Benfica publica primeiro Relatório de Sustentabilidade: ‘vice’ Manuel de Brito revela as 80 medidas a aplicar até 2030

Manuel de Brito, vice-presidente do SL Benfica com o pelouro da sustentabilidade, explica as razões, a estratégia e as medidas do documento

Executive Digest
Setembro 25, 2025
18:00

O Sport Lisboa e Benfica apresentou esta quinta-feira o seu primeiro Relatório de Sustentabilidade, um documento que reúne iniciativas ambientais, sociais e de governação e que passa a integrar de forma estrutural a estratégia do clube. A iniciativa surge enquadrada na diretiva europeia que obriga grandes organizações a reportar a sua atuação nesta área, mas também como oportunidade para consolidar práticas já existentes.

Em entrevista à ‘Executive Digest’, Manuel de Brito, vice-presidente do SL Benfica com o pelouro da sustentabilidade, explica as razões, a estratégia e as medidas do documento.

Quais foram os motivos que levaram o Benfica a apresentar o seu primeiro Relatório de Sustentabilidade e que importância estratégica tem para o clube?

Há uma diretiva europeia que impõe obrigações às grandes organizações e isso colocou-nos diante de um calendário. Tecnicamente teríamos de apresentar o relatório apenas no ano que vem, dado o tamanho do clube, mas começámos a trabalhar há cerca de dois anos, precisamente por causa dessa diretiva. Percebemos que o Benfica já tinha há muito iniciativas nas áreas ambiental e social – temos 121 anos de história e essa preocupação sempre fez parte do nosso ADN -, mas essas iniciativas estavam muitas vezes em silos, separadas. Não havia uma organização que as analisasse em conjunto com um objetivo estratégico.

Vimos a exigência da diretiva como uma oportunidade. Não encaramos a sustentabilidade como um custo: encaramo-la como criação de valor, valor esse que queremos partilhar com os sócios, com a sociedade, com as comunidades e com todos os stakeholders. Assim, integrámos a sustentabilidade na estratégia global do SL Benfica, na estratégia 25-30, e nasceu o projeto “Ready – Ganhar em Todos os Campos”.

Fizemos um levantamento exaustivo – este primeiro relatório é, de certa forma, o relatório do “ano zero”. Pretendemos que seja o mais completo possível dentro das normas da diretiva, para perceber o que teremos de melhorar e completar no próximo ano. Por exemplo, ainda não temos completo o cálculo da pegada no âmbito do Scope 3: só temos, por agora, a categoria 11, que corresponde às deslocações dos adeptos ao estádio. Apesar disso, o relatório foi preparado com o intuito de cumprir as normas da diretiva.

Como está estruturada a estratégia “Redy — Ganhar em Todos os Campos” e como começou o projeto?

A estratégia assenta em quatro eixos. Fizemos o kick-off do projeto a 28 de maio, numa apresentação dirigida a fornecedores e patrocinadores, com mais de 250 pessoas presentes. O painel foi de grande qualidade – tivemos, por exemplo, Roberta Medina a falar do Rock in Rio – e contou com representantes como a diretora executiva do IPCG, a vice-presidente da Grace e um partner da EY responsável pela área estratégica. Foi um evento muito positivo porque, para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, nomeadamente reduzir a nossa pegada, que queremos diminuir em 50% até 2030, é essencial trabalhar em parceria. O 17º ODS – parcerias – é central: nenhuma organização, por muito grande que seja, consegue um impacto significativo sozinha.

Desde esse evento, já identificámos várias iniciativas e estamos a articular parcerias em áreas como bem-estar, educação, formação, materiais (para reduzir consumo e aumentar eficiência), eficiência hídrica e energias. A mobilidade é outro tema crítico; por isso, incluímos a mobilidade na dupla materialidade e lançámos inquéritos aos sócios e adeptos para saber como se deslocam até ao estádio.

Que resultados obtiveram esses inquéritos aos sócios e adeptos?

Fizemos dois inquéritos aos sócios: um sobre mobilidade e outro sobre sustentabilidade. Os resultados foram muito esclarecedores: 90% dos sócios responderam que o SL Benfica deveria ter uma posição sobre sustentabilidade; 80% querem que o clube seja ativo nesta área; 75% dizem que gostariam que o SL Benfica fosse o clube mais sustentável de Portugal e um dos mais sustentáveis da Europa; 80% querem ser informados das iniciativas; e 56% manifestaram vontade de participar ativamente nas nossas iniciativas de sustentabilidade. Isso demonstra que a sustentabilidade preocupa os sócios, os adeptos e a sociedade em geral. E reforça a responsabilidade do clube.

Qual a dimensão do SL Benfica em termos de alcance e infraestruturas que tornam essa responsabilidade ainda mais relevante?

O SL Benfica tem uma dimensão muito grande: mais de 400 mil sócios, vários milhões de adeptos e, segundo os nossos números, conseguimos impactar até 50 milhões de pessoas. Temos 298 casas do Benfica entre Portugal e o estrangeiro – mais de 50 no estrangeiro – que são pilares das comunidades locais e promovem atividades desportivas: contabilizamos mais de 40 modalidades e mais de 20 mil pessoas a praticar desporto através das casas do Benfica. A Fundação Benfica, que é autónoma, já impactou mais de 320 mil pessoas desde a sua existência.

Além disso, a nossa pegada é significativa: no ano passado cerca de 1,600,000 pessoas deslocaram-se ao estádio. Assumimos esse desafio – reduzir o impacto e devolver à sociedade de forma positiva a grandeza do SL Benfica e o potencial do país.

Quais são os quatro eixos da estratégia? Pode detalhar cada um?

