Por Vasco Magalhães, Diretor-Geral da MELOM e Querido Mudei a Casa Obras
A resposta exige uma análise objetiva, baseada em dados concretos e não apenas em perceções ou discursos genéricos. Quando se observa o ciclo de vida completo de um edifício, a construção nova apresenta um impacto ambiental elevado logo na fase inicial. A produção de materiais como betão, aço e vidro, o transporte e a própria execução da obra representam uma parcela significativa da pegada carbónica total do edifício, antes mesmo de este começar a ser utilizado.
Na reabilitação, grande parte desse impacto inicial é evitado. A manutenção das estruturas existentes reduz drasticamente a necessidade de novos materiais e limita as emissões associadas à demolição e à reconstrução. Estudos europeus indicam que a reabilitação pode reduzir de forma significativa as emissões de CO₂ quando comparada com a construção nova em contexto urbano consolidado.
Há também um fator muitas vezes subestimado: a economia circular. Reabilitar é reutilizar, prolongar a vida útil dos edifícios e reduzir o desperdício. Enquanto a construção nova gera volumes elevados de resíduos, mesmo com práticas de reciclagem, a reabilitação permite diminuir de forma substancial a quantidade de materiais descartados, contribuindo para uma gestão mais eficiente dos recursos.
Outro argumento frequentemente usado contra a reabilitação prende-se com a eficiência energética. Existe a ideia de que apenas edifícios novos conseguem cumprir padrões elevados de desempenho energético. No entanto, os dados mostram que reabilitações bem planeadas, com reforço de isolamento, melhoria de caixilharias e modernização dos sistemas técnicos, conseguem níveis de eficiência muito próximos dos edifícios novos. A diferença não está tanto na idade do edifício, mas sim na qualidade do projeto e da execução.
Do ponto de vista urbano e ambiental, a reabilitação apresenta ainda vantagens claras. Ao reutilizar edifícios e infraestruturas existentes, reduz-se a pressão sobre o solo, evita-se a expansão urbana descontrolada e limita-se o impacto sobre ecossistemas e redes públicas. Este efeito cumulativo é particularmente relevante em cidades consolidadas, onde o território disponível é escasso e a regeneração urbana assume um papel estratégico.
Quando analisados de forma integrada (pegada carbónica inicial, consumo de recursos, produção de resíduos, eficiência energética ao longo do tempo e impacto urbano), os números apontam de forma consistente para a reabilitação como a opção mais sustentável na maioria dos cenários urbanos.
Isto não significa que a construção nova deixe de ser necessária, mas reforça uma ideia essencial: a sustentabilidade real constrói-se com decisões informadas, baseadas em dados e impacto concreto. E, cada vez mais, os números mostram que reabilitar é uma parte fundamental dessa resposta.




