Ricardo Costa é CEO do grupo Bernardo da Costa, que conta com 164 funcionários, 82 dos quais se encontram a trabalhar em Portugal. Decidiu escrever uma carta aberta, na qual se manifesta desiludido com as medidas adoptadas pelo Governo português, para apoiar as empresas nesta fase da pandemia de Covid-19, de acordo com o ‘Negócios’.
«Talvez já tenham ouvido falar de nós quando em 2017 fomos a primeira empresa em Portugal a criar um Departamento da Felicidade, que, como o nome indica, procura criar condições para que as pessoas que trabalham connosco sejam mais felizes», pode ler-se na mensagem escrita pelo empresário, referindo-se à oferta de viagens feita aos seus funcionários, ou de um salário extra àqueles que, por algum motivo, não podiam viajar.
«Juntos estivemos em Punta Cana, passamos por Cuba, México, Jamaica e, por último, Cabo Verde. Este ano, entre os dias 9 e 16 de Junho, estava previsto irmos todos ao Egito», indica Ricardo Costa.
O CEO revela que se encontra «profundamente desiludido com as medidas adoptadas pelo Governo para fazer face à crise económica que começa a surgir e que seguramente se vai agravar, em consequência da pandemia da covid-19, que é já a maior crise sanitária da nossa geração», motivo pelo qual decidiu escrever a carta.
Ricardo Costa destaca três palavras, que na sua opinião «ficam na memória», durante esta fase: desemprego, lay-off e endividamento. «Com excepção de alguns sectores muito específicos, como a restauração, hotelaria, agências de viagem, etc., que tiveram quebras na ordem dos 80% a 90% de facturação e onde o lay-off imediato é de facto uma medida importante (desde que devidamente operacionalizado e flexibilizado), em outros sectores, como a indústria, o comércio e os serviços que estejam ou venham a sofrer uma redução das encomendas ou facturação entre 20% a 40%, não entendo este incentivo e apoio do Governo para que as empresas suspendam a actividade e os contratos de trabalho», defende.
O empresário assume ser «completamente contra a redução em 33% dos salários das pessoas, quando todos sabemos que muitas famílias com os rendimentos actuais já mal conseguem suportar as despesas do dia-a-dia», refere, deixando várias questões pendentes: «Alguém já pensou na espiral recessiva que esta medida vai ter a médio prazo? Como vai ser a reintegração de milhares de pessoas depois de estarem três a seis meses sem qualquer actividade profissional? Como vão aguentar estar em casa com um sentimento de inutilidade durante todo este tempo e qual vai ser o seu estado mental e psicológico?», questiona Ricardo Costa.
Na sua opinião, o Governo devia criar um conjunto de medidas de apoio às empresas que, «mesmo tendo uma redução da facturação entre 20% a 40%, mantivessem actividade e não diminuíssem em mais de 5% o número de pessoas ao serviço durante este período de crise», defende.
«Entre estas medidas destaco como prioritárias a isenção das contribuições para a TSU até ao final de 2020, a isenção da taxa de IRC relativo a 2019, a eliminação dos Pagamentos Especiais por Conta durante o ano de 2020 e moratória nos pagamentos de IVA e IRS até ao final do ano, sendo esse valor pago em 36 prestações mensais sem juros a partir de Janeiro de 2021», afirma o responsável.
Ricardo Costa adianta ainda que «podia ir mais longe e sugerir que o Estado suportasse uma parte dos salários dos trabalhadores na mesma proporção da redução da facturação», acreditando que «mesmo assim estas medidas teriam de certeza menos impacto no Orçamento do Estado que o lay-off simplificado e o pagamento dos subsídios de desemprego que a Segurança Social vai ter de pagar já a partir de Abril».
O empresário considera que com estes apoios o Governo conseguia, por um lado, garantir que a economia continuava a funcionar, e, por outro lado, incentivar a que as empresas se reinventassem e se adaptassem à nova realidade económica.
No caso concreto da empresa de Ricardo, «mesmo sem qualquer medida efectiva de apoio por parte do Governo, e seguindo uma filosofia que sempre colocamos em prática no que se refere à importância da mudança e da adaptação, estamos já a reinventar e inovar processos, serviços e produtos», afirma.
«Admitimos já durante o mês de Março novos estagiários e renovamos vários contratos de trabalho, mesmo com as pessoas que passavam a efectivos. Também conseguimos antecipar alguns aspectos positivos desta crise, como são o desenvolvimento e disseminação do tele-trabalho, que permite a flexibilização dos horários, a redução do tráfego para entrar/sair nas cidades, as melhorias ambientais e sociais e a utilização das ferramentas informáticas», refere.
Ricardo Costa refere que estas medida aplicadas pela empresa permitem «atingir mais facilmente um dos objectivos do nosso departamento da felicidade – atingir o equilíbrio perfeito entre a vida pessoal e profissional», acrescentando ainda que se sente muito orgulhoso «em perceber que tudo o que ‘investimos’ nas pessoas ao longo de todos estes anos está agora, neste momento tão difícil, a ter o retorno esperado. A nossa equipa está mais unida do que nunca e a adaptar-se todos os dias para conseguir vencer», afirma.
«Sempre afirmei que as empresas não são feitas de pessoas – as empresas são as pessoas. Nunca este sentimento fez tanto sentido», afirma o CEO defendendo que «o Governo não pode incentivar a que, de um momento para o outro, essas mesmas pessoas vejam reduzido em um terço os seus rendimentos».
Termina a carta dirigindo-se à sua equipa, garantindo «que vou lutar todos os dias para que o desemprego ou o lay-off nunca sejam uma opção. E, sim, iremos continuar a pagar os salários e prémios a todos os que sempre estiveram ao nosso lado».













