Durante décadas, o enterro em caixão e a cremação dominaram quase por completo as práticas funerárias em todo o mundo. No entanto, estas formas tradicionais de sepultamento começam agora a perder terreno para alternativas consideradas mais personalizadas, inovadoras e, sobretudo, ambientalmente sustentáveis.
De recifes artificiais no fundo do mar a cápsulas que transportam cinzas até à estratosfera, passando por caixões cultivados a partir de cogumelos ou métodos de decomposição acelerada em água, um número crescente de britânicos procura maneiras diferentes de encarar o último momento da vida.
Um exemplo é o setor funerário britânico, que está a adaptar-se rapidamente a esta transformação. Em todo o país existem já mais de 400 locais que oferecem enterros “verdes”, e empresas funerárias indicam que a procura por soluções alternativas continua a crescer. Paralelamente, mudanças legislativas em discussão poderão vir a ampliar ainda mais as opções disponíveis para quem pretende planear a forma como será sepultado.
Louise Winter, fundadora da empresa funerária independente londrina Poetic Endings, explicou que muitas famílias procuram hoje funerais que reflitam a forma como a pessoa viveu. “As pessoas querem que quem partiu seja na morte como foi em vida”, afirmou. “E se isso implicava uma consciência ambiental, então um enterro natural pode ser uma escolha muito bonita.”
Recifes artificiais: transformar as cinzas em vida marinha
Uma das alternativas mais invulgares disponíveis atualmente consiste em integrar os restos mortais num recife artificial.
Foi essa a opção escolhida por David Tagg para a sua mulher, Linda, falecida em 2019 aos 65 anos após um diagnóstico de cancro. O casal, apaixonado por viagens e mergulho, percorreu o mundo ao longo de décadas, explorando locais tão distantes como a Antártida e as ilhas Galápagos.
Quando a doença foi diagnosticada, David garantiu à esposa que cumpriria qualquer desejo que ela tivesse para o seu funeral. “Disse-lhe que faria o que ela quisesse, fosse para onde fosse. Que se lixasse o dinheiro”, recordou.
Foi então que descobriram a Solace Reef, uma empresa britânica que incorpora cinzas humanas em blocos de pedra colocados no fundo do mar, ao largo de Weymouth, um local onde o casal mergulhara muitas vezes.
Em vez de ficarem numa urna ou de serem espalhadas, as cinzas são seladas dentro de uma estrutura memorial de pedra que é afundada no oceano. Com o tempo, essa estrutura torna-se habitat para corais moles, peixes e lagostas.
“Pareceu-nos a decisão mais sensata”, explicou David, referindo-se ao facto de ambos serem mergulhadores e amantes da natureza.
Linda foi colocada num desses blocos de pedra, enquanto o seu pai, Maurice, falecido anos antes, foi colocado noutro. Ambos foram submersos no fundo do mar, com Linda orientada a sul e o pai a norte.
Mais tarde, quando a mãe de Linda, Audrey, morreu, pediu também que as suas cinzas fossem integradas no recife, ficando posicionada “canto com canto” com a filha e o marido.
David planeia fazer o mesmo quando morrer. “Quando chegar a minha vez, ficarei virado a sudoeste, canto com canto com Linda”, afirmou.
Para o viúvo, a diferença face aos cemitérios tradicionais é evidente. “Em vez de se tornar parte de um cemitério, torna-se parte de uma reserva de vida marinha”, disse. “É uma forma muito útil de existir para sempre. Em vez de simplesmente deitar fora as cinzas, elas estão a servir um propósito.”
O recife artificial da Solace Reef conta atualmente com 35 estruturas de pedra, cada uma delas contribuindo para a expansão do habitat marinho.
O fundador da empresa, Sean Duncan, considera que a procura reflete uma mudança de mentalidade. “As pessoas estão cansadas de serem tratadas de forma padronizada nos funerais tradicionais e procuram maneiras novas e criativas de assinalar a sua partida”, afirmou. “O Solace Reef está a dar vida depois de uma vida vivida, e sabemos que as pessoas adoram essa ideia.”
Cinzas lançadas para o espaço
Enquanto algumas famílias preferem manter os restos mortais próximos, outras procuram destinos muito mais distantes.
Foi o caso de Jane Berwick, de 59 anos, que perdeu o marido, Mark, de forma inesperada. “O meu marido morreu subitamente a 27 de janeiro. Fomos para a cama numa terça-feira como sempre e ele nunca acordou”, contou.
Depois da morte, Jane encontrou um bilhete deixado pelo marido. Nele, Mark dizia compreender que seria cremado, mas manifestava um desejo específico: não queria que as suas cinzas acabassem esquecidas num armário.
“Temos alguns cães que perdemos e que estão num armário debaixo das escadas”, explicou Jane. “E ele disse que não queria ficar num armário debaixo das escadas.”
