Cinzas de lagarto, vinagre e mel: os ‘medicamentos’ medievais que estão de regresso à moda (graças ao TikTok)

Novo projeto internacional de investigação revela um mundo de fórmulas inesperadamente sofisticadas — e bizarras — que, surpreendentemente, estão a regressar pelas mãos de entusiastas das terapias naturais e até por via das tendências virais nas redes sociais.

Pedro Gonçalves

Durante muito tempo, a medicina da Idade Média foi vista como uma mistura de superstição e práticas rudimentares. Mas um novo projeto internacional de investigação está a desafiar essa perceção, e a revelar um mundo de fórmulas inesperadamente sofisticadas — e bizarras — que, surpreendentemente, estão a regressar pelas mãos de entusiastas das terapias naturais e até por via das tendências virais nas redes sociais.

O projeto Corpus of Early Medieval Latin Medicine reuniu centenas de manuscritos médicos anteriores ao século XI, duplicando o número de textos conhecidos desse período. Neles encontram-se receitas e conselhos para cuidar da saúde, da pele, do cabelo e até do humor. Muitas destas práticas, que julgávamos esquecidas, assemelham-se a truques partilhados hoje em plataformas como o TikTok.



Uma das receitas mais insólitas remonta ao século V e tem como objetivo promover o crescimento do cabelo. A fórmula é clara: lavar a cabeça com sal-gema e vinagre, e depois esfregar com cinzas de lagarto verde queimado misturadas com óleo. Se hoje tal prática pode parecer chocante, o uso de vinagre e óleos para o cabelo é, na verdade, uma tendência bem popular nas redes sociais.

A investigadora Meg Leja, professora associada de História na Universidade de Binghamton, explica ao Daily Mail que muitas destas receitas medievais são, afinal, precursoras da chamada “medicina alternativa”. “Vemos muitas destas práticas a circular atualmente online, mas elas já existiam há milhares de anos”, afirma.

Outros tratamentos recolhidos incluem a aplicação de queijo velho e mel sobre crostas ou feridas, que deveria permanecer no local durante sete dias, ou uma fórmula contra dores de cabeça que consistia em esmagar caroços de pêssego e misturá-los com óleo de rosa antes de aplicar na testa. Curiosamente, estudos contemporâneos comprovam que o óleo de rosa tem propriedades analgésicas úteis no alívio de enxaquecas, como demonstrado numa investigação publicada em 2017.

Há também receitas de tónicos digestivos surpreendentemente semelhantes às bebidas detox modernas. Um manuscrito do século VI, escrito à margem de um tratado teológico, apresenta uma receita para posca — uma bebida para “soltar a barriga”: 19 partes de água, 3 de vinagre e uma de sal, medidas em cascas de ovo. Hoje, dezenas de vídeos recomendam uma mistura quase idêntica de vinagre de cidra com água para “limpar” o sistema digestivo.

A historiadora Carine van Rhijn, da Universidade de Utrecht, colaboradora do projeto, realça o quão preocupadas estavam as pessoas da época com a sua aparência e bem-estar: “As pessoas cuidavam da aparência, queriam cheirar bem, ter bom cabelo, tratar borbulhas ou unhas danificadas. Isso não é o que costumamos imaginar quando pensamos na Alta Idade Média”, comenta.

De facto, muitos ingredientes usados nesses tempos são hoje promovidos como naturais e sustentáveis. A planta saponária, por exemplo, misturada com banha, servia como pomada para mãos e pés — algo que se alinha com os cosméticos artesanais que vemos proliferar nas lojas e redes sociais. Os conselhos dietéticos também eram comuns: recomenda-se comer alimentos frescos no verão e comidas que aquecem no inverno, para manter o “equilíbrio corporal” — uma abordagem holística bem próxima da medicina ayurvédica ou da medicina tradicional chinesa.

A preocupação com o corpo ia além da aparência. “As pessoas queriam manter o equilíbrio dos humores, não estavam tão focadas em emagrecer, mas em manter a saúde geral”, diz van Rhijn. Alguns textos aconselhavam, por exemplo, tomar banhos quentes e beber vinho em fevereiro, enquanto sugeriam infusões de poejo em março. Em novembro, curiosamente, recomendava-se trocar o sexo por vinho — uma indicação que hoje, provavelmente, geraria memes e debates acalorados.

Apesar das aparentes semelhanças com práticas modernas, os investigadores alertam: estas receitas não devem ser testadas em casa. “Somos historiadores, não farmacêuticos”, sublinha van Rhijn. O objetivo é compreender como as pessoas se relacionavam com a saúde e com a natureza, e não necessariamente validar as receitas como eficazes segundo os padrões atuais.

Como resume Meg Leja, “as pessoas na Idade Média estavam profundamente interessadas na observação do mundo natural e em registar aquilo que funcionava. Estavam muito mais envolvidas com a medicina do que se pensava.” Seja com cinzas de lagarto ou infusões de poejo, a medicina medieval revela-se hoje como um campo de saber vasto e, quem sabe, não tão irracional como durante séculos se julgou.

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