De vigiar baleias a manter submarinos russo ‘debaixo de olho’: Nova tecnologia baseada em IA promete transformar defesa naval da Europa

Uma nova tecnologia de vigilância subaquática, baseada em inteligência artificial e originalmente concebida para monitorizar baleias, promete agora transformar a defesa naval europeia, com especial enfoque na deteção de submarinos russos.

Pedro Gonçalves

Uma nova tecnologia de vigilância subaquática, baseada em inteligência artificial e originalmente concebida para monitorizar baleias, promete agora transformar a defesa naval europeia, com especial enfoque na deteção de submarinos russos. Desenvolvido pela empresa de defesa alemã Helsing, o sistema SG-1 Fathom foi recentemente apresentado numa demonstração na Base Naval de Portsmouth, no sul de Inglaterra, e poderá começar a ser implementado ainda este ano em zonas estratégicas da NATO.

O elemento central desta inovação é o Lura, uma ferramenta de inteligência artificial criada pela própria Helsing, que recorre a um modelo acústico de larga escala para identificar com elevada precisão objetos submersos. Segundo a empresa, o sistema é capaz de distinguir embarcações com base nas suas assinaturas sonoras específicas — mesmo dentro da mesma classe de navios — e de o fazer “até 40 vezes mais rápido do que operadores humanos”.



“A utilização de um modelo acústico de grande escala pelo Lura permite-lhe detetar assinaturas acústicas 10 vezes mais silenciosas do que outros modelos de IA”, refere a Helsing num comunicado divulgado esta terça-feira. A tecnologia foi inicialmente desenvolvida com o objetivo de seguir baleias no oceano, mas o seu potencial para a defesa naval foi rapidamente reconhecido.

Três meses de autonomia para missões críticas
O drone subaquático SG-1 Fathom, onde o Lura é integrado, tem capacidade para realizar missões com uma duração de até três meses de forma autónoma. Segundo a Helsing, o sistema poderá ser usado em regime de contratação externa ou operado diretamente pelas marinhas dos países aliados. A sua flexibilidade permite a sua aplicação rápida em “quaisquer áreas de importância estratégica”, desde o Mar do Norte e o Mar Báltico até às profundezas do Atlântico e da região Indo-Pacífica.

Num momento em que aumentam as preocupações com a segurança das infraestruturas submarinas, como cabos de comunicações e gasodutos, a nova tecnologia é vista como um contributo crucial para reforçar a capacidade de resposta da NATO e dos seus aliados perante ameaças subaquáticas, nomeadamente da Rússia.

Uma resposta à nova geopolítica dos mares
O codiretor executivo da Helsing, Gundbert Scherf, salientou a importância estratégica deste avanço tecnológico, considerando-o essencial num contexto de ameaças crescentes às infraestruturas marítimas e à segurança nacional.

“O Lura e o SG-1 Fathom podem ser rapidamente destacados […] para acompanhar o ritmo das ameaças contra as nossas infraestruturas críticas, as águas nacionais e o nosso modo de vida”, afirmou Scherf, citado na nota da empresa. “A implantação da IA no limite das constelações submarinas iluminará os oceanos e dissuadirá os nossos adversários, em prol de uma Europa forte.”

Esta declaração reforça a ideia de que a vigilância subaquática está a tornar-se uma nova frente na dissuasão estratégica europeia. Com a crescente presença naval russa nas águas do Ártico e do Báltico, aliados da NATO têm alertado para a necessidade urgente de desenvolver tecnologias capazes de monitorizar de forma eficiente e segura o ambiente subaquático, particularmente em tempos de tensão geopolítica.

Tecnologia com origem civil, aplicação militar
O projeto que agora se apresenta como uma potencial viragem na estratégia de defesa marítima da Europa tem raízes na investigação civil. A tecnologia base do Lura foi inicialmente pensada para fins científicos — nomeadamente o estudo e a localização de grandes cetáceos em ambiente oceânico. No entanto, a sua capacidade para interpretar com precisão padrões acústicos complexos e diferenciá-los entre múltiplas fontes levou ao seu reaproveitamento para fins de defesa.

A adaptação da tecnologia civil para uso militar é uma tendência crescente em áreas como a inteligência artificial e a robótica, e o SG-1 Fathom é um exemplo paradigmático desta dualidade. A sua promessa de “iluminar os oceanos” assenta numa combinação de inovação tecnológica e adaptação estratégica, numa altura em que as ameaças subaquáticas são vistas como um dos domínios mais críticos da segurança europeia.

Com o SG-1 Fathom e o Lura, a Helsing pretende posicionar-se como parceira-chave dos países da NATO na modernização da vigilância marítima. As primeiras missões com este sistema deverão arrancar ainda em 2025.

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