Irão aprova fim da cooperação com a Agência Internacional de Energia Atómica após ataques aos seus centros nucleares

O Conselho dos Guardiães da Constituição do Irão aprovou esta quinta-feira a lei que suspende toda a cooperação do país com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), segundo avançou a imprensa estatal iraniana.

Pedro Gonçalves
Junho 26, 2025
11:15

O Conselho dos Guardiães da Constituição do Irão aprovou esta quinta-feira a lei que suspende toda a cooperação do país com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), segundo avançou a imprensa estatal iraniana. A medida, aprovada por unanimidade no parlamento no início da semana, marca uma escalada significativa na confrontação com o Ocidente, na sequência dos recentes ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel a três instalações nucleares iranianas.

Com esta decisão, todas as inspeções, instalação de câmaras de vigilância e relatórios de supervisão à AIEA ficam suspensos até que Teerão receba garantias de segurança para as suas infraestruturas nucleares. “O programa civil nuclear do Irão continuará a um ritmo acelerado”, declarou Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento, acrescentando que o organismo de vigilância da ONU se tornou “um instrumento político” e que a sua atuação serviu de “pretexto” para os ataques militares.



A proposta agora ratificada surgiu depois de a comissão de segurança nacional do parlamento ter acusado a AIEA de emitir relatórios falsos. Durante a votação, os deputados gritaram “abaixo os EUA” e “abaixo Israel”. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmail Baghaei, foi o primeiro membro do governo a admitir que as infraestruturas nucleares foram “gravemente danificadas” nos ataques. No entanto, o presidente Masoud Pezeshkian e vários líderes iranianos celebraram o que consideram ter sido uma “resistência bem-sucedida” aos bombardeamentos, apesar da ausência de apoio explícito de muitas capitais europeias.

A decisão é também vista como uma resposta à moção de censura aprovada no mês passado pelo conselho de governadores da AIEA, que criticava a falta de colaboração de Teerão com os inspetores internacionais. O diretor da AIEA, Rafael Grossi, advertiu entretanto que o organismo já não tem meios para saber onde está armazenado o urânio altamente enriquecido iraniano. Teerão exige agora “garantias de segurança tangíveis” antes de reatar qualquer forma de cooperação.

O debate interno no Irão intensifica-se, com algumas vozes a defenderem que o país deverá abandonar formalmente o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Um antigo deputado, Akbar A’lami, questionou: “Se a nossa adesão ao TNP não nos protege de ataques militares nem de sanções económicas, e se serve apenas como instrumento de ameaça constante, qual é a justificação para permanecermos nele?”

Apesar da retórica inflamada, o ex-presidente iraniano Hassan Rouhani apelou à moderação: “Devemos preparar-nos não para fazer guerra, mas para uma paz duradoura e poderosa, que exige racionalidade, dissuasão e profundidade estratégica, não ilusões temerárias.” Enquanto isso, o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, estão em contacto para retomar negociações, mas nenhuma data foi ainda fixada. Donald Trump garantiu, no entanto, que um novo encontro deverá acontecer “já na próxima semana”.

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