A experiência do colaborador também existe num domingo às oito da manhã

Opinião de José Pedro Fernandes, Vice-presidente da SISQUAL® WFM

Executive Digest
Março 9, 2026
11:35

Por José Pedro Fernandes, Vice-presidente da SISQUAL® WFM

 



Domingo, oito da manhã. Um centro comercial abre dentro de uma hora e um dos colaboradores da equipa de limpeza não pode comparecer ao turno. O gestor do centro encontra um substituto disponível, mas surge um problema imediato: para poder entrar ao serviço, o contrato tem de estar assinado e o registo na Segurança Social concluído antes de atravessar a porta. Se esse processo não estiver resolvido, a alternativa é conhecida: deslocações urgentes, assinaturas presenciais fora de horário ou atrasos que comprometem a operação desde o primeiro minuto.

Este tipo de situações acontece todos os dias em setores com trabalho por turnos, serviços contínuos e elevada rotatividade. E, no entanto, continuam a ser tratadas como exceções. Não o são. São o reflexo de uma gestão laboral que, em muitos casos, não está desenhada para a realidade do trabalho atual. É aí que começa a falhar a experiência do colaborador… na incapacidade de resolver o essencial quando é necessário.

A paradoxo é evidente. Fala-se de digitalização, eficiência e flexibilidade, mas muitos processos laborais críticos continuam a depender de dinâmicas presenciais, papelada, trocas de e-mails e validações manuais. A assinatura de contratos, alterações contratuais ou autorizações urgentes continuam a ser pontos de fricção que interrompem o trabalho, geram tensão desnecessária e transferem pressão para quem já está a gerir uma incidência operacional.

Quando estes processos podem ser realizados de forma digital, integrados nas ferramentas de gestão da força de trabalho (Workforce Management – WFM) já existentes, e com validade legal, a mudança é imediata. Não apenas porque se ganha tempo, mas porque a organização começa a comportar-se de forma coerente com aquilo que exige às suas equipas: agilidade, responsabilidade e capacidade de resposta. A gestão deixa de ser um obstáculo e passa a acompanhar a operação, mesmo em contextos complexos ou fora do horário habitual.

É aqui que importa parar para refletir. A experiência do colaborador não se constrói apenas com programas de bem-estar ou mensagens inspiradoras. Constrói-se, sobretudo, quando os sistemas não falham nos momentos críticos. Quando uma admissão urgente não se transforma num problema administrativo. Quando um responsável não tem de escolher entre cumprir a lei ou chegar a tempo. Quando o colaborador percebe que a organização sabe o que está a fazer.

As soluções de gestão da força de trabalho também têm um impacto direto em quem gere pessoas. Reduzem a carga administrativa, eliminam tarefas repetitivas e dão visibilidade sobre o estado de cada processo. Permitem antecipar em vez de reagir. E libertam tempo para aquilo que realmente acrescenta valor: coordenar equipas, resolver situações reais e acompanhar pessoas.

Há ainda outro efeito menos visível, mas igualmente importante: a confiança. Quando os processos são claros, acessíveis e rastreáveis, diminui a sensação de arbitrariedade. As pessoas sabem em que ponto está cada procedimento e o que se espera dele. Essa transparência não se decreta; constrói-se na operação diária, nos pequenos trâmites que funcionam sem fricção.

Importa sublinhar que este desafio não é exclusivo das grandes organizações. Qualquer empresa com trabalho por turnos, múltiplos locais ou equipas distribuídas enfrenta as mesmas tensões. Em todos esses contextos, a digitalização da gestão laboral não é uma questão de inovação, mas de bom senso organizacional. Não se trata de acrescentar ferramentas, mas de eliminar etapas desnecessárias e desenhar processos alinhados com a realidade.

Hoje, o verdadeiro desafio já não é lançar mais iniciativas nem acumular discursos sobre experiência do colaborador. É garantir que a organização responde quando é preciso. Que a tecnologia não interrompe o trabalho, mas que facilita. E que os processos laborais deixam de ser uma fonte de fricção para se tornarem um apoio.

Porque, no final, a maturidade de uma organização não se mede pela forma como comunica os seus valores, mas pela sua capacidade de resolver o quotidiano sem ruído. E é aí, quando a gestão funciona mesmo a um domingo de manhã, que a experiência do colaborador deixa de ser um conceito e passa a ser uma realidade.

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