Por Acácio Ferreira, Director – Credit and Surety Insurance da WTW Portugal
A enorme volatilidade, a instabilidade mundial e os contínuos conflitos armados acentuam o risco no mercado internacional. Mesmo relações com países “amigos” podem rapidamente tornar-se incertas, como demonstra a recente inflexão política dos EUA.
O risco político, antes preocupação exclusiva das grandes empresas, passou a ser também crítico para as PME. A globalização e as novas tecnologias têm permitido às PME expandirem-se internacionalmente, mas essa diversificação vem acompanhada de riscos mais elevados.
Este risco pode resultar de conflitos armados, mas também de alterações legislativas, mudanças de governo, crises financeiras provocadas por volatilidade de matérias-primas ou excesso de dependência de um setor económico. Países com dificuldades de liquidez ou elevada sensibilidade ao mercado global são especialmente vulneráveis à instabilidade. Além disso, as alterações climáticas também representam riscos crescentes, com fenómenos extremos como inundações e secas a afetarem diretamente os ativos das empresas.
O Seguro para Risco Político e Extraordinário protege as empresas contra perdas financeiras derivadas de eventos políticos inesperados ou desastres naturais, mitigando o risco e promovendo a confiança nas transações internacionais.
Um survey recente da WTW analisou o mercado de Risco Político em 2025, identificando um crescimento global da capacidade seguradora e revelando uma exposição elevada em países considerados estáveis, como os EUA e o Reino Unido.
A cobertura deste tipo de seguros pode ser dividida em três categorias:
- Frustração contratual: incumprimento por entidades públicas;
- Risco transacional: incumprimento por entidades privadas devido a eventos políticos ou catástrofes;
- Risco político: confiscação estatal, violência política e riscos semelhantes.
O mercado inclui seguradoras privadas, ECAs (Export Credit Agencies) e agências multilaterais (como as do Banco Mundial).
As empresas enfrentam riscos como expropriação, violência política, cancelamento de licenças, inconvertibilidade de moeda, suspensão de transferências, entre outros. Eventos catastróficos — furacões, inundações, sismos ou acidentes nucleares — também podem afetar a atividade e os ativos.
Num mercado global cada vez mais competitivo e volátil, as empresas enfrentam riscos que, embora nem sempre evidentes, podem ter um impacto significativo na sua atividade. As soluções de seguro para Riscos Políticos e Extraordinários oferecem uma forma eficiente e acessível de proteger ativos, investimentos e receitas contra perdas resultantes de eventos políticos adversos ou catástrofes naturais.
Ao recorrerem a estas soluções, as empresas conseguem proteger os seus fluxos financeiros, os ativos e o capital dos acionistas, mitigar os efeitos de eventos imprevisíveis, reforçar a confiança dos stakeholders ao demonstrar uma política sólida de gestão de risco, melhorar o acesso a financiamento e garantir maior estabilidade e previsibilidade nos resultados das suas operações internacionais.
Estas coberturas são particularmente relevantes em três grandes áreas de atuação: a exportação de bens e serviços, o investimento direto no estrangeiro e a prestação de garantias através de Seguro Caução. Na exportação, é possível assegurar a faturação da empresa face a incumprimentos por parte de clientes, públicos ou privados, resultantes de fatores políticos ou extraordinários e não apenas de dificuldades financeiras. O risco político vai muito além dos cenários de conflito armado. As alterações legislativas ou políticas podem comprometer seriamente transações comerciais, como aconteceu em 2021, quando os EUA lideraram o ranking de perdas por risco político devido às restrições às importações da China, afetando setores como o da produção de microchips. Adicionalmente, tem-se assistido a um aumento da pressão regulatória em diversos setores, desde os habituais como a banca ou a saúde até outros como a indústria alimentar, energia e tecnologia.
No que respeita ao investimento, é possível segurar projetos em mercados estrangeiros contra acontecimentos políticos inesperados, protegendo os investidores desde a constituição de novas empresas à aquisição de participações, passando por processos de expansão, modernização ou mesmo pela abertura de sucursais. Estes seguros salvaguardam tanto o capital investido como os rendimentos gerados, incluindo lucros, dividendos e juros, bem como eventuais empréstimos associados ao investimento.
O Seguro Caução, por sua vez, atua como uma garantia de cumprimento de obrigações contratuais em operações internacionais, especialmente em mercados com maior instabilidade. Tal como na versão tradicional, a sua função é proteger a empresa exportadora, mas em contextos mais desafiantes do ponto de vista político ou económico.
A necessidade de internacionalização das empresas portuguesas é hoje um imperativo estratégico, mas exige uma abordagem cautelosa perante a crescente incerteza nos mercados. As mudanças políticas, a radicalização em alguns países europeus, a pandemia, os conflitos armados e os fenómenos climáticos extremos são apenas alguns dos fatores que reforçam a urgência de soluções eficazes de proteção. Numa conjuntura marcada pela imprevisibilidade, os seguros de Risco Político e Extraordinário são ferramentas essenciais para garantir a sustentabilidade, segurança e continuidade das empresas que operam ou pretendem expandir-se no mercado global.




