Da Renault à Volkswagen: a indústria automóvel entra no rearmamento da Europa

A ligação entre o setor automóvel e a indústria militar não é nova. Ao longo do século XX, os construtores foram chamados a contribuir para o esforço de guerra

Automonitor
Janeiro 22, 2026
19:05

A indústria automóvel europeia está a reforçar a sua ligação histórica ao setor militar, num contexto de rearmamento acelerado do continente. Em França, a Renault estabeleceu uma parceria com a PME Turgis Gaillard para montar drones táticos na unidade de Le Mans, inicialmente destinados ao teatro de operações ucraniano, enquanto na Alemanha a Rheinmetall admite converter fábricas automóveis, incluindo uma unidade da Volkswagen, para a produção de equipamento militar, segundo o ‘L’Automobile Magazine’.

De acordo com a mesma publicação, a produção dos drones associados à Renault poderá atingir até 600 unidades por mês no primeiro ano de atividade, integrando-se num esforço mais vasto de revitalização industrial e de reforço da capacidade defensiva europeia.

Uma relação antiga entre automóveis e guerra

A ligação entre o setor automóvel e a indústria militar não é nova. Ao longo do século XX, os construtores foram chamados a contribuir para o esforço de guerra, dando origem a veículos militares emblemáticos. Um dos exemplos mais conhecidos é o Kübelwagen, veículo utilitário ligeiro derivado do Volkswagen Carocha, concebido por Ferdinand Porsche, bem como a sua versão anfíbia, o Schwimmwagen 166.

Durante a II Guerra Mundial, dezenas de milhares destes veículos foram utilizados pelo exército alemão. Também marcas como BMW, Mercedes, Ford e Renault participaram, em diferentes graus, no fornecimento de equipamento militar, em terra, no ar e no mar, um envolvimento que nem sempre ficou associado “ao lado certo da história”, recorda o ‘L’Automobile Magazine’.

Renault entra na produção de drones militares

O exemplo mais recente desta convergência surge agora em França, com a colaboração entre a Renault e a empresa aeroespacial Turgis Gaillard, sediada em Neuilly-sur-Seine e principal contratada do Ministério da Defesa francês para programas aeronáuticos.

Apesar das reservas expressas por alguns trabalhadores, o Grupo Renault assinou um contrato para a montagem da estrutura de um drone tático em Le Mans. Os aparelhos terão uma envergadura próxima dos dez metros e um custo de produção descrito como “extremamente competitivo”. O projeto poderá envolver entre 100 e 200 trabalhadores e representa um contrato avaliado em cerca de mil milhões de euros ao longo de dez anos.

A montadora francesa sublinha, no entanto, que o seu papel não será o de projetista de armamento, mas o de parceiro industrial capaz de produzir em larga escala plataformas já desenvolvidas, tirando partido da sua experiência em produção em massa, controlo de custos e fiabilidade industrial.

A Alemanha segue o mesmo caminho

Também a Alemanha se prepara para reforçar a sua base industrial de defesa. A Rheinmetall, maior grupo de armamento do país, anunciou planos para converter duas fábricas de automóveis para a produção de equipamento militar, incluindo a unidade da Volkswagen em Osnabrück.

Atualmente dedicada à produção do T-Roc Cabriolet e de componentes para os Porsche 718 Cayman e Boxster, esta fábrica poderá vir a fabricar tanques e outros sistemas militares. A conversão permitiria ao governo alemão evitar os elevados custos associados à construção de novas instalações exclusivamente dedicadas à defesa.

Um rearmamento europeu em aceleração

Estas iniciativas refletem a decisão dos Estados europeus de reforçar rapidamente as suas indústrias de defesa face ao agravamento das ameaças externas. Os ministérios da Defesa do continente procuram acelerar o desenvolvimento de capacidades de dissuasão e garantir meios para apoiar países aliados, incluindo fora da União Europeia.

Da produção de automóveis à montagem de drones e tanques, a indústria europeia volta a desempenhar um papel central numa nova fase de militarização, em que eficiência industrial e capacidade produtiva são vistas como ativos estratégicos.

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