Nunca foi implementado na zona euro, mas, em última análise, o Banco Central Europeu (BCE) poderá chegar a um ponto em que o chamado “dinheiro de helicóptero” pode ser a melhor opção face à dimensão devastadora da crise do coronavírus, defendem alguns analistas, em declarações à CNBC.
O termo, cunhado pelo economista Milton Friedman do século XX, refere-se a uma política monetária não convencional, na qual um banco central imprime dinheiro adicional e o distribui diretamente aos seus cidadãos. A ideia – que evoca a imagem de dinheiro “a voar” de um helicóptero e a ser apanhado pelas pessoas – é aumentar o poder de compra e o consumo, promovendo a recuperação económica, durante uma recessão.
Mas as opiniões divergem sobre como poderiam os bancos centrais concretizar tal plano. O governador do banco central francês, François Villeroy de Galhau, sugeriu, no início deste mês que, se houvesse um “grande risco para a estabilidade de preços”, um banco central poderia optar por ‘dinheiro de helicóptero’ para empresas, apoiando os negócios diretamente, e não os cidadãos.
Alguns analistas também propuseram que o BCE poderia ter taxas negativas no financiamento de longo prazo para os bancos, via programa TLROs (operações de refinanciamento de longo prazo direcionadas). Isso significaria que o banco central estaria a pagar a credores comerciais para obter novo capital, o que, por sua vez, deveria permitir que cidadãos e empresas obtivessem crédito em condições mais favoráveis.
“Podemos pensar em exemplos extremos disso, incluindo um TLTRO de 10 anos a -1% com dinheiro oferecido aos bancos sob a condição de conceder empréstimos de 0% a seus clientes”, defende Ducrozet, da Pictet Wealth Management.
Recorde-se que os países europeus foram os mais atingidos pela covid-19, e segundo as previsões do Fundo Monetário Internacional devemos esperar para a zona euro uma contração do PIB de 7,5%, este ano.
O BCE tomou medidas diferentes para aliviar parte desse impacto, incluindo a promessa de comprar 750 biliões de euros em títulos soberanos, este ano. No entanto, os dados divulgados no início desta semana mostraram que o programa de combate ao impacto da pandemia do BCE poderá expirar em outubro se o banco central continuar a comprar títulos soberanos, ao ritmo que está a fazer.
Segundo os analistas, o “dinheiro de helicóptero” suscita preocupações sobre a independência do banco central, o investimento estrangeiro (pois desvalorizará a moeda) e não é claro como poderiam as pessoas usar esse dinheiro extra. No entanto, defendem que, se o BCE se esforçar para garantir a estabilidade de preços – sua principal missão -, pode efetivamnete ser uma opção “válida”.
John Wraith, analista chefe no UBS, disse à CNBC que se o BCE continuar a comprar títulos soberanos por mais seis a 12 meses com poucos resultados, “talvez tenhamos de tentar ‘dinheiro helicóptero'”.
Dario Perkins, diretor consultora TS Lombard, também defende que o “dinheiro de helicóptero” pode ser uma opção. “Não há necessidade de o BCE fazer isso agora” mas, acrescentou, “consegue recordar-se de uma outra crise tão grande quanto esta?”.
Até ao momento, o BCE evitou considerar o “dinheiro do helicóptero” como uma possibilidade real. Christine Lagarde, presidente do BC, afirmou, na quarta-feira, que “o Conselho do BCE nunca discutiu a questão do ‘dinheiro dos helicóptero’. Portanto, o BCE não tem uma posição formal sobre o assunto”.





