Num contexto de crescente concorrência no mercado do jogo, os Jogos Santa Casa procuram equilibrar inovação, experiência do utilizador e responsabilidade social.
Com mais de dois séculos de ligação aos jogos sociais do Estado, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa continua a desempenhar um papel central no financiamento das boas causas, num contexto marcado pela digitalização, pela concorrência internacional e por crescentes exigências em matéria de jogo responsável.
Em entrevista à Executive Digest, Ricardo Lavos, director-geral do Departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, explica como os Jogos Santa Casa têm evoluído em produto, experiência do utilizador e impacto social.
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é uma das instituições mais antigas do País. De que forma esta herança histórica influencia hoje a actuação dos Jogos Santa Casa no mercado?
Mais de cinco séculos depois, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa mantém a missão de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e contribuir para o bem-estar da comunidade, adaptando a sua intervenção às necessidades de cada época. É dessa missão que decorre a relevância dos Jogos Santa Casa no mercado dos jogos sociais do Estado.
Para além da Obra Social, a Misericórdia actua em áreas como saúde, educação, cultura, património e economia social, cabendo-lhe, em exclusivo e em nome do Estado, a exploração dos jogos sociais em todo o território nacional, cujas receitas revertem para as Boas Causas. Ao garantir o cumprimento da política nacional de jogo, promove o entretenimento dos apostadores e cria valor que é devolvido à sociedade através do financiamento de despesas de natureza social.
Este trabalho foi recentemente reconhecido ao mais alto nível europeu, com o regresso da SCML à direcção da European Lotteries para o mandato 2025-2027, destacando o contributo dos jogos sociais no financiamento de múltiplos beneficiários da sociedade portuguesa.
Como é que os Jogos Santa Casa têm evoluído em termos de produto e experiência do utilizador?
A evolução dos Jogos Santa Casa está intimamente ligada à história da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, iniciada em 1783, quando D. Maria I instituiu a primeira lotaria portuguesa. Desde então, os jogos sociais afirmaram-se como um instrumento central de financiamento das Boas Causas, ligação que se mantém há mais de dois séculos. Em reconhecimento da sua idoneidade e responsabilidade, o Estado continua a confiar à Santa Casa, em regime de exclusividade, a exploração dos jogos sociais em todo o território nacional.
Ao longo do tempo, o portefólio foi sendo alargado e modernizado, integrando jogos como Lotarias, Totoloto, Totobola, Euromilhões, M1LHÃO, Raspadinha, PLACARD e, mais recentemente, o EuroDreams, disponíveis em mais de 5.000 mediadores e em canais digitais. Esta evolução permitiu diversificar a oferta de entretenimento, melhorar a experiência do utilizador e reforçar o financiamento público de áreas como Ação Social, Saúde, Desporto, Cultura ou Proteção Civil.
Paralelamente, os Jogos Santa Casa assumem a responsabilidade de canalizar a procura para uma oferta regulada, promovendo práticas de jogo responsável, combatendo o jogo ilegal e assegurando que o valor gerado é devolvido à sociedade, quer através de prémios, quer através da distribuição de resultados aos beneficiários definidos por lei. Em 2024, registaram o segundo melhor resultado de sempre em vendas brutas, com 3.142,9 milhões de euros, correspondendo a 895,7 milhões de euros entregues ao Estado, o maior montante alguma vez gerado pelos jogos sociais.
Num mercado cada vez mais competitivo, com operadores internacionais a investir de forma agressiva em publicidade e captação de jogadores, como se diferenciar?
Os Jogos Santa Casa têm responsabilidades acrescidas em matéria de Jogo Responsável e são, acima de tudo, uma instituição e uma missão em prol da comunidade. E estes são os dois grandes factores diferenciadores dos demais operadores internacionais no mercado do jogo online em Portugal, que se regem única e exclusivamente por interesses comerciais. Além disso, todos os portugueses sabem “quem” são os Jogos Santa Casa e veem nisso um factor de credibilidade e confiança, que também nos distingue dos outros operadores.
A par disso, com uma oferta atractiva, acessível e segura, os Jogos Santa Casa têm apostado na diversificação e revitalização do seu portefólio, à qual se junta uma política regular de comunicação junto de todos quantos estão envolvidos no ato de aposta, não só colaboradores e mediadores, mas sobretudo os apostadores.
