Os acontecimentos deste fim-de-semana no Médio Oriente poderão ter efeitos prolongados na economia global, com reflexos potenciais em Portugal, escreveu esta segunda-feira o jornal ‘Público’. Apesar de a ligação económica direta entre Portugal e o Irão ser reduzida, o impacto pode chegar por via dos mercados internacionais de energia.
As exportações portuguesas para o Irão têm um peso residual e Portugal não importa atualmente petróleo ou gás iraniano. No entanto, como sublinhou o jornal diário, os preços do petróleo e do gás natural são definidos nos mercados internacionais. Qualquer escalada militar na região tende a provocar uma subida quase imediata das cotações da energia.
O Irão é responsável por mais de 4% da produção mundial de petróleo, mas o fator mais sensível é o estreito de Ormuz. Cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente passa por esta rota estratégica que liga o Golfo Pérsico ao resto do mundo. A simples ameaça de bloqueio ou perturbação eleva o chamado “prémio de risco” no preço do crude.
Também o gás natural pode ser afetado. Uma parte significativa do Gás Natural Liquefeito (GNL) exportado pelo Irão e pelo Qatar atravessa o estreito de Ormuz. Riscos na circulação marítima podem pressionar os preços do gás e ter efeitos nas cadeias de abastecimento europeias.
Segundo o ‘Público’, mesmo que países da OPEP+ aumentem a produção para compensar eventuais quebras, essa capacidade adicional poderá não ser suficiente caso exista um bloqueio efetivo da rota. Além disso, grande parte do petróleo adicional também dependeria do mesmo corredor marítimo para chegar aos mercados.
Quando o preço do petróleo sobe, o efeito acaba por se refletir no valor dos combustíveis em Portugal, como gasolina e gasóleo. O impacto pode demorar algumas semanas, mas tende a chegar às bombas. O mesmo sucede com o gás, influenciando as contas de energia das famílias e os custos das empresas.
O efeito não se limita aos combustíveis. O aumento dos custos de transporte e produção pode acelerar a inflação, encarecendo bens e serviços. Um cenário prolongado de tensão pode pressionar o poder de compra das famílias e reduzir as margens das empresas.
O ‘Público’ recorda que o impacto poderá não atingir a dimensão das crises petrolíferas dos anos 1970, nem repetir automaticamente o choque energético de 2022, após a invasão da Ucrânia. A maior diversificação de fontes de energia e a existência de reservas estratégicas poderão atenuar parte do impacto. Ainda assim, um conflito prolongado poderá reacender pressões inflacionistas semelhantes às registadas há poucos anos.
Se a inflação voltar a acelerar, o Banco Central Europeu poderá sentir-se pressionado a subir as taxas de juro para cumprir o mandato de estabilidade de preços. Isso significaria crédito mais caro para famílias e empresas.
No conjunto, a combinação de menor poder de compra, custos energéticos elevados e financiamento mais oneroso pode travar o crescimento económico. O risco de abrandamento global, num contexto de energia mais cara, poderá também afetar as exportações portuguesas, concluiu o ‘Público’.








