Em 2024, Portugal desperdiçou eletricidade suficiente para abastecer 60 mil casas. Como inverter este caminho?

Opinião de Tiago Santos, CEO da Enlitia

Executive Digest

Por Tiago Santos, CEO da Enlitia

Sabia que Portugal desperdiçou, só em 2024, mais de 200 GWh de energia renovável — o suficiente para abastecer cerca de 60 mil habitações durante um ano inteiro? O número impressiona, mas raramente é discutido fora dos círculos técnicos. Este fenómeno tem um nome: curtailment. E representa um dos maiores desafios — e tabus — da transição energética.



Nos últimos anos, Portugal tem sido palco de um crescimento notável das energias renováveis, impulsionado por metas ambiciosas de descarbonização e pela redução significativa dos custos das tecnologias solar e eólica. No entanto, esse progresso enfrenta um obstáculo estrutural: a energia que é gerada… mas não chega a ser utilizada.

Curtailment ocorre quando a produção de energia renovável excede, num determinado momento, a capacidade da rede elétrica para a distribuir ou armazenar, ou quando a procura não consegue acompanhar o ritmo da geração. Situações como esta tornam-se cada vez mais frequentes, sobretudo em dias de muito vento ou sol.

Em países como a Alemanha, onde o norte produz grandes volumes de energia eólica que não conseguem ser escoados para os grandes centros de consumo no sul, o problema atinge proporções alarmantes. Em Portugal, os mais de 200 GWh desperdiçados em 2024 representam um crescimento significativo face a anos anteriores, revelando limitações técnicas da rede que colocam em causa a eficiência do sistema.

Como sublinha a APREN — Associação Portuguesa de Energias Renováveis —, “não basta aumentar a capacidade instalada; é essencial garantir que cada quilowatt-hora gerado seja eficazmente aproveitado.”

O impacto é muito mais do que técnico

As consequências do curtailment vão além do desperdício de energia limpa. Os produtores perdem receitas por não conseguirem escoar toda a eletricidade gerada, os investidores enfrentam menor retorno e maior risco, e os consumidores acabam por não beneficiar plenamente da abundância renovável.

A própria transição energética desacelera: sem uma utilização eficiente da energia renovável já disponível, cresce o ceticismo em torno da viabilidade dos investimentos e da sustentabilidade do modelo.

Causas estruturais

As origens do curtailment são diversas:

· Infraestruturas elétricas que não acompanharam o crescimento da produção renovável;

· Ausência de flexibilidade na procura, com consumo desfasado dos momentos de maior produção;

· Falta de incentivos ao armazenamento e à redistribuição inteligente da energia;

· Previsões meteorológicas e de consumo com baixa precisão, dificultando a gestão em tempo real.

De entrave a oportunidade estratégica

A boa notícia? O curtailment pode ser reduzido drasticamente — e até transformado numa vantagem competitiva — se Portugal souber aprender com os bons exemplos internacionais.

A Dinamarca, por exemplo, conseguiu minimizar as perdas energéticas através de:

· Adoção de baterias e produção de hidrogénio verde para armazenar o excesso de energia;

· Tarifas dinâmicas e incentivos ao consumo flexível, alinhando consumo e produção;

· Redes inteligentes e interligações elétricas robustas com países vizinhos;

· E, cada vez mais, modelos de previsão avançados baseados em Inteligência Artificial, como os desenvolvidos pela Enlitia.

Além disso, reformas regulatórias são urgentes para permitir que soluções de flexibilidade e armazenamento participem eficazmente no mercado, ajudando a reduzir desperdícios e a maximizar o valor da energia limpa.

Uma questão de visão nacional

Como afirmou João Peças Lopes, investigador do INESC TEC, “resolver o curtailment não é apenas uma obrigação técnica, é uma necessidade estratégica nacional”.

Portugal tem metas ambiciosas para a neutralidade carbónica em 2050. Mas para lá chegar, cada watt de energia renovável precisa de ser usado de forma inteligente. Está na altura de decisores políticos, operadores de rede, reguladores e empresas trabalharem em conjunto para transformar o curtailment — de um problema silencioso — num catalisador da eficiência energética nacional.

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