O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, assumiu o volante de um lançador múltiplo de rockets com capacidade nuclear durante uma cerimónia na capital Pyongyang, numa demonstração de força militar que combina propaganda interna e aviso estratégico a possíveis adversários, segundo os meios de comunicação estatais norte-coreanos.
De acordo com a Agência Central de Notícias Coreana (KCNA), Kim classificou o sistema como um dos mais poderosos do mundo, enfatizando que “nenhuma outra nação possui este tipo de sistema de armas”, reforçando a singularidade tecnológica e estratégica do armamento norte-coreano.
A demonstração ocorreu no contexto da preparação para o Nono Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, evento em que o regime intensifica a propaganda e exibições de capacidade militar. O país mantém-se ainda como apoiante da Rússia na invasão da Ucrânia, fornecendo mísseis e milhares de tropas, e a experiência adquirida neste contexto militar poderá estar a aperfeiçoar a tecnologia e as táticas de Pyongyang.
As imagens oficiais mostraram 50 veículos transportadores do sistema de rockets de 600 mm, alinhados em fileiras de sete, cada veículo com quatro eixos e cinco tubos de lançamento. Kim desceu de um lançador móvel de mísseis próximo do palco principal, exibindo um grande sorriso enquanto se sentava ao volante, perante milhares de cidadãos agitando pequenas bandeiras norte-coreanas.
Rockets de 600 mm com inteligência artificial e alcance estratégico
Segundo a KCNA, os rockets de 600 mm são equivalentes a mísseis balísticos de curto alcance e o seu sistema de orientação inclui inteligência artificial, posicionando-os numa categoria tecnológica própria. Kim afirmou ainda que “o sistema mudou completamente o papel e o design da artilharia aceites pela guerra moderna”.
O líder norte-coreano sublinhou que estes sistemas permitem colocar toda a Coreia do Sul ao alcance e podem ser equipados com ogivas nucleares táticas, aumentando a ameaça estratégica regional.
Observadores internacionais estimam que a Coreia do Norte possui cerca de 50 ogivas nucleares, com material físsil suficiente para produzir mais 30 a 40. Para além dos lançadores múltiplos de rockets, Pyongyang dispõe de mísseis balísticos intercontinentais capazes de atingir os Estados Unidos e de armas de curto alcance direcionáveis à Península Coreana ou outros alvos no Pacífico Ocidental.
O país possui ainda milhares de peças de artilharia convencional, com capacidade para causar destruição significativa na Coreia do Sul. Um relatório da RAND Corporation de 2020 indicava que se disparados contra alvos civis, quase 6.000 sistemas de artilharia poderiam matar mais de 10.000 pessoas em apenas uma hora, evidenciando o elevado risco da combinação de armamento nuclear e convencional.
Próximo congresso do partido como palco para mais revelações
A exibição militar decorreu em frente à Casa da Cultura 25 de Abril, decorada com faixas e cartazes alusivos ao Nono Congresso do Partido. Kim sublinhou que o congresso revelará os planos estratégicos da Coreia do Norte, referindo que “o Nono Congresso do nosso Partido tornará claro o plano e o objetivo da próxima etapa para reforçar as capacidades de defesa autossuficientes”.
O líder apelou ainda aos responsáveis pelo desenvolvimento de armas e montagem de munições para redobrar esforços na execução das metas do partido, sugerindo que nos próximos dias poderão ser apresentados mais equipamentos militares.
A demonstração de quarta-feira reflete a estratégia de Pyongyang de exibir armamento antes de eventos políticos importantes, sublinhando o reforço contínuo do poder militar e da capacidade de intimidação. As relações com Seul permanecem tensas, agravadas pela presença de milhares de tropas norte-americanas na Coreia do Sul.
Analistas consideram que a experiência adquirida pelos militares norte-coreanos através da colaboração com a Rússia na guerra da Ucrânia pode acelerar a modernização de armamento nuclear e convencional, tornando o país cada vez mais capaz de projetar poder na região.