Estes factores diferenciadores são estratégicos para os jogos sociais do Estado e, por isso, a administração da Santa Casa está fortemente empenhada em reforçar o posicionamento dos Jogos Santa Casa junto dos apostadores e da sociedade.
Como é que a política de jogo responsável se traduz na prática, tanto no canal físico como no digital?
A política de Jogo Responsável dos Jogos Santa Casa é uma política de continuidade e melhoria contínua, sendo uma preocupação que vem de há largos anos, principalmente, desde meados da década de 2000. Ao longo desse tempo, sucessivas medidas têm vindo a ser gradualmente implementadas, muitas das quais são pouco visíveis para o público em geral, mas têm consequências positivas para a prevenção de fenómenos de jogo problemático. A formação de colaboradores e mediadores, a aplicação de boas práticas de jogo responsável no desenho de jogos e na sua publicidade, os mecanismos de protecção e autoprotecção nos canais digitais, a informação transparente sobre as regras e as características dos jogos, a informação sobre os riscos do jogo e as recomendações para a adoção de hábitos de jogo moderados, a disponibilização de informação e apoio psicológico a pessoas com eventuais problemas com o jogos, as campanhas de sensibilização, são alguns dos exemplos das medidas que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) tem vindo a desenvolver ao longo dos anos.
Os Jogos Santa Casa contribuem anualmente para múltiplas áreas sociais, culturais e desportivas. Como é definida esta distribuição e quais são actualmente as prioridades estratégicas?
O Programa Impulso – Bolsas de Educação Jogos Santa Casa, criado em 2013 pelo Departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em parceria com o Comité Olímpico de Portugal e o Comité Paralímpico de Portugal, tem como objectivo apoiar a formação académica de atletas de alto rendimento, promovendo carreiras duais e a preparação para o pós-carreira desportiva. Ao longo de mais de uma década, o programa atribuiu 521 bolsas a 256 atletas, de 28 modalidades, afirmando-se como uma iniciativa pioneira a nível nacional e europeu.
Paralelamente, desde 2015, os Jogos Santa Casa apoiam o desporto universitário através do patrocínio à Federação Académica do Desporto Universitário e da criação, em 2017, do Programa de Bolsas de Educação – Carreiras Duais, dirigido a estudantes-atletas que representam as selecções nacionais universitárias.
No actual ciclo olímpico, até 2028, a estratégia passa por integrar os diferentes programas num único projecto de bolsas, com uma abordagem mais integrada, sustentável e equitativa, reforçando o apoio à educação como pilar essencial no desenvolvimento desportivo e na preparação do futuro dos atletas.
A rede de mediadores continua a ser um activo importante. Como está a evoluir este ecossistema e que papel terá no futuro dos Jogos Santa Casa?
Os Jogos Santa Casa estão efectivamente em processo de expansão da sua rede comercial – contam actualmente com cerca de 5000 pontos de venda em território nacional -, permitindo desta forma reforçar a sua política de sustentabilidade das Boas Causas e o seu importante papel na dinamização das economias locais.
Trata-se de um processo de expansão ambicioso, que tem na sua génese estudos técnicos que analisaram as necessidades do território e as oportunidades económicas deste investimento. Além disso, esta expansão está assente numa política de jogo responsável, uma vez que permitirá reforçar o combate ao jogo ilegal e dinamizar a economia local, através de pequenos e médios negócios, muitos deles familiares.
Os novos mediadores estão a ser seleccionados de acordo com as normas do novo Concurso de Selecção de Mediadores, que estabelece um procedimento transparente e rigoroso, adaptado aos novos desafios tecnológicos e totalmente focado na aplicação de critérios de imparcialidade, assegurando o estrito cumprimento de todas as regras aplicáveis.
Importa sublinhar que o valor das apostas nos Jogos Santa Casa é devolvido à sociedade em 97%, através de prémios, da distribuição pelos beneficiários que actuam na área social, na saúde, no desporto e na cultura, em todo o País, e pela via do Imposto do Selo. O retorno é ainda garantido através do pagamento à rede de mediadores dos Jogos Santa Casa, composta maioritariamente por micro, pequenas e médias empresas, que asseguram directamente mais de 17 mil postos de trabalho em todo o País.
Este artigo faz parte da edição de Fevereiro (n.º 239) da Executive Digest.














