Em 2018, a Polícia Judiciária e o Ministério Público investigavam a associação Intervenção e Resgate Animal (IRA) por suspeitas de agressões, roubos e ligações a claques de futebol, empresas de segurança privada e movimentos radicais de direita. Segundo a revista ‘Sábado’, o grupo, criado com o objetivo de intervir em casos de maus-tratos a animais, chegou a ser visto como um núcleo com práticas violentas e uma estética militarizada.
Volvidos sete anos, o IRA reforçou a sua presença pública. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) chegou a autorizar o grupo a utilizar luzes de marcha urgente durante resgates, equiparando-o temporariamente a forças de segurança e bombeiros — autorização entretanto revogada.
Paralelamente, a associação recolhe assinaturas para criar um partido político. O objetivo, apurou a revista, é formalizar o projeto no início de 2026 sob o nome Protege. O grupo afirma que a nova estrutura se centrará na defesa do bem-estar animal e das pessoas mais vulneráveis, mas recusa detalhar a orientação ideológica.
O vídeo que anunciou o partido, divulgado nas redes sociais, remete para uma manifestação organizada em janeiro de 2023, que terá reunido cerca de 10 mil pessoas em Lisboa. Essa mobilização confirmou a capacidade de influência de uma organização com quase um milhão de seguidores online.
Queremos um país onde a empatia substitua o egoísmo,
a responsabilidade vença a indiferença,
e onde proteger deixe de ser exceção —
e passe a ser a regra de uma sociedade decente.Assim nasce o partido PROTEGE pic.twitter.com/7ea2lqi9hj
— IRA INTERVENÇÃO E RESGATE ANIMAL (@NucleoIRA) May 23, 2025
Fontes citadas pela revista semanal indicaram que, após o evento, dirigentes do IRA reuniram-se com representantes de vários quadrantes políticos. O grupo garante pautar a sua atuação pela legalidade e sublinha o reconhecimento recebido pela sociedade civil pelas suas ações em emergências e catástrofes.
Relação conturbada com o PAN
O caso das ligações entre o IRA e o PAN continua a marcar a história da associação. Cristina Rodrigues, hoje deputada do Chega, foi questionada internamente pelo envolvimento com o grupo. Ex-dirigentes do PAN recordam que, após uma reportagem da TVI que denunciava o modus operandi do IRA, o partido reuniu-se de urgência para avaliar o impacto mediático. Inês Sousa Real foi uma das vozes mais críticas e pediu esclarecimentos, mas a polémica acabou por perder força sem consequências disciplinares.
Das artes marciais à estética radical
O IRA foi constituído formalmente em 2017, nascido do convívio entre praticantes de desportos de combate e membros das forças de segurança, bombeiros e seguranças privados. A sua primeira sede, o Ginásio KO, nos Olivais, ficou conhecido como “escola de boxe”.
A estética do grupo aproximou-se da do Movimento Leviatã, organização sérvia criada em 2015 e ligada à extrema-direita, que se apresenta como defensora dos animais, mas cuja atuação tem sido classificada como paramilitar e motivada por discursos xenófobos.
Liderado por Pavle Bihali, o Leviatã formou-se como partido em 2020, mas nunca conseguiu eleger representantes. Em 2023, o procurador-geral da Sérvia pediu a sua ilegalização, acusando-o de promover ódio racial e religioso.
O papel central de Tomás Pires
O nome que atravessa todas as fases do IRA é Tomás Pires — nascido Armando Pires Tomás —, fundador e atual líder. Embora o grupo tenha tido outros criadores, é ele quem controla a associação e a empresa IRA, Unipessoal Lda., constituída em 2019. Fontes citadas pela SÁBADO descrevem-no como uma figura autoritária e centralizadora, com forte influência sobre as decisões internas.
O negócio do merchandising e dos donativos tornou-se uma das principais fontes de receita. O grupo opera um centro veterinário em Lisboa, na Avenida General Roçadas, e mantém uma base de voluntários em rotatividade. Várias fontes referem um ambiente interno tenso e saídas frequentes por divergências com o líder.
De grupo de intervenção a estrutura civil
As denúncias de ações extrajudiciais foram frequentes nos primeiros anos do IRA, mas fontes internas afirmam que o grupo procura agora seguir os procedimentos legais. O recrutamento mantém critérios exigentes: os candidatos a voluntário passam por provas físicas e testes de resistência, realizados habitualmente no quartel dos Bombeiros Voluntários de Camarate, com o qual o grupo mantém colaboração pública.
Hoje, o IRA apresenta-se como uma estrutura civil organizada, que pretende conjugar o ativismo com um projeto político de âmbito nacional — um percurso que, em menos de uma década, levou o grupo das operações de resgate animal à arena partidária.














