A Economia e os afetos em tempos de IA

OpiniSofia Terlica, Professora de Economia da Universidade Europeia

Executive Digest
Março 9, 2026
11:31

Por Sofia Terlica, Professora de Economia da Universidade Europeia

 



A Inteligência Artificial (IA), no âmbito da revolução 4.0, lembra-nos que oscilamos entre a prossecução da eficiência tecnológica e de uma maior humanidade. Como muitos, defendo que estes dois objetivos devem coexistir, mas é necessário um esforço ativo de consciencialização para equilibrar a eficiência e os afetos.

O mercado de trabalho português é caracterizado por mais de 50% das profissões estarem em risco de desaparecer (28,9%) devido à introdução da IA, ou beneficiarem da sua adoção (22,5%).[1]  No primeiro caso, enfrentamos o desafio de requalificar os trabalhadores para os manter no mercado de trabalho. No segundo caso, estamos perante um potencial tecnológico que permite inventar novos modelos de negócio. O desafio não está na tecnologia, mas sim na educação e na gestão. É necessário formar trabalhadores para os requalificar, mas também é essencial formar gestores e economistas. Ao substituirmos profissões, libertamos as pessoas para tarefas de pensamento e organização. Se a tecnologia faz o que é igual, o ser humano deve fazer o que é único.

Esta mudança exige um avanço no ensino. Aprender a programar ou compreender a ciência de dados é o primeiro passo essencial. O foco deve estar no espírito crítico. A educação com IA deve consistir na resolução de problemas reais, e não na memorização de fórmulas ou na repetição de procedimentos. O sistema educativo deve privilegiar a análise, não para competir com as máquinas, mas sim para trabalhar com elas e desafiá-las! A nossa maior vantagem competitiva é a “desobediência criativa”.[2]

Olhar para as tecnologias como parceiros é libertarmo-nos para o nosso espírito criativo. No entanto, é necessário acompanhar esta mudança com o abandono definitivo da “cultura da agitação”, que associa o sucesso a um trabalho excessivo e a uma diminuição do tempo de descanso, uma cultura esta preconizada por magnatas como Elon Musk. A 4.ª Revolução Industrial só terá sucesso se libertar o trabalhador para o tempo da criatividade, para o tempo de sermos humanos e empáticos.

É urgente cuidarmos de nós, para além da produtividade, e construirmos um mundo melhor e mais saudável, tanto a nível individual como coletivo. A empatia exige, no entanto, esforço, criatividade e tempo. Tempo que a tecnologia nos pode devolver. Devemos libertar a economia das tarefas rotineiras e ocupar-nos dos afetos, dos cuidados, da criatividade e da compaixão. O sucesso da economia não se mede apenas pelo PIB; mede-se pela nossa recusa em automatizar a indiferença.

[1] Casas, P., Silva, H. C., Ribeiro, A. S., & Baptista, R. (Coord.). (2024). Automação e Inteligência Artificial no Mercado de Trabalho Português: Desafios e Oportunidades (Policy Papers #03). Fundação Francisco Manuel dos Santos. ISBN: 978-989-9243-51-4.

[2] Ainda que com uma utilização aplicada sobretudo ao papel da mulher, aqui a utilização da palavra “desobediência” é uma aproximação ao pensamento de Maria Teresa Horta.

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