Para que a sustentabilidade nos chegue também por via marítima

Opinião de Daniel Maré Dias, responsável pelo mercado vertical dos Portos na Siemens Portugal

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Por Daniel Maré Dias, responsável pelo mercado vertical dos Portos na Siemens Portugal

O verão, para a maioria das pessoas, é sinónimo de férias, de dias longos na praia, de tardes bem passadas com amigos e do tão desejado descanso (confesso que este verão consegui cumprir todos estes pontos). Contudo, para cidades costeiras como Lisboa, Porto, Portimão ou outras, esta estação é também sinónimo de chegada de muitos milhares de turistas, ávidos por conhecer as principais atrações do nosso país. É inegável que o turismo gera impactos económicos e sociais significativos, mas estes nem sempre são consensuais. Neste contexto, uma preocupação crescente e transversal, sobretudo nas cidades mais procuradas, é a da sustentabilidade. Importa, portanto, perceber como podemos continuar a acolher quem nos visita e colher os benefícios desta dinâmica, sem comprometer os recursos e a qualidade de vida das nossas comunidades.

Perante este cenário, diversos setores ligados ao turismo têm demonstrado um compromisso crescente com a sustentabilidade. As unidades hoteleiras, por exemplo, têm investido na modernização das suas infraestruturas, adotando tecnologias inteligentes, para que estas sejam mais eficientes e confortáveis. Os mais variados meios de transporte, utilizados pelos turistas para circularem entre atrações, estão a apostar na eletrificação. E a indústria da construção naval está a explorar ativamente formas alternativas de propulsão para navios de cruzeiro e ferries, apenas para citar alguns exemplos.

Também os portos, o foco deste meu artigo, estão a percorrer um importante caminho rumo à eletrificação e a uma maior sustentabilidade. Sendo um setor historicamente responsável por uma parcela considerável das emissões de gases com efeito de estufa, a sua reestruturação e descarbonização são fundamentais para o cumprimento das metas estabelecidas no Acordo de Paris. Fiquei por isso bastante entusiasmado ao ver lançada, este verão, a nova estratégia governamental para os portos do continente (Portos 5+), que se traduz na aposta de Portugal na ampliação dos portos, na melhoria das suas acessibilidades, na descarbonização e na digitalização.

Porque é que isto é importante? Porque cerca de 10% do consumo de energia dos navios ocorre precisamente quando estes estão em terra. Nos navios de cruzeiro, o consumo pode chegar aos 20%, sendo estes inclusivamente comparados a pequenas cidades no que ao consumo energético diz respeito, continuando a poluir e a emitir ruído mesmo quando atracados nos portos. Daí que a própria legislação europeia exija que, em 2030, os navios de grande porte passem a ser alimentados pela rede elétrica enquanto estão atracados.

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Estes desafios da descarbonização exigem uma nova abordagem holística por parte dos portos, com grande foco na eletrificação, automação e digitalização, com o objetivo de os tornar infraestruturas inteligentes. Essa abordagem passará pela instalação de sistemas de fornecimento de energia a navios a partir de terra (sistemas OPS – Onshore Power Supply, como já existem em funcionamento nos portos de Kiel e Hamburgo, na Alemanha), soluções que contemplem a produção de energia renovável e o armazenamento de energia através de baterias, ou até de infraestruturas de carregamento para veículos elétricos. A combinação de todos estes ativos energéticos tem de ser gerida como uma verdadeira microrrede, permitindo uma gestão mais inteligente, eficiente e segura da produção e consumo energéticos dos portos, e conferindo uma maior independência e estabilidade a estas infraestruturas críticas.

Todas estas soluções tecnológicas já estão disponíveis no mercado, mas existem outras que merecem ser destacadas, como os gémeos digitais que permitem, por exemplo, simular cenários e otimizar soluções tecnológicas antes da sua implementação, poupando custos e garantindo maior eficiência e previsibilidade. A implementação destas tecnologias representa, seguramente, uma oportunidade para os operadores portuários, estaleiros navais e armadores, impulsionando a criação de novos modelos de negócio e tornando a atividade mais rentável.

Os passos já estão a ser dados por vários portos a nível global, incluindo Portugal, embora ainda um pouco tímidos. É por isso urgente acelerar este processo para evitar falhar os objetivos traçados pela Europa. Fazê-lo exigirá parceiros especializados em redes de energia e digitalização, capazes de oferecer soluções integradas e eficientes, sendo este um caminho no qual a Siemens está disponível, uma vez mais, para acompanhar e ajudar a desenvolver o país.

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A descarbonização do setor portuário em Portugal não é apenas uma oportunidade (pela vantagem competitiva que oferece), mas também uma necessidade inadiável. A aposta em infraestruturas mais limpas e em operações mais eficientes é um pilar fundamental para garantir que o verão continue a ser sinónimo de descanso e de experiências memoráveis para todos, sem comprometer o futuro das nossas cidades e do nosso planeta. Bom regresso ao trabalho!

 

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