O casal vivia no norte de Norfolk, numa zona com pouca poluição luminosa, e costumava passar noites a observar o céu estrelado. Foi então que Jane teve uma ideia: enviar as cinzas do marido para o espaço.
A operação foi realizada alguns meses depois pela empresa britânica Aura Flights.
Em novembro, as cinzas de Mark foram recolhidas numa casa funerária, colocadas numa cápsula especial e ligadas a um balão de hidrogénio que as transportou até ao limite do espaço. A cerca de 100 mil pés de altitude (aproximadamente 32.500 metros), na estratosfera, as cinzas foram libertadas.
De acordo com a empresa, essas partículas podem permanecer até um ano a circular nos ventos estratosféricos antes de regressarem à Terra sob a forma de chuva ou neve.
Para Jane, a ideia trouxe algum consolo. “Olhar para as estrelas e pensar que ele está algures lá fora foi um conforto para nós”, disse.
A mulher recorda também experiências menos reconfortantes em cemitérios. “Já perdi familiares que foram enterrados e já visitei cemitérios com tantas campas abandonadas. Não queria isso para o Mark”, explicou. “Não queria pensar que ele estava ali enquanto ninguém se lembrava dele.”
O serviço tem um custo de cerca de 3.950 libras, valor que acresce às despesas de cremação e funeral. Apesar disso, a procura continua a aumentar.
Segundo Samantha Richardson, diretora-geral da Aura Flights, a empresa realizou recentemente o 350.º voo desde a sua fundação, em 2017. A responsável afirma também que cada vez mais pessoas começam a planear o seu próprio funeral décadas antes, algumas ainda na casa dos 30 ou 40 anos.
“De forma geral, as pessoas parecem afastar-se das práticas tradicionais de sepultamento e procuram algo mais personalizado ou moderno”, afirmou. “Em vez de um evento silencioso e sombrio, querem uma celebração da vida, algo que esteja ligado à sua personalidade e à forma como viveram.”
Enterros naturais: o regresso à terra
A crescente popularidade de alternativas funerárias está também ligada a preocupações ambientais.
Os funerais tradicionais têm um impacto ecológico significativo. De acordo com estimativas do Green Burial Council nos Estados Unidos, todos os anos são utilizados 16,2 milhões de litros de fluido de embalsamamento, 20 milhões de pés cúbicos de madeira nobre, 17 mil toneladas de cobre e bronze e 1,6 milhões de toneladas de betão.
Um inquérito recente da National Funeral Directors Association revelou que mais de 60% das famílias demonstram interesse em opções funerárias ecológicas.
Nos enterros naturais, o corpo é colocado diretamente na terra ou num invólucro biodegradável, como mortalhas de linho ou cestos de vime, e deixado decompor-se naturalmente, tornando-se parte do solo.
Louise Winter explica que este tipo de cerimónia tem uma atmosfera diferente. “Há algo mais cru em regressar à Terra da forma mais pura possível. Acho que é isso que atrai muitas pessoas.”
Além do aspeto ecológico, existe também um fator prático. O espaço nos cemitérios urbanos, especialmente em Londres, é cada vez mais escasso.
“Em Londres o espaço nos cemitérios tradicionais é muito limitado e alguns estão a ficar sem lugar”, explicou Winter.
Fora das grandes cidades, qualquer terreno pode potencialmente ser transformado num espaço para enterros naturais. Em alguns casos, agricultores começaram mesmo a disponibilizar parcelas das suas propriedades para esse fim.
Rosie Inman-Cook, gestora do Natural Death Centre, considera que estes funerais representam um benefício triplo. “Um enterro natural bem feito é uma situação em que todos ganham: funerais significativos para os familiares, melhor para o planeta e benéfico para a vida selvagem, porque ajuda a proteger áreas rurais.”
No entanto, alerta também para diferenças significativas entre os locais disponíveis. Alguns são verdadeiros parques naturais, enquanto outros são apenas pequenas áreas dentro de cemitérios convencionais.
“Os compradores devem ter cuidado”, advertiu. “Alguns oportunistas, sem respeito pelo conceito de enterros naturais, entraram neste mercado apenas para ganhar dinheiro.”
Caixões de cogumelos: a inovação biodegradável
Outra inovação ecológica que começa a ganhar atenção é o chamado “caixão vivo”, produzido a partir de cogumelos.
A empresa Loop Biotech desenvolveu o Loop Living Cocoon, um caixão cultivado a partir de micélio, a estrutura semelhante a raízes que forma os fungos, combinado com fibras de cânhamo recicladas.
O processo de crescimento dura cerca de sete dias, criando um caixão resistente e totalmente biodegradável. Uma vez enterrado, decompõe-se completamente em cerca de 45 dias, enriquecendo o solo e facilitando o processo natural de decomposição.
