“Quando os gestores ambicionam crescer, definem metas mais exigentes”, explica Miguel Ferreira, professor catedrático na Nova SBE

Um estudo conduzido por Miguel Ferreira, professor catedrático na Nova School of Business and Economics (Nova SBE), mostra que a formação em gestão dirigida a empresários portugueses tem um impacto positivo no rendimento e desempenho das pequenas e médias empresas (PME).

André Manuel Mendes

Um estudo conduzido por Miguel Ferreira, professor catedrático na Nova School of Business and Economics (Nova SBE), mostra que a formação em gestão dirigida a empresários portugueses tem um impacto positivo no rendimento e desempenho das pequenas e médias empresas (PME).

A investigação ava­liou, os efeitos de três programas de formação em áreas-chave da gestão, incidindo so­bre competências, prácticas e resulta­dos empresariais.

Crescimento no rendimento, volume de negócios e emprego

De acordo com os resultados do estudo, os gestores que participaram no programa registaram, no ano seguinte à for­mação, um aumento do rendimento pessoal líquido, assim como uma expansão do volume de negócios e do número de colaboradores das suas empresas. Os efei­tos foram particularmente expressivos no curso de Finanças, Contabilidade e Gestão de Operações.

Os dados administrativos mostram um crescimento significativo do número de trabalhadores nas empresas integradas no programa, sobretudo no grupo de Estratégia, Marketing e Internacio­nalização. Embora existam sinais de aumento nas vendas, valor acrescentado e activos, a amostra ainda não permite afirmar com segurança estatística que a formação tenha impacto consistente nestas variáveis.

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Aquisição de conhecimentos e práticas de gestão

Os participantes demonstraram melho­rias claras nas competências associadas aos conteúdos que estudaram. O estudo contemplou questões específicas por área e revelou que os gestores dos cursos tiveram um desempenho signi­ficativamente superior nas perguntas ligadas aos temas tratados.

A formação contribuiu também para melhorias nas práticas de gestão, sobretudo no grupo de Finanças, Contabilidade e Gestão de Operações. As PME participantes passaram a realizar ava­liações de desempenho com maior regularidade e a basear promoções em critérios de performance.

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O estudo identificou igualmente um acréscimo nas aspirações dos gestores. Em média, os participantes projectam alcançar, dentro de cinco anos, um rendimento pessoal líquido 10% superior ao do grupo de controlo. As metas re­lacionadas com o volume de negócios também apontam para tendências de crescimento, ainda que nem sempre com significância estatística.

Formação como motor de inclusão e mobilidade social

O autor do estudo conclui que capacitar os gestores com hard e soft skills adequadas pode impulsionar o crescimento das PME e reforçar a produtividade. Os resultados sugerem que programas de formação executiva com desenho rigoroso – como os testados neste estudo – podem desempenhar um papel rele­vante na mobilidade social e na inclusão económica em Portugal.

Em entrevista à Executive Digest, Miguel Ferreira explica as principais conclusões da análise, o que muda na vida das empresas e por que razão for­mar gestores é um investimento com retorno para o país.

O que motivou a realização deste estudo sobre o impacto da formação dos gesto­res nas PME portuguesas?

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Queríamos perceber, com evidência experimental robusta, se a formação em gestão tem efeitos reais no desempenho das PME e nas decisões dos seus gestores, e não apenas percepções subjectivas. Num país em que as PME são a espinha dorsal da economia, mas onde quase não existem estudos com metodologia experimental (estudo randomizado controlado), era essencial testar de forma rigorosa o impacto de diferentes tipos de formação em gestão. Ao mesmo tempo, havia a intuição de que abrir o acesso a formação de executivos para gestores de PME de qualidade podia ser uma poderosa ala­vanca de crescimento e inclusão social, que valia a pena medir com dados.

Um dos resultados é o aumento do rendimento dos gestores e do volume de negócios das empresas. Que factores ajudam a explicar este efeito?

Passa pela combinação de melhores competências de gestão, práticas mais pro­fissionais e maior ambição dos gestores. A formação leva a decisões financeiras mais sólidas, melhor organização interna e uma maior disciplina na forma como se planeia e acompanha o negócio, em especial no grupo de gestores que tiveram formação em Finanças, Contabilidade e Gestão de Operações. Para além disso, os gestores passam a olhar para a empresa com outra confiança, o que os torna mais propensos a investir, contratar e procurar novas oportunidades de crescimento.

Que tipo de competências parecem ter maior peso no crescimento efectivo das empresas – as técnicas (hard skills) ou as comportamentais (soft skills)?

As hard skills mostram efeitos mais imediatos nos indicadores de perfor­mance da empresa, como o volume de negócios e o número de colaboradores, porque melhoram a qualidade das de­cisões diárias sobre finanças, operações e investimento. Mas as soft skills – lide­rança, comunicação, gestão de pessoas – ajudam a sustentar esse crescimento, reforçando a motivação das equipas e a capacidade de executar mudanças.

Na prática, o estudo sugere que o impacto é mais forte quando se combinam competências técnicas sólidas com competências comportamentais que permi­tem mobilizar as pessoas.

O estudo mostra também uma melhoria nas aspirações dos gestores. Em que medida esse factor psicológico pode influenciar o desempenho empresarial?

