A Ucrânia vai retomar as exportações de armamento, começando por drones e outros sistemas não tripulados testados em combate. O anúncio foi feito pelo Conselho Nacional de Segurança e Defesa, que sublinhou que as vendas apenas prosseguirão se não comprometerem o arsenal das forças armadas.
De acordo com o jornal espanhol ‘ABC’, a decisão surge poucos meses antes de a invasão russa completar quatro anos, marcando uma nova fase na indústria de Defesa do país.
O Governo ucraniano garantiu que a produção, intensificada desde 2022, transformou o país num polo tecnológico militar. “Não somos apenas um país agrícola. Atualmente, fabricamos algumas das melhores soluções em drones, guerra eletrónica e sistemas de artilharia”, afirmou Igor Fedirko, diretor executivo do Conselho da Indústria de Defesa da Ucrânia, citado pelo jornal espanhol.
Drones e mísseis como nova força industrial
Kiev prevê exportar armamento para os EUA, Europa, Médio Oriente e África. O presidente Volodymyr Zelensky já tinha adiantado que o regresso da Ucrânia aos mercados internacionais é essencial para garantir financiamento e manter a produção. Segundo o ‘ABC’, só o setor de drones e mísseis poderá gerar mais de 30 mil milhões de euros até 2026.
A transformação da indústria de defesa foi impulsionada pela urgência do conflito. Antes de 2022, existiam apenas cinco empresas controladas pelo Estado. Hoje, o número ultrapassa 800, com mais de 1.500 companhias envolvidas na produção de cerca de 3.500 tipos de equipamentos. Algumas brigadas já dispõem de laboratórios próprios de inovação, coordenando-se diretamente com fabricantes.
Inovação sob fogo e ritmo sem precedentes
A produção decorre sob bombardeamentos diários, obrigando a soluções rápidas e ciclos de inovação curtos. “O ritmo do desenvolvimento tecnológico aqui é incomparável. A nossa investigação e desenvolvimento mede-se em dias, não em anos”, explicou a plataforma governamental Brave 1, criada para coordenar projetos de Defesa.
O Governo ucraniano descreveu o seu ecossistema tecnológico como “ágil e adaptável”, combinando coordenação estatal, feedback militar e criatividade privada. Muitas tecnologias, testadas e aperfeiçoadas em combate real, poderão agora ser adotadas por países da NATO.
Drones ucranianos e o desafio da defesa europeia
A experiência acumulada por Kiev na guerra dos drones é já uma referência. Em setembro, cerca de 20 aparelhos russos invadiram o espaço aéreo da Polónia, forçando a ativação de caças e sistemas Patriot. Um único míssil Patriot pode custar até três milhões de dólares, enquanto um drone de ataque vale apenas uma fração desse valor — uma disparidade que evidencia a vulnerabilidade do modelo de defesa ocidental.
A Ucrânia continua a desenvolver drones intercetores e veículos terrestres não tripulados, utilizados tanto na logística como na evacuação de feridos e operações de ataque. “Não temos pessoal suficiente para enfrentar a máquina de guerra russa. Por isso, estamos a substituir o máximo possível de combatentes por sistemas automáticos”, explicou Igor Fedirko.
Parcerias europeias e novo modelo de exportação
Os primeiros escritórios de exportação de armas ucranianas vão abrir em Berlim e Copenhaga ainda este ano. Zelensky indicou que ambas as capitais servirão como centros de produção e venda conjunta de armamento.
A Dinamarca já desenvolve, em parceria com Kiev, um projeto de fabrico de drones no âmbito da iniciativa “Muro dos Drones”, destinada a reforçar a defesa europeia contra incursões russas. O Conselho de Segurança Nacional ucraniano esclareceu que o comércio será rigorosamente supervisionado e limitado a países aliados com acordos de segurança em vigor.
“Chegou a hora de protegermos os nossos aliados, partilhando com eles a nossa experiência e conhecimento”, concluiu Igor Fedirko, reforçando que a Ucrânia quer transformar a sua necessidade de guerra num motor de inovação e independência industrial.