Bob Hendrikx, fundador da Loop Biotech e inventor do caixão, argumenta que esta solução deveria ser vista como a opção lógica. “Quando são colocados na terra, não estão a prejudicar o planeta — estão a enriquecê-lo”, explicou. “Falamos disto como a opção lógica, não como a alternativa verde. Porque a opção ilógica é poluir o planeta que deixamos aos nossos filhos.”
A empresa já vendeu mais de 4.000 caixões, incluindo algumas centenas no Reino Unido.
Curiosamente, o sucesso do produto não se deve apenas à sustentabilidade. Segundo Hendrikx, muitas famílias apreciam o facto de o material ser macio e arredondado, com uma textura semelhante à casca de queijo brie.
“É algo que dá vontade de abraçar”, disse. “No processo de luto, isso pode ser muito reconfortante, e muitas vezes ouvimos histórias de pessoas a acariciar o caixão.”
“Boil in the bag”: a dissolução do corpo em água
Esta semana marcou um momento importante na evolução das práticas funerárias no Reino Unido: a Escócia tornou-se a primeira parte do país a legalizar funerais conhecidos popularmente como “boil in the bag” (“fervido num saco”, em português). O método, tecnicamente denominado hidrólise alcalina, consiste em decompor o corpo num líquido estéril dentro de uma câmara pressurizada.
Durante o processo, o corpo é envolvido numa mortalha biodegradável, normalmente de seda ou lã, e colocado num tanque de aço. Esse tanque é preenchido com uma solução composta por 95% de água e 5% de um composto alcalino, como o hidróxido de potássio.
A mistura é aquecida a 150 °C sob pressão, evitando que entre em ebulição. Ao longo de três a quatro horas, ocorre uma decomposição acelerada que imita os processos naturais que, num caixão convencional, demorariam décadas.
No final, o líquido resultante é arrefecido, tratado e encaminhado para o sistema de águas residuais. Os ossos restantes são secos e triturados, transformando-se num pó que pode ser devolvido à família, espalhado ou enterrado.
Embora o processo seja novo no Reino Unido, já é utilizado há anos em países como o Canadá, os Estados Unidos e a Irlanda. Os primeiros centros escoceses poderão abrir dentro de seis a nove meses.
Helen Chandler, diretora-geral da empresa Kindly Earth, que detém os direitos exclusivos para produzir o equipamento na Escócia, sublinha que a nova opção visa ampliar a escolha das famílias.
“Sabemos que nem todos vão escolher a hidrólise — e esse é precisamente o objetivo”, explicou. “Cada família tem valores e prioridades diferentes. Algumas pessoas, especialmente aquelas que planeiam o seu próprio funeral, procuram opções que estejam mais alinhadas com as suas preferências.”
Compostagem humana: a próxima fronteira?
Outra possibilidade que poderá chegar ao Reino Unido em breve é a chamada compostagem humana, também conhecida como ‘terramation’.
Atualmente ilegal no país, esta prática está a ser analisada pela Law Commission, que avalia um novo enquadramento jurídico para práticas funerárias inovadoras em Inglaterra e no País de Gales.
Nos Estados Unidos, a ‘terramation’ já é utilizada como alternativa à cremação.
O processo consiste em colocar o corpo num recipiente rodeado por lascas de madeira, alfafa, palha e flores. O ambiente é mantido quente e oxigenado durante cerca de 30 dias, permitindo que microrganismos decomponham rapidamente o corpo.
Após um período adicional de repouso e arrefecimento, o resultado final é cerca de um metro cúbico de composto rico, que é devolvido à família.
Brienna Smith, diretora funerária da empresa Return Home, no estado de Washington, explica que a prática atrai pessoas com forte consciência ambiental.
“Muitos escolhem este método porque está alinhado com os seus valores”, afirmou. “A terramation é um processo suave, participativo e enraizado na ecologia.”
As famílias utilizam frequentemente o composto para fins simbólicos. “Algumas devolvem-no à terra da família, a jardins ou florestas. Outras usam-no em plantas de casa, participam em projetos de reflorestação ou plantam árvores em memória do ente querido”, explicou Smith.
Segundo a responsável, o método consome cerca de 87% menos energia do que a cremação ou o enterro convencional.
Desde a abertura da empresa, mais de 700 famílias recorreram ao serviço.
Para Smith, a tendência reflete uma mudança profunda na forma como as pessoas encaram a morte. “Acredito que cada vez mais pessoas procuram práticas alternativas porque estão a fazer perguntas mais profundas sobre impacto, significado e transparência”, disse. “Existe uma consciência crescente das questões ambientais e um desejo por rituais que pareçam pessoais em vez de industriais.”














