De onde vem a tradição da troca de presentes no Natal? Um antropólogo explica

Passou (mais uma vez) o dia 25 de dezembro, mais um Natal, e começa a habitual corrida à troca de presentes, ainda antes dos saldos. Boa altura para pensarmos no porquê de, enquanto seres humanos, trocarmos presentes uns com os outros.

Pedro Gonçalves
Dezembro 25, 2025
10:00

Passou (mais uma vez) o dia 25 de dezembro, mais um Natal, e começa a habitual corrida à troca de presentes, ainda antes dos saldos. Boa altura para pensarmos no porquê de, enquanto seres humanos, trocarmos presentes uns com os outros.

O antropólogo Chip Cowell diz-se “fascinado” com o tema e, no ‘The Conversation’, explorou as origens da tradição de dar presentes.

O investigador assinala que os presentes servem muitos propósitos, alguns filósofos descrevem-no como um prazer intrínseco. Já teólogos associam o ato de presentear alguém como uma forma de demonstrar amor, bondade, gratidão e outros valores morais, e muitos pensadores, como Nietzsche, consideravam os presentes como a melhor forma de manifestar altruísmo.

Mas, assinala o antropólogo, a melhor explicação partiu de um ‘colega’ seu Marcel Mauss, que em 1925 deu a que considera ser a “explicação mais convincente”.

Mauss ficou fascinado como, ao longo do noroeste do Canadá e dos EUA, os povos indígenas celebrarem as cerimónias do ‘potlatch’, que duram dias inteiros e em que os anfitriões doam muitos bens aos convidados. Este é apresentado como um exemplo extremos de presentear alguém, mas é um comportamento verificado em quase todas as sociedades humanas: dar coisas mesmo quando mantê-las para nós faria mais sentido económico e evolutivo.

São distinguidas, segundo Mauss, três ações distintas no processo: dar, receber e retribuir. O primeiro ato estabelece as virtudes de quem da, expressando generosidade, bondade e honra.

O segundo momento é o de receber, que transmite a disposição da pessoa que recebe em ser homenageada. Quem recebe mostra generosidade ao estar disposto a aceitar o que lhe foi oferecido.

A reciprocidade é o terceiro elemento na equação, que se revela chave: espera-se agora que a pessoa que recebeu o presente, de forma implícita ou explícita, devolva um presente a quem inicialmente ofereceu.

Assim, cria-se um ciclo interminável de dar e receber, que constróis e sustenta relacionamentos e que está intrinsecamente ligado à moralidade.

“Presentear é uma expressão de justiça porque cada presente geralmente tem valor igual ou maior do que o último dado. E presentear é uma expressão de respeito porque mostra vontade de homenagear outra pessoa. Dessa forma, presentear une as pessoas. Mantém as pessoas conectadas em um ciclo infinito de obrigações mútuas”, resume o investigador, fazendo referência ao ensaio ‘The Gift’, de Mauss.

Se estamos de facto a usar as conclusões de Mauss da melhor maneira? Aí já há espaço para discussões… Ressalva Chip Cowell que a ideia de Mauss não era promover o consumismo desenfreado, mas sim o contrário: demonstrar que o quando mais significativo e pessoal for determinado presente, maior será o respeito e honra demonstrados. No fundo, dar força à velha máxima de que “a intenção é o que conta”.

Assim, um presente personalizado, um objeto reaproveitado, vintage ou simbólico, com valor sentimental, um passeio ao ar livres, uma ida a um restaurante, um plano a dois, ou um presente feito com produtos reciclados, podem ser ideias de ofertas muito mais ‘ricas’ em espírito do que um qualquer item produzido em massa, embalado em plástico e que viajou metade do mundo.

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