Metas climáticas em risco: Plano dos EUA para explorar petróleo da Venezuela pode consumir 13% do orçamento global de carbono

Os planos dos Estados Unidos para intensificar a exploração das reservas petrolíferas da Venezuela poderão, até 2050, consumir mais de um décimo do orçamento global de carbono disponível para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius.

Pedro Gonçalves
Janeiro 12, 2026
19:04

Os planos dos Estados Unidos para intensificar a exploração das reservas petrolíferas da Venezuela poderão, até 2050, consumir mais de um décimo do orçamento global de carbono disponível para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius. A conclusão consta de uma análise exclusiva da ClimatePartner, uma empresa especializada em contabilidade de carbono, que alerta para o risco de o planeta ser empurrado ainda mais para uma catástrofe climática.

De acordo com os cálculos, qualquer iniciativa destinada a aumentar significativamente a extração de petróleo no país sul-americano — detentor das maiores reservas provadas do mundo, pelo menos em termos teóricos — colocaria uma pressão acrescida sobre os objetivos climáticos globais e comprometeria os esforços para evitar os impactos mais severos das alterações climáticas.

As reservas provadas de petróleo da Venezuela são tão vastas que, caso fossem totalmente exploradas, seriam suficientes para esgotar, por si só, todo o orçamento de carbono restante compatível com o limite de 1,5 graus Celsius, considerado pelos cientistas como o limiar para evitar os piores efeitos do colapso climático.

Este cenário extremo é considerado improvável, sobretudo devido ao estado degradado da infraestrutura petrolífera venezuelana, afetada por anos de sanções internacionais e subinvestimento. No entanto, o contexto político recente reacendeu o interesse norte-americano na exploração do crude venezuelano.

Na semana que se seguiu à captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças especiais dos Estados Unidos e à sua transferência para Nova Iorque, o presidente norte-americano, Donald Trump, apelou às petrolíferas para investirem cerca de 100 mil milhões de dólares (74 mil milhões de libras) na reativação dos poços de petróleo do país.

“Vamos estar a extrair quantidades de petróleo como poucas pessoas alguma vez viram”, afirmou Trump na passada sexta-feira, durante um encontro com executivos da indústria petrolífera.

Produção adicional teria impacto climático significativo
A análise realizada para o Guardian pela ClimatePartner modelou um cenário em que a produção petrolífera da Venezuela aumenta em 500 mil barris por dia até 2028, acelerando depois para um acréscimo de 1,58 milhões de barris diários entre 2035 e 2050.

Mesmo este cenário — que ainda ficaria bastante abaixo dos 3,5 milhões de barris por dia produzidos durante o auge petrolífero venezuelano nos anos 1990 — seria suficiente para consumir cerca de 13% de todo o orçamento global de carbono restante compatível com o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 graus.

O petróleo “mais sujo do mundo”
Segundo estimativas da indústria, o petróleo extraído das reservas venezuelanas é considerado o mais poluente do mundo. Classificado como crude pesado e ácido, apresenta uma consistência densa, semelhante a alcatrão, e um elevado teor de enxofre.

Estas características tornam a extração significativamente mais intensiva em energia do que a de petróleos mais leves, como o crude “doce” produzido, por exemplo, na Arábia Saudita. Para além disso, os processos necessários para tornar este petróleo utilizável aumentam substancialmente as emissões associadas.

Um estudo da S&P Global Platts Analytics concluiu que os depósitos da Faixa do Orinoco, na Venezuela, apresentam a maior intensidade carbónica de todas as grandes regiões produtoras de petróleo do mundo.

De acordo com o mesmo relatório, a intensidade carbónica do crude da Faixa do Orinoco atinge cerca de 1.460 quilos de dióxido de carbono equivalente por barril de petróleo equivalente, um valor quase mil vezes superior ao do petróleo extraído no campo norueguês de Johan Sverdrup, cuja intensidade é de apenas 1,6 quilos de CO₂ por barril.

O estudo sublinha que esta intensidade carbónica “extrema” significa que este tipo de crude enfrentará sérias dificuldades “num mundo com orçamentos de carbono restritos”.

Alerta para um bloqueio prolongado de emissões elevadas
Hollie Parry, analista sénior da ClimatePartner, alertou para as consequências de uma decisão deste tipo. “A opção de aumentar a produção de um dos petróleos mais intensivos em carbono do mundo até níveis históricos consumiria cerca de 13% do orçamento global de carbono restante — o equivalente a quase uma década de emissões de toda a União Europeia, resultantes de uma única expansão petrolífera”, afirmou.

Segundo a analista, “num mundo que aquece rapidamente, uma decisão destas fixaria décadas de emissões elevadas precisamente no momento em que a ciência exige uma transição rápida dos combustíveis fósseis para energias renováveis e soluções de baixo carbono”.

As intenções dos Estados Unidos relativamente ao petróleo venezuelano também foram duramente criticadas por organizações ambientalistas. Mads Christensen, director executivo da Greenpeace International, classificou a iniciativa como “imprudente e perigosa”.

“O único caminho seguro a seguir é uma transição justa para fora dos combustíveis fósseis, que proteja a saúde, salvaguarde os ecossistemas e apoie as comunidades, em vez de as sacrificar em nome do lucro de curto prazo”, afirmou.

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