Os quatro eixos são: “Ganhar bem”, “Ganhar em casa”, “Ganhar fora” e “Ganhar por muitos”.

1. Ganhar bem — é o eixo central e transversal: ganhar com ética, transparência e boas práticas de governança. Nesta direção fizemos mudanças significativas nos últimos quatro anos: aplicamos práticas recomendadas pelo Código de Governança do IPCG, o Conselho de Administração tem 9 administradores (5 não executivos e 4 executivos), publicámos regulamentos de funcionamento do Conselho de Administração e da Comissão Executiva, e os administradores não executivos constituíram uma Comissão de Controlo de Interesses e Partes

Relacionadas, com inquéritos internos sobre conflitos de interesse. Temos também um canal de denúncias e criámos o Departamento de Auditoria Interna, cujo plano de auditoria para 2025-2026 foi aprovado pelo Conselho Fiscal; esse departamento reporta funcionalmente ao Conselho Fiscal e hierarquicamente ao Presidente do Conselho de Administração. Para sublinhar a relevância, o Presidente Rui Costa colocou a sustentabilidade na órbita da Auditoria Interna – sinal da importância que o clube dá ao tema.

Foi um trabalho transversal que envolveu mais de 90 pessoas de vários departamentos, com uma equipa dedicada à coordenação da sustentabilidade. Trabalhámos em estreita ligação com a Fundação Benfica para alavancar conhecimentos e recursos.

2. Ganhar em casa — refere-se aos nossos atletas, infraestruturas e recursos humanos. Inclui programas de bem-estar para atletas, iniciativas de retenção e atração de talento – a sustentabilidade é hoje um fator decisivo na atração de colaboradores – e intervenções nas infraestruturas para melhorar acessos, eficiência energética, redução do consumo de água e medidas de economia circular. Um exemplo: recolhemos todos os óleos alimentares do recinto, temos um parceiro que os transforma em detergente e esse detergente é utilizado para limpar o estádio. Recolhemos águas pluviais – cerca de 230 mil litros – que também usamos para lavagem do recinto.

3. Ganhar fora — trata das parcerias com fornecedores e patrocinadores. Abrimos portas para dialogar com eles, perceber o que já fazem e o que podemos desenvolver em conjunto. Não queremos impor medidas de sustentabilidade; queremos dialogar, ajudar e crescer em parceria. As políticas de procurement terão progressivamente critérios de sustentabilidade, mas a abordagem é de colaboração, não de abandono dos parceiros.

4. Ganhar por muitos — é ganhar pelos sócios, pela sociedade e pelas comunidades. Aqui entram as centenas de iniciativas sociais da Fundação Benfica. Esta é a primeira vez que fazemos um levantamento completo de todas as iniciativas sociais, ambientais e de governação que o clube desenvolve, e isso permite aos sócios verem com clareza a dimensão do trabalho feito e o impacto gerado. Há dezenas de projetos contínuos e pontuais, como intervenções humanitárias recentes. Por exemplo, recolhas de medicamentos para Cabo Verde após tempestades – que mostram a capacidade de mobilização do clube.

O relatório apresenta cerca de 80 medidas. Como é que essas medidas se organizam e o que o leitor vai encontrar nos documentos?

Existem cerca de 80 medidas. No âmbito da dupla materialidade serão disponibilizados três documentos: um diagnóstico com as iniciativas escolhidas (sociais, ambientais e de governação) e os outros elementos relacionados com a materialidade. Pela materialidade teremos de priorizar alguns temas, sem nunca deixar cair os restantes – apenas dar mais foco a alguns do que a outros. A vertente social e a vertente de governação são fundamentais e vão continuar a ser desenvolvidas. No relatório principal constam as medidas e, em documentos complementares, teremos ficheiros técnicos com informação mais detalhada.

Que medidas já terão impacto visível nesta época desportiva, nos próximos meses?

Algumas das iniciativas são contínuas e já têm impacto – por exemplo, programas da Fundação como “KidFun” e o projeto “Para Ti Se Não Faltares!”, que combate o absentismo escolar. São processos permanentes; se tivermos mais recursos podemos aumentar a cobertura.

Depois do evento de apresentação estamos a trabalhar com cerca de uma dezena de empresas para levantar em que áreas poderão ser parceiros: bem-estar, eficiência das infraestruturas, e iniciativas da Fundação. Na mobilidade temos vindo a ter reuniões com a Câmara e com potenciais parceiros; a mobilidade é complexa e exige testes, mas espero que nos próximos meses possamos anunciar iniciativas práticas – por exemplo, mais autocarros para quem vem de fora de Lisboa. Há estatísticas que nos ajudam: salvo erro, cerca de 50% dos sócios deslocam-se até 30 quilómetros para vir ao estádio, mas há muitos que vêm de distâncias maiores, e precisamos de soluções específicas para esses percursos.

Olhando para o futuro, que marca gostaria que o Benfica deixasse em matéria de sustentabilidade nos próximos anos?

O objetivo é deixar um legado para as próximas gerações. Como a maior instituição desportiva do país, com 30 modalidades masculinas e femininas – somos o clube com mais modalidades e com mais modalidades femininas – temos uma responsabilidade acrescida. Queremos liderar pelo exemplo e influenciar comportamentos: mudar hábitos de mobilidade, promover melhores práticas alimentares, fomentar a atividade física e a saúde nos jovens. Se conseguirmos alterar hábitos e inspirar comportamentos, isso já será um legado importante. Naturalmente, a nossa ambição é ser o clube mais sustentável do futebol português e figurar rapidamente entre os mais sustentáveis da Europa.

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