Incêndio de 30 horas no USS Gerald R. Ford: O que se passou afinal no maior porta-aviões do mundo?

O USS Gerald R. Ford, considerado o maior e mais avançado porta-aviões do mundo, esteve envolvido num incêndio que terá durado mais de 30 horas, numa altura em que participava na ofensiva militar dos Estados Unidos contra o Irão.

Pedro Gonçalves

O USS Gerald R. Ford, considerado o maior e mais avançado porta-aviões do mundo, esteve envolvido num incêndio que terá durado mais de 30 horas, numa altura em que participava na ofensiva militar dos Estados Unidos contra o Irão. O incidente, ocorrido a 12 de março, foi inicialmente descrito pela Marinha norte-americana como um fogo com origem na lavandaria do navio, não relacionado com operações de combate e já controlado.

Segundo dados oficiais, cerca de 200 marinheiros necessitaram de assistência médica devido à inalação de fumo e dois membros da tripulação sofreram ferimentos, embora nenhum em estado crítico. O navio seguiu posteriormente para Creta, onde deverá ser reparado, sem que tenham sido divulgados prazos concretos para o regresso à operação.



Apesar da versão oficial, relatos de militares e membros da tripulação indicam que o incêndio foi mais grave do que inicialmente divulgado. De acordo com essas fontes, as chamas terão começado no sistema de ventilação de uma máquina de secar roupa e demoraram mais de 30 horas a ser totalmente extintas.

O impacto a bordo foi significativo: cerca de 100 camarotes foram afetados e mais de 600 marinheiros ficaram sem local para dormir, tendo passado a descansar no chão ou sobre mesas improvisadas. A situação agravou ainda mais o ambiente dentro do navio, onde a moral da tripulação já vinha a deteriorar-se há vários meses.

Missão prolongada está a pressionar tripulação
O porta-aviões encontra-se em missão há cerca de dez meses, um período invulgarmente longo para este tipo de destacamento. Inicialmente no Mediterrâneo, o navio foi redirecionado para o Caribe para apoiar a campanha de pressão do presidente Donald Trump contra o regime de Nicolás Maduro, antes de ser novamente mobilizado para o Médio Oriente no âmbito da ofensiva contra Teerão.

Caso a missão se prolongue até abril, o USS Gerald R. Ford poderá bater o recorde de maior destacamento contínuo de um porta-aviões norte-americano desde a Guerra do Vietname. Segundo relatos, a tripulação foi informada de que poderá permanecer na região até maio, o que gerou descontentamento entre alguns elementos.

Vários marinheiros, sob anonimato, indicaram que o incêndio foi “a gota de água” para uma tripulação já exausta física e psicologicamente.

Especialistas alertam para riscos de desgaste
Especialistas navais citados pelo El Confidencial alertam que este tipo de missões prolongadas pode comprometer tanto o desempenho da embarcação como o bem-estar da tripulação. O antigo porta-voz do Pentágono, John F. Kirby, afirmou que “os navios também se cansam e sofrem desgaste durante destacamentos prolongados”, acrescentando que não é possível manter níveis máximos de desempenho sob exigência contínua.

Enquanto o USS Gerald R. Ford permanece em reparação, os Estados Unidos preparam o eventual envio do USS George H.W. Bush para o Médio Oriente, embora essa mobilização ainda não tenha sido oficialmente confirmada.

O incêndio surge num contexto de problemas técnicos já identificados no navio. Um relatório do Gabinete de Responsabilidade Governamental dos EUA indicava falhas recorrentes no sistema de sanitários, que exigiam intervenções complexas e dispendiosas, com custos a rondar os 400 mil dólares por operação de limpeza.

A situação motivou ainda críticas da ala política. O senador Mark Warner afirmou que o porta-aviões e a respetiva tripulação foram levados “ao limite após quase um ano no mar”, responsabilizando decisões militares da administração de Donald Trump pelo desgaste acumulado.

A eventual retirada temporária do USS Gerald R. Ford representa uma perda significativa para a presença militar norte-americana na região. O navio transporta mais de 75 aeronaves, incluindo caças F-18 Super Hornet, e desempenha um papel central na coordenação de operações aéreas através dos seus sistemas avançados de radar.

Desde o início da ofensiva contra o Irão, a 28 de fevereiro, os Estados Unidos terão atingido mais de 7.000 alvos, contando com o apoio direto deste porta-aviões.

Antes de ser mobilizado para o conflito com Teerão, o navio participou em operações nas Caraíbas, incluindo ações contra embarcações associadas ao narcotráfico venezuelano, interceção de petroleiros sob sanções e a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro.

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