifício de Jesus. Já outras crenças populares vão além da tradição religiosa.

Há quem defenda que não se deve varrer a casa neste dia, pelo mesmo motivo associado à Quaresma: evitar afastar boas energias. Também se acredita que não se deve pentear o cabelo, numa tentativa de evitar vaidade num dia de recolhimento.

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Outra prática curiosa é esconder os espelhos da casa, simbolizando a rejeição da vaidade e da aparência. Do mesmo modo, recomenda-se evitar música alegre, dança ou qualquer forma de diversão, como sinal de respeito pelo sofrimento vivido por Cristo.

Em algumas culturas, existe ainda a tradição da “malhação de Judas”, realizada no Sábado de Aleluia. Trata-se de uma encenação simbólica em que um boneco representando Judas Iscariotes é castigado publicamente, numa manifestação coletiva contra a traição.

A tradição de não lavar roupa

Uma das crenças mais difundidas associadas à Sexta-feira Santa é a proibição de lavar roupa. Segundo a tradição, essa prática estaria ligada ao sangue derramado por Jesus durante a crucificação. Acreditava-se que lavar roupa nesse dia poderia trazer má sorte ou até resultar em manchas de sangue nas peças.

Esta ideia reforça o caráter simbólico e emocional do dia, embora não tenha base na doutrina oficial da Igreja.

O que diz a Igreja Católica

De acordo com representantes da Igreja, nenhuma destas superstições tem fundamento bíblico ou teológico. São vistas como manifestações culturais ou folclóricas que foram sendo transmitidas ao longo das gerações.

A única orientação religiosa clara durante este período é a prática de jejum e abstinência de carne às sextas-feiras, especialmente na Sexta-feira Santa. Mais do que seguir regras supersticiosas, a Igreja incentiva os fiéis a viver este tempo como um momento de reflexão, conversão e preparação espiritual.

Entre fé e tradição

As superstições associadas à Quaresma e à Sexta-feira Santa mostram como a religiosidade popular pode misturar elementos de fé com crenças culturais. Apesar de não terem base oficial, continuam presentes em muitas comunidades, refletindo tradições antigas e formas simbólicas de lidar com o sagrado.

Para quem segue a tradição religiosa, o essencial continua a ser o significado espiritual deste período: um convite à introspeção, à humildade e à preparação para a celebração da Páscoa.

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