Capacitar para transformar: a chave para a sustentabilidade do 3º setor em Portugal

Opinião Patrícia Rocha, Diretora Executiva Fundação Manuel Violante

Executive Digest

Por Patrícia Rocha, Diretora Executiva Fundação Manuel Violante

 



Em Portugal, o debate sobre a economia social continua, demasiadas vezes, circunscrito às verbas inscritas no Orçamento do Estado — aos apoios, subsídios e programas de financiamento que se aguardam. Todavia, o verdadeiro desafio do setor não é apenas financeiro: é estrutural. Falta apostar na capacitação no seu capital humano.

O setor social português é uma força silenciosa que sustenta o tecido social do país. Chega onde o Estado não chega, ampara os mais vulneráveis, combate desigualdades e reforça a coesão das comunidades. Contudo, cumpre esta missão essencial com recursos escassos e com uma insuficiente qualificação das suas pessoas.

Sem uma aposta consistente na formação e na profissionalização das pessoas e das organizações, o setor terá dificuldade em consolidar o caminho de desenvolvimento que já iniciou — independentemente do volume de investimento financeiro que receba. A verdadeira sustentabilidade constrói-se sobre a qualificação e a competência.

Capacitar dirigentes e equipas técnicas é condição indispensável para uma gestão mais estratégica, rigorosa e eficaz. A definição de estratégias, o planeamento e a avaliação de impacto não constituem meros exercícios administrativos; são instrumentos que distinguem uma organização reativa de uma organização transformadora — capaz de aprender, inovar e inspirar outras.

Portugal dispõe já de um ecossistema cada vez mais robusto de programas de formação e de liderança que têm contribuído para reforçar a capacidade de planeamento, de avaliação e de inovação das organizações. Apoiar estes programas é multiplicar o impacto social de cada euro público investido.

No momento em que se discute o Orçamento do Estado para 2026, impõe-se mudar o olhar: o setor social não deve ser visto apenas como executor de políticas públicas, mas reconhecido como um verdadeiro parceiro estratégico do Estado na construção de soluções sustentáveis para os desafios coletivos do país. As organizações do setor social estão próximas das comunidades, conhecem as realidades no terreno e respondem, com agilidade e humanidade, a problemas que muitas vezes escapam às estruturas públicas. Essa proximidade confere-lhes um papel insubstituível na formulação, experimentação e implementação de respostas sociais inovadoras.

Valorizar o setor como parceiro implica ir além da lógica da contratualização e do financiamento pontual. Exige um investimento contínuo no fortalecimento das suas capacidades de gestão, planeamento e avaliação, criando condições para que as organizações possam atuar com autonomia, responsabilidade e impacto.

Um setor social forte não é aquele que depende do Estado, mas aquele que coopera com ele em pé de igualdade, contribuindo com conhecimento, experiência e visão para políticas públicas mais eficazes e centradas nas pessoas.

Porque o futuro do setor social não depende apenas do montante dos apoios recebidos, mas, sobretudo, da capacidade de cada organização em fazer mais e melhor com os recursos de que dispõe.

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