Private credit: o mercado de capitais que não (in)forma preço todos os dias

Falar de financiamento empresarial continua a significar “banco” ou “bolsa”.

Tiago Cruz GonçalvesTiago Cruz GonçalvesProfessor de Finanças do ISEG, Universidade de LisboaVer todos os artigos
Tiago Cruz Gonçalves
Tiago Cruz GonçalvesProfessor de Finanças do ISEG, Universidade de LisboaDezembro 17, 2025 11:30

Falar de financiamento empresarial continua a significar “banco” ou “bolsa”. No entanto, uma parte crescente do crédito às empresas é hoje originada fora da banca e fora dos mercados públicos. O Financial Stability Board nota que a intermediação financeira não bancária representa 51% dos activos globais e sublinha lacunas de dados, em particular no private credit.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Private credit é crédito concedido de forma privada por fundos e outros intermediários não bancários, com contratos feitos à medida e pouca negociação em mercado secundário. Isto pode trazer valor ao mutuário pela rapidez e flexibilidade, mas altera a disciplina informacional, dado que em vez de um preço observado diariamente, a avaliação tende a depender de modelos e de revisões menos frequentes.

A investigação mostra que estes instrumentos deixaram de ser periféricos. Chernenko, Erel e Prilmeier (Review of Financial Studies, 2022) documentam que, no “middle market” dos EUA (2010–2015), cerca de um terço dos empréstimos foi originado diretamente por “não bancos”, em parte devido a constrangimentos regulatórios sobre a banca. Efetivamente, esse recurso é mais frequente em empresas menos rentáveis e mais alavancadas. Irani, Iyer, Meisenzahl e Peydró (Review of Financial Studies, 2021) evidenciam que choques nos requisitos de capital bancário deslocam crédito para o “shadow banking”, sendo que o risco não desaparece, muda de canal.

Para a gestão financeira, o ponto sensível não é moralizar o canal, mas perceber quando e como o risco emerge. O FMI salienta menor transparência, avaliações menos frequentes e interligações por vezes opacas. O BCE acrescenta que, na área do euro, uma parte relevante dos fundos de private credit é aberta, o que pode criar desfasamentos entre activos ilíquidos e resgates em stress.

O resultado é uma mudança no que significa acesso a financiamento. Não basta olhar para taxas e montantes, importa compreender cláusulas, covenants, maturidades e a economia da renegociação. Num mercado que não “cota” diariamente, a boa gestão financeira mede-se pela qualidade da informação e do contrato.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade
Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.