Os Estados Unidos estão a reorientar o seu programa de financiamento externo com o objetivo de apoiar organizações europeias alinhadas com a agenda política associada ao movimento MAGA, revelou esta sexta-feira o jornal ‘POLITICO’. Um número crescente de think tanks e grupos conservadores e de extrema-direita na Europa tem manifestado interesse em estabelecer cooperação com Washington.
Responsáveis do Departamento de Estado americano mantiveram contactos preliminares com representantes do think tank francês ‘Western Arc’ e com a ‘Free Speech Union’ britânica. As abordagens terão sido influenciadas por uma lista de organizações europeias considerada “ideologicamente alinhada”, fornecida pela The Heritage Foundation, instituição próxima do universo político de Donald Trump.
Representantes de cerca de dez think tanks europeus, contactados pelo ‘POLITICO’, descreveram um ecossistema em crescimento de organizações conservadoras que se têm profissionalizado nos últimos anos e que procuram reforçar a cooperação transatlântica. A ambição passa por utilizar instrumentos tradicionalmente associados ao soft power americano — anteriormente usados para promover o liberalismo — para fortalecer uma agenda designada por alguns como “aliança civilizacional”.
Contactos em França e Reino Unido
O ‘Western Arc’, fundado em Paris por Nicolas Conquer, apresentou-se como inspirado na filosofia MAGA e declarou ter mantido conversas com responsáveis do Departamento de Estado sobre possíveis projetos conjuntos. Entre as ideias discutidas estarão iniciativas de cooperação transatlântica e programas ligados às celebrações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos.
Um porta-voz do Departamento de Estado afirmou ao ‘POLITICO’ que o financiamento externo constitui um uso “transparente e legal” de recursos para promover interesses e valores americanos no estrangeiro.
Também no Reino Unido, a ‘Free Speech Union’ confirmou contactos com autoridades americanas. Segundo Toby Young, fundador da organização, foram discutidas possibilidades de financiamento para entidades parceiras noutras geografias, sugerindo que o alcance da iniciativa poderá não se limitar à Europa.
Estratégia mais ampla
A reorientação surge após a divulgação da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, que defende o fortalecimento de organizações que se oponham à “censura” e a determinadas políticas migratórias na Europa.
Segundo o ‘POLITICO’, a iniciativa ganhou novo impulso depois de consagrada na estratégia nacional. Embora os montantes inicialmente discutidos tenham sido descritos como reduzidos, fontes citadas indicam que o programa poderá expandir-se.
Historicamente, o financiamento americano a organizações europeias não é novidade. Durante o período pós-guerra, Washington apoiou projetos destinados a promover ideais democráticos e liberais, como a Radio Free Europe. A diferença agora reside no alinhamento ideológico dos potenciais beneficiários.
Rede em consolidação
Think tanks como o ‘MCC Bruxelas’, a ‘Fondazione Maquiavel’, em Itália, e outras organizações conservadoras têm reforçado laços com parceiros americanos, participando em conferências como a CPAC e promovendo cooperação em estudos e eventos conjuntos.
Segundo representantes dessas entidades, a colaboração tem vindo a intensificar-se, embora muitas organizações afirmem não existir troca direta de recursos financeiros até ao momento.
Tensão geopolítica e “independência europeia”
A iniciativa surge num contexto de renovadas tensões transatlânticas, nomeadamente após declarações de Donald Trump sobre a Gronelândia, território sob soberania dinamarquesa. Enquanto líderes europeus, como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apelam a maior “independência europeia”, organizações conservadoras procuram equilibrar a defesa da soberania europeia com a manutenção de uma aliança ideológica com Washington.
Algumas entidades afirmam não estar interessadas em financiamento estrangeiro direto, sobretudo devido a restrições legais aplicáveis a partidos políticos na União Europeia. Ainda assim, mantêm contactos institucionais e participam em encontros com responsáveis norte-americanos.
Para vários representantes citados pelo ‘POLITICO’, a presença de Donald Trump na Casa Branca representa uma oportunidade para reforçar posições políticas comuns, numa altura em que a dinâmica transatlântica atravessa uma fase de redefinição estratégica.












