Ataques, paraquedistas e um país em ebulição: o dia que há 51 anos abriu caminho ao PREC

Fracasso da chamada Intentona de 11 de Março acabou por acelerar a radicalização do processo revolucionário, abrindo caminho ao período conhecido como Processo Revolucionário em Curso (PREC) e ao chamado “Verão Quente” de 1975

Executive Digest

A tentativa de golpe de Estado liderada pelo general António de Spínola, a 11 de março de 1975, ficou para a história como um dos momentos mais tensos da Revolução dos Cravos e marcou o início de uma fase política profundamente turbulenta em Portugal. O fracasso da chamada Intentona de 11 de Março acabou por acelerar a radicalização do processo revolucionário, abrindo caminho ao período conhecido como Processo Revolucionário em Curso (PREC) e ao chamado “Verão Quente” de 1975.

Menos de um ano depois da queda da ditadura do Estado Novo, o país acordou nesse dia com movimentações militares inesperadas em Lisboa. Por volta das 11h45, aviões T-6 da Base Aérea de Tancos, apoiados por helicópteros armados, bombardearam o Regimento de Artilharia Ligeira n.º 1 (RALIS), uma unidade militar considerada próxima dos setores mais progressistas do Movimento das Forças Armadas (MFA). O ataque provocou a morte do soldado Joaquim Carvalho Luís, a única vítima mortal direta do confronto.

Ao mesmo tempo, forças paraquedistas tentaram cercar e tomar a unidade militar, onde se encontrava o capitão Dinis de Almeida, enquanto outras operações eram desencadeadas em diferentes pontos do país. Três aviões Nord-Atlas e vários helicópteros transportaram tropas que pretendiam controlar posições estratégicas, incluindo estruturas militares, centros de comunicação e instalações de segurança.

Entre as ações realizadas nesse dia estiveram também a detenção do comandante da GNR, general Pinto Ferreira, no quartel do Carmo, e o assalto ao emissor do Rádio Clube Português, em Porto Alto. O plano dos golpistas incluía ainda a tentativa de controlar a Base Aérea de Monte Real, em Leiria, e mobilizar outras unidades militares.

O ataque que falhou

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Apesar do ataque surpresa, várias unidades militares nas quais Spínola contava não aderiram ao golpe. As forças fiéis ao MFA reagiram rapidamente, mobilizando tropas e apelando à população para apoiar as unidades atacadas.

No RALIS, milhares de civis deslocaram-se para a zona da Encarnação, em Lisboa, tentando dissuadir os paraquedistas que cercavam a unidade. O aeroporto internacional da capital chegou mesmo a suspender o tráfego aéreo devido à situação de tensão.

Um dos momentos mais marcantes desse dia ocorreu quando o capitão Dinis de Almeida, responsável pela defesa do quartel, estabeleceu um diálogo transmitido pela televisão com Sebastião Martins, comandante das forças paraquedistas sitiantes, mediado pelo oficial da Marinha Costa Correia. O confronto terminou sem combate direto entre os militares, que acabaram por baixar as armas e abraçar-se, num gesto que ficaria gravado na memória coletiva da revolução.

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Ao início da tarde, a derrota da tentativa de golpe tornou-se evidente. Muitas das forças envolvidas renderam-se e o plano de Spínola entrou em colapso.

A fuga de Spínola

Perante o fracasso da operação e o isolamento político crescente, António de Spínola decidiu abandonar o país. O antigo Presidente da República e alguns dos seus apoiantes mais próximos fugiram de helicóptero para Talavera la Real, perto de Badajoz, em Espanha franquista.

Mais tarde, Spínola seria expulso das Forças Armadas, juntamente com outros oficiais envolvidos na tentativa de golpe — embora viessem a ser reintegrados alguns anos depois.

O medo da “matança da Páscoa”

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Os apoiantes da operação justificavam o golpe com a alegada existência de um plano da extrema-esquerda para eliminar cerca de 1.500 figuras civis e militares associadas à direita, numa suposta “Operação Matança da Páscoa”, prevista para os dias 12 e 13 de março. No entanto, essa ameaça nunca foi comprovada.

O clima político da época era marcado por forte polarização, com setores conservadores temendo a crescente influência da esquerda e do Partido Comunista Português, enquanto grupos revolucionários defendiam uma transformação profunda da sociedade portuguesa.

A revolução vira ainda mais à esquerda

O falhanço da tentativa de golpe acabou por ter consequências políticas imediatas. Na noite de 11 de março de 1975, uma reunião de emergência do Movimento das Forças Armadas, conhecida como “assembleia selvagem”, decidiu institucionalizar o MFA e criar o Conselho da Revolução, órgão que passaria a desempenhar um papel central no poder político.

Pouco tempo depois, foram anunciadas nacionalizações em larga escala, começando pela banca e pelos seguros. Nos meses seguintes, o Estado passou a controlar cerca de 1.200 empresas, incluindo setores estratégicos da economia.

Simultaneamente, avançaram processos de ocupação de terras e reforma agrária, sobretudo no Alentejo e Ribatejo, reforçando a influência das forças mais à esquerda no processo revolucionário.

O início do PREC

Os acontecimentos de 11 de março abriram caminho ao período mais conturbado da revolução portuguesa. Durante meses, Portugal viveu uma intensa disputa política entre diferentes correntes militares e civis, que defendiam projetos distintos para o futuro do país.

Esse período ficaria conhecido como Processo Revolucionário em Curso (PREC) ou “Verão Quente de 1975”, marcado por confrontos políticos, manifestações de rua e fortes divisões dentro das próprias Forças Armadas.

A crise só viria a ser resolvida a 25 de novembro de 1975, quando os setores militares moderados travaram a influência das correntes mais radicais e abriram caminho à estabilização democrática.

Quase meio século depois, o 11 de março de 1975 continua a ser recordado como um dos dias decisivos da revolução portuguesa — o momento em que uma tentativa de golpe falhada acabou por mudar o rumo político do país.

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