Europa inicia hoje processo para restaurar sanções da ONU contra o Irão

A decisão, confirmada por quatro diplomatas à Reuters, marca um ponto de viragem nas negociações com Teerão, numa altura em que os três países — conhecidos como E3 — procuram ainda deixar espaço para a diplomacia.

Pedro Gonçalves

O Reino Unido, a França e a Alemanha deverão iniciar hoje o processo para reimpor sanções das Nações Unidas contra o Irão, invocando violações do acordo nuclear de 2015. A decisão, confirmada por quatro diplomatas à Reuters, marca um ponto de viragem nas negociações com Teerão, numa altura em que os três países — conhecidos como E3 — procuram ainda deixar espaço para a diplomacia.

Na terça-feira, representantes do E3 reuniram-se com autoridades iranianas numa tentativa de obter compromissos claros relativamente ao programa nuclear de Teerão. No entanto, os europeus consideraram insuficientes as respostas recebidas. Por isso, decidiram avançar hoje com o chamado mecanismo de “snapback”, que poderá culminar, dentro de 30 dias, na reposição de sanções que abrangem setores cruciais como o financeiro, bancário, energético e da defesa. “As verdadeiras negociações começam quando a carta for entregue ao Conselho de Segurança da ONU”, afirmou um diplomata ocidental, sob anonimato.

Apesar do passo dado, Londres, Paris e Berlim mantêm aberta a possibilidade de suspender a aplicação prática das sanções durante vários meses, caso o Irão aceite retomar inspeções completas da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e voltar a negociar seriamente. Rafael Grossi, diretor da AIEA, confirmou que inspetores internacionais já regressaram ao país, mas sublinhou que ainda não existe acordo sobre o acesso a instalações nucleares ou sobre a fiscalização do urânio enriquecido em níveis elevados.

Segundo dados da AIEA, o Irão tem produzido urânio com uma pureza de até 60%, muito próximo dos 90% necessários para fins militares. Antes dos ataques de Israel, a 13 de junho, o país dispunha já de material suficiente para, se refinado, permitir a construção de seis ogivas nucleares. Teerão insiste que o programa tem fins pacíficos e nega procurar armamento nuclear, mas o Ocidente argumenta que a dimensão dos avanços ultrapassa necessidades civis.

O governo iraniano tem reagido com firmeza às movimentações europeias. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araqchi, disse no Parlamento que ainda não existe acordo para retomar a cooperação plena com a AIEA, enquanto Teerão ameaça responder de forma “dura” caso as sanções sejam efetivamente restabelecidas.

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Os próximos 30 dias serão decisivos. Se nada mudar, em finais de setembro as sanções estarão novamente em vigor, colocando sob forte pressão o regime iraniano e elevando a tensão numa região já marcada por conflitos e instabilidade.

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