Quando os gestores ambicionam cres­cer e atingir volumes de negócios mais elevados, definem metas mais exigentes e procuram activamente novas opor­tunidades, em vez de se limitarem a “gerir o dia-a-dia”. As aspirações funcionam como um motor interno que, aliado a novas competências, aumenta a probabilidade de transformação efectiva da empresa. Este salto de ambição traduz-se em maior disposição para investir, rever processos, assumir riscos calculados e sair da zona de conforto, o que é crucial para qualquer PME que queira crescer.

Qual é a mensagem principal que este estudo transmite aos empresários?

Simples: investir na sua formação em competências de gestão não é um custo, é um activo estratégico com retorno mensurável. A evidência mostra que a capacitação dos gestores pode aumentar o rendimento pessoal, o crescimento da empresa e a qualidade das práticas de gestão, com efeitos que se começam no curto prazo. Para os empresários, isto significa que investir na sua actualiza­ção, enquanto líderes, é tão importante como investir em tecnologia, inovação ou novos mercados.

Que papel pode desempenhar a forma­ção em gestão no aumento da produtivi­dade e competitividade das PME?

Ajuda a profissionalizar as PME: melhora processos, clarifica prioridades, refor­ça a disciplina financeira e a gestão de pessoas, reduzindo ineficiências e erros. Pequenas mudanças na forma como o gestor decide podem ter um impacto muito grande na produtividade e na capacidade de competir em mercados exi­gentes, internos e externos. Dado o peso das PME na economia, escalar estas melhorias na gestão é uma via directa para aumentar a produtividade do país como um todo.

Os resultados do estudo sugerem que a formação de executivos pode funcionar como um motor de mobilidade social. Que impacto tem para as políticas públi­cas de educação e emprego em Portugal?

Se a formação em gestão aumenta o rendimento dos gestores de PME, então pode ser um instrumento de mobilida­de social, sobretudo para aqueles que não têm um acesso fácil a formação de executivos de topo. Por isso, as políticas públicas devem olhar para estes programas como investimentos sociais, apoiando o seu alargamento e o acesso a públicos mais diversificados, incluindo gestores de regiões ou sectores mais vulneráveis. Isto pode passar por bolsas, cofinancia­mento e incentivos para que mais PME possam beneficiar desta capacitação.

Que papel podem ter instituições como a Fundação “la Caixa” ou o próprio ensino superior público na democratização do acesso a esta formação?

Estas instituições podem ser decisi­vas ao financiar bolsas, co-organizar programas com universidades e levar formação de qualidade a gestores que, de outra forma, seriam excluídos. Ao democratizar o acesso à formação de executivos, estão a contribuir, simulta­neamente, para empresas mais fortes e para uma economia mais inclusiva, onde o acesso ao conhecimento não depende apenas da capacidade financeira. Além disso, têm a possibilidade de promover modelos de formação desenhados desde o início para serem avaliados e ajustados com base em evidência.

Uma das conclusões é o reforço da ideia que educar gestores é investir no cresci­mento económico. Está o país a valorizar suficientemente a formação contínua dos líderes empresariais?

Ainda não. Embora existam boas ofertas, grande parte das PME continua sem conseguir aceder regularmente a for­mação de executivos, seja por questões de custo, tempo ou desconhecimento do retorno deste investimento. Os resulta­dos sugerem que Portugal ganharia em apostar mais fortemente na formação contínua dos seus líderes empresariais, articulando melhor o esforço de empre­sas, Estado, fundações e academia. Em termos práticos, ainda não tratamos a formação dos gestores com a mesma prioridade com que falamos de inovação, exportações ou digitalização.

Quais são hoje as principais competên­cias que um gestor precisa de desenvol­ver para liderar com sucesso?

A gestão financeira e de operações, ca­pacidade de liderar e motivar pessoas, visão estratégica de médio prazo e abertura para aprender continuamente num contexto em rápida mudança. A isto junta-se uma ambição responsá­vel: querer crescer, mas com práticas de gestão sólidas e uma preocupação real com o impacto social da empresa e o desenvolvimento das equipas. É a combinação destas competências que permite transformar uma boa ideia de negócio num projecto sustentável e gerador de oportunidades.

Sobre o estudo

O Estudo do Observatório Social da Fundação “la Caixa”, intitulado “A Formação dos Gestores como Estratégia de Mobilidade Social e Inclusão”, baseado numa metodologia de Randomized Control Trial (RCT), analisou 604 gestores de PME seleccionados aleatoriamente entre mais de 1.600 candidatos. Destes, 342 participaram efectivamente na formação e foram distribuídos por três cursos: Finanças, Contabilidade e Gestão de Operações; Liderança e Gestão de Pessoas; e Estratégia, Marketing e Internacionalização. Os restantes 262 constituíram o grupo de controlo. A recolha de dados decorreu entre Dezembro de 2022 e Abril de 2024, através de inquéritos semestrais e de demonstrações financeiras obtidas via Informação Empresarial Simplificada.

 


Perfil do Investigador

Miguel Ferreira é Professor Catedrático na Nova School of Business and Economics, onde ocupa a cátedra BPI | Fundação “la Caixa” em Responsible Finance. É Vice-Dean de Faculty e Research, Director do Nova Finance Knowledge Center e Coordenador do programa de literacia financeira “Finanças para Todos”. É doutorado em Finanças pela University of Wisconsin-Madison e investigador associado do ECGI e do CEPR. É administrador independente do BPI Gestão de Ativos, consultor científico na Fundação Francisco Manuel dos Santos e tem ampla experiência em formação de executivos, perícias judiciais e consultoria.

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