Suécia pede aos cidadãos que guardem dinheiro em casa para emergências

A Suécia, considerada uma das sociedades mais avançadas do mundo em matéria de pagamentos digitais, está a aconselhar os seus cidadãos a manterem reservas de dinheiro em numerário em casa.

Pedro Gonçalves

A Suécia, considerada uma das sociedades mais avançadas do mundo em matéria de pagamentos digitais, está a aconselhar os seus cidadãos a manterem reservas de dinheiro em numerário em casa. O alerta surge num contexto de crescentes tensões geopolíticas e preocupações com a resiliência das infraestruturas financeiras digitais.

O Riksbank, o banco central sueco, recomendou que cada agregado familiar guarde dinheiro suficiente para cobrir aproximadamente uma semana de despesas essenciais, como forma de precaução perante possíveis interrupções nos sistemas de pagamento eletrónico.

De acordo com o banco central, cada adulto deve manter cerca de 1.000 coroas suecas em dinheiro físico, o equivalente a pouco mais de 90 euros ao câmbio atual.

A instituição sublinha que este valor deve ser encarado como uma referência e poderá variar consoante a dimensão do agregado familiar ou as necessidades específicas de cada casa.

Segundo o comunicado oficial do Riksbank, é recomendado “que todos os agregados familiares mantenham em casa uma soma de 1.000 coroas suecas em dinheiro por adulto. Esta quantia deve ser considerada como referência e destina-se a cobrir uma semana de compras essenciais. Os agregados podem necessitar de mais ou menos dinheiro disponível, dependendo do número de pessoas no lar ou das suas necessidades específicas. Sempre que possível, recomenda-se que o dinheiro seja guardado em várias denominações.”

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A recomendação reflete a preocupação crescente das autoridades com a capacidade do sistema financeiro continuar a funcionar em cenários de crise.

Diversificar os meios de pagamento
Para além da reserva de dinheiro físico, o banco central sueco aconselha também os cidadãos a diversificarem os métodos de pagamento utilizados no dia a dia.

Entre as medidas sugeridas está a posse de pelo menos dois cartões de redes diferentes, como Visa e Mastercard, de forma a reduzir o risco de falhas caso um sistema deixe de funcionar.

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O Riksbank recomenda igualmente manter acesso a sistemas de pagamento móvel, como o Swish, amplamente utilizado no país, que funciona com infraestruturas diferentes das utilizadas pelos cartões bancários.

No caso dos utilizadores de carteiras digitais — como Apple Pay ou Google Pay — o banco central aconselha a manter sempre o cartão físico e o respetivo código PIN disponíveis. Isto porque o chip do cartão permite realizar pagamentos mesmo quando não existe ligação à internet.

Segundo o Riksbank, “o acesso a diferentes métodos de pagamento melhora a capacidade das pessoas para realizar pagamentos em caso de interrupções temporárias, crises e, no pior cenário, guerra.”

Preparação para cenários de crise
As recomendações fazem parte de uma estratégia mais ampla para garantir que a população consegue continuar a adquirir bens essenciais mesmo em situações extremas.

Entre os cenários considerados pelas autoridades estão falhas temporárias nas redes de pagamento, ataques cibernéticos, interrupções tecnológicas ou crises geopolíticas mais graves que possam afetar o funcionamento das infraestruturas financeiras.

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Desta forma, o banco central pretende equilibrar os benefícios da digitalização com medidas de segurança que garantam o funcionamento da economia em qualquer circunstância.

Uma das economias mais digitalizadas do mundo
A Suécia é frequentemente citada como um dos países mais avançados do mundo na transição para pagamentos digitais.

Ao longo da última década, o uso de dinheiro físico caiu de forma acentuada. Atualmente, a maioria das transações quotidianas é realizada através de cartões bancários ou aplicações móveis.

De acordo com o relatório de pagamentos de 2025 do próprio Riksbank, apenas uma em cada dez compras em lojas suecas é feita com dinheiro físico.

Os cartões continuam a ser o método de pagamento mais utilizado no país, uma evolução que tornou os pagamentos mais rápidos e baratos, mas que também expôs novas fragilidades.

Dependência de redes internacionais
Uma das vulnerabilidades identificadas pelas autoridades prende-se com a forte dependência de redes internacionais de pagamentos.

Os sistemas de cartões utilizados na Suécia operam, em grande parte, através de redes norte-americanas como Visa e Mastercard. Em teoria, eventuais tensões políticas ou conflitos com os Estados Unidos poderiam resultar em sanções que desligassem o país dessas infraestruturas.

Embora este cenário seja considerado improvável, ele ilustra os riscos associados a um sistema de pagamentos totalmente dependente de infraestruturas externas.

Debate europeu sobre soberania financeira
A preocupação com a autonomia dos sistemas de pagamento não é exclusiva da Suécia. Em toda a Europa, as autoridades monetárias estão a discutir formas de reduzir a dependência de infraestruturas estrangeiras.

Nesse contexto, o Banco Central Europeu (BCE) está a desenvolver o projeto do euro digital, uma moeda digital pública destinada a complementar o dinheiro físico e reforçar a soberania financeira da zona euro.

Entre os argumentos apresentados pelo BCE está precisamente o risco de depender de sistemas de pagamento controlados por empresas externas. O objetivo do banco central europeu é lançar o euro digital em 2029.

A possível criação da e-krona
Paralelamente, o próprio Riksbank estuda há vários anos a criação da e-krona, uma versão digital da moeda sueca.

Esta moeda digital pública permitiria aos cidadãos alternar entre dinheiro emitido pelo banco central e soluções privadas de pagamento.

Segundo o Riksbank, “a coroa digital poderia reforçar a resiliência do mercado de pagamentos. Complementaria a oferta de dinheiro e os serviços de pagamento do setor privado e funcionaria mesmo sem ligação à internet, garantindo diversas alternativas em caso de interrupções graves nos sistemas bancários ou das empresas de cartões”.

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