Private credit: o mercado de capitais que não (in)forma preço todos os dias

Opinião de Tiago Cruz Gonçalves, Professor de Finanças do ISEG, Universidade de Lisboa

Executive Digest

Falar de financiamento empresarial continua a significar “banco” ou “bolsa”. No entanto, uma parte crescente do crédito às empresas é hoje originada fora da banca e fora dos mercados públicos. O Financial Stability Board nota que a intermediação financeira não bancária representa 51% dos activos globais e sublinha lacunas de dados, em particular no private credit.

Private credit é crédito concedido de forma privada por fundos e outros intermediários não bancários, com contratos feitos à medida e pouca negociação em mercado secundário. Isto pode trazer valor ao mutuário pela rapidez e flexibilidade, mas altera a disciplina informacional, dado que em vez de um preço observado diariamente, a avaliação tende a depender de modelos e de revisões menos frequentes.



A investigação mostra que estes instrumentos deixaram de ser periféricos. Chernenko, Erel e Prilmeier (Review of Financial Studies, 2022) documentam que, no “middle market” dos EUA (2010–2015), cerca de um terço dos empréstimos foi originado diretamente por “não bancos”, em parte devido a constrangimentos regulatórios sobre a banca. Efetivamente, esse recurso é mais frequente em empresas menos rentáveis e mais alavancadas. Irani, Iyer, Meisenzahl e Peydró (Review of Financial Studies, 2021) evidenciam que choques nos requisitos de capital bancário deslocam crédito para o “shadow banking”, sendo que o risco não desaparece, muda de canal.

Para a gestão financeira, o ponto sensível não é moralizar o canal, mas perceber quando e como o risco emerge. O FMI salienta menor transparência, avaliações menos frequentes e interligações por vezes opacas. O BCE acrescenta que, na área do euro, uma parte relevante dos fundos de private credit é aberta, o que pode criar desfasamentos entre activos ilíquidos e resgates em stress.

O resultado é uma mudança no que significa acesso a financiamento. Não basta olhar para taxas e montantes, importa compreender cláusulas, covenants, maturidades e a economia da renegociação. Num mercado que não “cota” diariamente, a boa gestão financeira mede-se pela qualidade da informação e do contrato.

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