A Ucrânia tinha um plano estratégico para enfraquecer economicamente a Rússia através do próprio custo humano da guerra. A ideia passava por provocar perdas militares suficientemente elevadas para tornar o conflito financeiramente insustentável para Moscovo. No entanto, a subida recente dos preços do petróleo e decisões políticas nos Estados Unidos acabaram por aliviar essa pressão financeira sobre o Kremlin, relata o ‘The Independent’.
O plano económico de Kiev
Segundo análises militares citadas pelo jornal britânico, o Ministério da Defesa da Ucrânia estabeleceu como objetivo infligir cerca de 50.000 baixas mensais às forças russas. A estratégia baseia-se numa lógica económica: Kiev estima que Vladimir Putin consegue recrutar entre 35.000 e 37.000 novos soldados por mês, graças a bónus de alistamento elevados e compensações financeiras generosas.
Para manter esse ritmo de recrutamento, a Rússia paga valores significativos. As famílias de soldados mortos em combate recebem cerca de 165.000 dólares (cerca de 152.000 euros) de indemnização. Se Moscovo tiver de compensar aproximadamente 35.000 baixas por mês, o custo mensal ultrapassa os 5,775 mil milhões de dólares (cerca de 5,3 mil milhões de euros).
A esse valor somam-se os bónus de recrutamento para substituir os soldados mortos — cerca de 24.000 dólares (aproximadamente 22.000 euros) por novo combatente. No total, o custo mensal estimado para cobrir baixas e recrutamento poderá atingir 6,615 mil milhões de dólares (cerca de 6,1 mil milhões de euros).
A lógica estratégica de Kiev era simples: tornar a guerra demasiado cara para Moscovo.
O ponto fraco da estratégia
Segundo uma análise de inteligência citada pelo ‘The Independent’, o problema central da Rússia não seria a falta de soldados, mas sim o custo crescente de financiar a guerra.
“O ponto crítico da Rússia não é a falta de pessoas; é a falta de dinheiro para comprar pessoas”, refere essa avaliação.
A expectativa de Kiev era que os custos acumulados de baixas e recrutamento acabassem por provocar um colapso financeiro progressivo do esforço de guerra russo.
O impacto do petróleo e da geopolítica
Contudo, a recente subida dos preços do petróleo alterou o cálculo estratégico.
O conflito envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão provocou um aumento nas receitas energéticas da Rússia. Estima-se que Moscovo tenha arrecadado entre 6 mil milhões e 10 mil milhões de dólares adicionais (entre 5,5 mil milhões e 9,2 mil milhões de euros) em receitas petrolíferas num período inferior a um mês.
Esse valor é suficiente para cobrir grande parte dos custos mensais associados às baixas militares russas.
Além disso, decisões políticas em Washington relacionadas com sanções ao setor energético russo contribuíram para aliviar a pressão económica sobre Moscovo. Segundo o Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo, as exportações de petróleo russo aumentaram cerca de 13%, sobretudo para países como China, Índia e Turquia.
Preocupação em Kiev
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, já tinha alertado para outro problema decorrente da escalada no Médio Oriente: a possível redução do fornecimento de sistemas de defesa aérea para a Ucrânia.
Grande parte da tecnologia antimíssil utilizada por Kiev é fornecida pelos Estados Unidos e adquirida por aliados europeus. Com o foco militar a deslocar-se para o Médio Oriente, Zelensky teme que os recursos destinados à defesa ucraniana diminuam.
Vários responsáveis ucranianos e europeus criticaram as decisões que permitiram aliviar a pressão económica sobre Moscovo.
Oleksandr Merezhko, presidente da comissão de relações externas do Parlamento ucraniano, afirmou que aumentar as receitas energéticas russas equivale a fortalecer o esforço de guerra do Kremlin.
“É como dar mais balas a um assassino”, declarou, citado pelo ‘The Independent’, defendendo que petróleo e gás funcionam como instrumentos estratégicos da Rússia no conflito.
Uma guerra que continua a pesar na economia russa
Apesar do alívio financeiro temporário, o esforço de guerra continua a exercer forte pressão sobre a economia russa. O país mantém centenas de milhares de soldados contratados, com salários mensais de cerca de 3.000 dólares (aproximadamente 2.750 euros), além de bónus e compensações financeiras.
A economia russa cresce atualmente a um ritmo reduzido e cerca de 40% da atividade económica está diretamente ligada à Defesa, desde a invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022.
Segundo avaliações ocidentais citadas pelo ‘The Independent’, antes da recente subida dos preços do petróleo havia sinais de que os orçamentos regionais russos usados para financiar o recrutamento poderiam enfrentar insolvência.
Com a nova realidade energética e geopolítica, Kiev terá agora de rever parte dos pressupostos da sua estratégia económica de guerra.







