Calor extremo é uma emergência de saúde pública que está a agravar-se, alertam especialistas em carta à OMS

Em carta aberta enviada esta quarta-feira à Organização Mundial da Saúde (OMS), a Comissão Pan-Europeia sobre Clima e Saúde (PECCH) sublinha que os fenómenos meteorológicos extremos “não são apenas uma crise climática, mas também uma crise de saúde pública, que está a sobrecarregar sistemas de saúde, economias e a vida das pessoas mais em risco”.

Pedro Gonçalves
Agosto 13, 2025
12:58

O calor extremo está a tornar-se cada vez mais uma emergência de saúde pública crescente, segundo alerta um grupo de especialistas que pede ação urgente para proteger as populações vulneráveis e reforçar os sistemas de saúde, perante o aumento de excesso de mortalidade e surtos de doenças associadas às altas temperaturas.

Em carta aberta enviada esta quarta-feira à Organização Mundial da Saúde (OMS), a Comissão Pan-Europeia sobre Clima e Saúde (PECCH) sublinha que os fenómenos meteorológicos extremos “não são apenas uma crise climática, mas também uma crise de saúde pública, que está a sobrecarregar sistemas de saúde, economias e a vida das pessoas mais em risco”. “Isto já não é uma ameaça distante ou um incómodo sazonal. É uma emergência de saúde pública que está a desenrolar-se em tempo real”, alertam os especialistas no documento.



A comissão (recém-formada em julho deste ano) consiste num grupo independente que reúne especialistas em clima e saúde de toda a Europa, convocado pelo diretor regional da OMS para a Europa, Hans Kluge. O organismo irá apresentar, na Assembleia Mundial da Saúde de maio de 2026, recomendações para acelerar a ação conjunta nas áreas da saúde e do clima.

Ondas de calor cada vez mais mortíferas
A Europa tem registado ondas de calor recorde, cada vez mais frequentes, intensas e letais, a que os especialistas chamam “assassinos silenciosos”. Durante períodos de temperaturas muito elevadas, o corpo humano pode ter dificuldade em regular-se, originando stress térmico, exaustão pelo calor, insolação e agravamento de doenças pré-existentes, por vezes com desfecho fatal.

O calor é o fenómeno meteorológico e climático extremo mais mortífero na Europa. Entre 2022 e 2023, mais de 100 mil mortes foram registadas em 35 países europeus devido a temperaturas elevadas. O número de mortes associadas ao calor aumentou 30% nas últimas duas décadas e deverá continuar a crescer.

Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, pessoas com deficiência, grávidas, crianças, trabalhadores ao ar livre e indivíduos que vivem em habitações sem preparação adequada para temperaturas extremas.

Doenças transmitidas por mosquitos em expansão
As alterações climáticas também estão a impulsionar a propagação de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, vírus do Nilo Ocidental e chikungunya. Dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) revelam que, em 2024, foram registados 1.436 casos de vírus do Nilo Ocidental e 304 infeções por dengue adquiridas na Europa — um aumento significativo face aos 201 casos registados nos dois anos anteriores combinados.

Sistemas de saúde sob pressão
A carta da PECCH destaca que o calor extremo expõe falhas nos sistemas de resposta e coloca uma pressão significativa sobre os serviços de saúde.

“Os planos de ação para a saúde em contexto de calor salvam vidas ao desencadear ações preventivas, proteger os mais vulneráveis e aliviar a pressão sobre os hospitais. Acelerar a implementação destes planos deve ser uma prioridade — não daqui a alguns anos, mas já”, defende a comissão.

Em Portugal, entre 2000 e 2018, as admissões hospitalares diárias aumentaram 19% durante dias de onda de calor. Em França, em 2022, as idas às urgências duplicaram e as consultas médicas triplicaram durante estes períodos, no que toca a condições relacionadas com o calor.

A PECCH insiste também na necessidade de investir na prevenção e de adotar “novas métricas de progresso que coloquem a saúde, o bem-estar, a equidade e a sustentabilidade no centro”.

A comissão afirma que “a crise climática é uma crise de saúde” e que “agir pelo clima é agir pela saúde”. Entre as medidas apontadas estão a redução das emissões e a expansão de espaços verdes urbanos, que têm benefícios diretos para o ambiente e para a saúde pública.

Segundo os especialistas, aumentar a cobertura de espaços verdes urbanos em 30% poderia reduzir até 40% as mortes associadas ao calor extremo.

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