Macau, China, 13 mar 2026 – A jornalista Andreia Silva, que apresentou hoje um livro sobre a censura do Estado Novo em Macau, disse à Lusa que a imprensa local nunca foi “plenamente livre e isenta”, tanto sob administração chinesa como portuguesa.
Silva é um dos autores convidados para a 15.ª edição do Festival Literário — Rota das Letras, onde apresentou hoje o livro “O Lápis Vermelho — A Censura do Estado Novo à Imprensa de Macau”.
A investigação desenvolvida ao longo de cinco anos conclui que a censura atuou de forma plena sobre a imprensa portuguesa em Macau, mas de forma limitada à imprensa chinesa, revelando fragilidades da administração colonial portuguesa.
O trabalho de investigação decorreu entre 2020 e janeiro de 2025, com base sobretudo na documentação da Comissão de Censura à Imprensa conservada no arquivo diplomático português.
“Descobri depois mais documentação da Comissão de Censura à Imprensa já com provas de que a imprensa chinesa teria ido, também, à censura, mas sem consequências”, explicou Silva.
“Percebi depois no decorrer da investigação que as diferenças de tratamento para com as duas imprensas, em português e chinês, foram muitas por parte das autoridades”, acrescentou.
Entre os exemplos encontrados estão suspensões de jornais portugueses, incluindo O Clarim, da Igreja Católica.
“Com frequência quase semanal o governador enviava os recortes de jornais censurados para o Ministério do Ultramar, em Lisboa, para que as autoridades na metrópole fossem informadas dos temas abordados pela imprensa”, explicou Silva.
Nos arquivos, porém, não encontrou provas de procedimentos semelhantes relativamente à imprensa chinesa.
Um exemplo foi o Ou Mun Iat Pou, ainda hoje o maior jornal de Macau, que em determinados períodos reproduziu notícias com os cortes impostos pela censura.
Para Andreia Silva, esta diferença de tratamento reflete as limitações da autoridade portuguesa em Macau, sobretudo perante a influência política de Pequim.
“Através da análise à censura do Estado Novo podemos percecionar as fragilidades da administração portuguesa face às autoridades de Pequim, constituindo mais uma prova de que Portugal nunca exerceu autonomia plena sobre Macau”, disse.
A autora lembra que, ao longo do século XX, os jornais foram também frequentemente utilizados como instrumentos políticos por diferentes forças.
Segundo a autora, na imprensa portuguesa “havia uma defesa do império e da necessidade da Guerra Colonial”, enquanto na imprensa chinesa “surgiam notícias com foco nos movimentos de libertação”.
Nos anos da Guerra Sino-Japonesa, por exemplo, a região funcionou como um espaço onde coexistiam várias correntes políticas.
“A história traz-nos mensagens e reflexões relacionadas com as especificidades de Macau e das suas gentes, que podem ser lidas também à luz do panorama atual”, disse Silva.
A investigadora considera que história da imprensa na cidade mostra que o exercício do jornalismo no território sempre esteve condicionado por fatores políticos e sociais.
“A imprensa de Macau nunca foi plenamente livre e isenta, por vários motivos e contextos históricos”, afirmou.
Em janeiro, o Governo anunciou o cancelamento do registo do jornal ‘online’ e publicação mensal impressa All About Macau, que em outubro tinha anunciado o encerramento por “pressões crescentes”.
A polícia deteve duas jornalistas do All About Macau em 17 de abril de 2025, quando tentavam entrar no salão da parlamento para assistir à apresentação do programa político na área da Administração e Justiça, por “perturbação do funcionamento de órgãos da Região Administrativa Especial de Macau”.
Macau, que esteve sob administração portuguesa durante mais de 400 anos, passou em 1999 para a administração chinesa, sob um acordo que previa que a região deveria manter os direitos e liberdades fundamentais, incluindo a liberdade de imprensa, durante os primeiros 50 anos.
Apesar das mudanças ocorridas nas últimas décadas, Andreia Silva considera que o jornalismo no território continua a enfrentar desafios estruturais.
“Assistimos hoje a um grande decréscimo de massa crítica e de opinião pública. Mas devo dizer que a sociedade de Macau nunca teve muito esse pendor”, concluiu.






