O historiador Antonio Muñoz Sánchez considera que, mais do que o surgimento da extrema-direita em Portugal, é a “enorme força” com que se produziu a irrupção do Chega que deve “fazer soar todos os alarmes”.
“Se, em novembro de 2015, quando se formou o primeiro governo de António Costa com o apoio do PCP e do BE, alguém tivesse dito que, uma década depois, um partido de extrema-direita seria o segundo na Assembleia da República, teriam tomado essa pessoa por louca”, sublinhou Muñoz Sánchez em declarações à Lusa.
O investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, especialista em relações políticas entre a República Federal da Alemanha e Portugal e Espanha, esteve em Frankfurt para uma palestra sobre populismo de direita e os debates sobre a política histórica em Portugal.
“Agora sabemos que não se soube identificar a corrente profunda de mal-estar social em Portugal desde a crise de 2008, e continuou-se a acreditar, de forma muito ingénua, naquela suposta regra da política lusa segundo a qual o 25 de Abril teria imunizado o país contra o fascismo”, apontou.
Para o historiador espanhol, que também já passou pela Universidade de Chemnitz, na Alemanha, o surgimento da extrema-direita em Portugal não deve ser, por si só, motivo de alarme.
“É apenas a constatação evidente de que nenhuma nação vive à margem do ‘Zeitgeist’ mundial. O que, sim, deveria fazer soar todos os alarmes é a enorme força com que se produziu esta irrupção do Chega”, sustentou.
“Que um partido racista, xenófobo, ultraliberal, que exagera, insulta e mente como método, tenha entrado como faca quente na manteiga, obriga o sistema democrático português e as forças vivas do país a uma profunda autocrítica. A minha preocupação é que o diagnóstico seja errado e que a ‘terapia’ que se queira aplicar dê ainda mais fôlego ao Chega”, defendeu Antonio Muñoz Sánchez.
Na Alemanha, o revisionismo histórico é amplamente rejeitado no espaço público. Em Portugal, parece haver mais espaço para ambiguidade, considera. O historiador compara o passado de uma nação a um “enorme supermercado” onde a extrema-direita procura “os produtos mais doces, mais digeríveis, mais coloridos”.
“São as recordações idealizadas das façanhas de todo o tipo realizadas por grandes personalidades, das batalhas medievais que supostamente asseguraram a integridade do Estado face a inimigos externos, dos momentos e das situações que mostram a bondade, a grandeza e a bonomia daquela estirpe abençoada. Neste alegre banquete, mal se encontram referências aos aspetos menos agradáveis da história nacional, como as vítimas que as façanhas dos grandes homens possam ter deixado noutros territórios”, apontou.
“Se aplicarmos agora este esquema ao caso português, devemos reparar, com alarme, no facto de que a visão, digamos, normalizada, que o país tem da sua própria história, a que se reflete nos seus monumentos e museus, e a que é transmitida às crianças nas escolas, não se afasta muito da propaganda da extrema-direita”, defendeu.
O historiador considerou que o modelo alemão na educação histórica tem, “muitas virtudes”, mas “cada país deve encontrar o seu próprio caminho” para abordar o seu passado difícil ou traumático.
“Só por motivos económicos já seria impossível replicar em Portugal a impressionante rede de museus, centros de documentação, exposições ou documentários televisivos que, na Alemanha, tratam, por exemplo, do nazismo. Do meu ponto de vista, o fundamental não são tanto os meios, mas sim a vontade de enfrentar, sem rodeios, esse passado difícil. E isso pode começar pelo mais pequeno, pelo mais modesto”, considerou.














