Por José Rebouta, Partner, Supervisory Board Member, Forvis Mazars
A literacia financeira é muito mais do que uma competência pessoal – é um fator determinante para o sucesso pessoal e profissional e deve ser reforçada no processo educativo. Cidadãos e colaboradores financeiramente informados e seguros são mais focados, mais produtivos e mais resilientes face a desafios, face à mudança, tornando a comunidade e as organizações mais preparadas e mais ágeis.
A literacia financeira é uma competência essencial para a vida pessoal tanto como para o sucesso e sustentabilidade das empresas. É insubsistente negligenciar esta disciplina, este pilar, pois os resultados desta consequência podem revelar-se tão desanimadores como os resultados dos estudos mais recentes que confirmam que os portugueses estão aquém no domínio dos conceitos e aplicação concreta da linguagem financeira.
O Grupo de Reflexão Europeu Bruguel realizou, em 2024, um estudo que revelou que 42% dos portugueses só conseguiram responder corretamente a três de cinco questões sobre literacia financeira básica. No ano passado, a OCDE publicou um relatório onde concluiu que a literacia financeira dos portugueses aumentou apenas 1%, entre 2020 e 2023. Na camada mais jovem, os dados do quinto inquérito da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) à população universitária, provaram que perto de 50% dos respondentes afirmam nunca negociar ações, obrigações e fundos de investimento através de ferramentas digitais e 73,5% não negoceiam CFD, ETC, warrants e outros produtos financeiros complexos com base nestas plataformas.
Ainda assim, 2024 revelou esperança com a aprovação do Projeto-Piloto de Inovação Pedagógica em sete escolas, no ano letivo ainda em curso, que contempla a disciplina de Literacia Financeira. Além disto, foi aprovada, no âmbito do Orçamento do Estado para 2025, a criação de um Programa Nacional de Literacia Financeira para jovens, uma iniciativa que pretende reforçar a educação financeira nas escolas e entre diferentes perfis juvenis já no próximo ano letivo. Inscrever este ponto no processo educativo é fundamental. As decisões do governo representam um passo importante na direção certa. Todavia, o esforço é coletivo de toda a comunidade e ao nível familiar. Inscrever a literacia financeira, de forma responsável e divertida, é o caminho.
É, também, fundamental considerar o papel pedagógico da auditoria e dos processos de auditoria, que são formativos na promoção de boas práticas financeiras e na consolidação de uma sociedade mais ética e responsável. O início da atividade profissional em auditoria é, também, uma opção a ser considerada pelos jovens profissionais, por ser estruturante e formativa para a vida.
No atual ambiente empresarial globalizado, a harmonização de práticas financeiras e de auditoria tornou-se essencial para garantir e assegurar transparência, comparabilidade e confiança na informação prestada aos mercados. A auditoria, muitas vezes observada como uma mera obrigação legal, é, na realidade, um pilar e um instrumento poderoso para incentivar a literacia financeira, tanto ao nível das empresas como dos indivíduos. Quando bem utilizada, vai muito além de assegurar a conformidade com normativos legais e regulamentares e torna-se uma ferramenta que ajuda a identificar riscos e não apenas os riscos financeiros, contribuindo para melhorar os processos internos das empresas e fomentar a tomada de decisões informadas. No contexto da literacia financeira na comunidade, é importante que os cidadãos, não só aprendam noções como poupança, investimento ou endividamento como, também, posicionamento inteligente, desinvestimento, balanço, recorrência, curto e médio prazo, reservas, entre outras, mas entendam a importância da transparência e do rigor financeiro. Integrar noções básicas de auditoria no currículo adiciona valor a esse objetivo.
Conceitos como o controlo de orçamento, a verificação de relatórios financeiros e a identificação de desvios são competências que, se desenvolvidas desde cedo, podem formar uma geração mais consciente e preparada para os desafios económicos futuros. As próprias empresas também têm um papel crucial neste esforço. Este conhecimento traduz-se em melhorias concretas na gestão financeira, na eficiência operacional e na sustentabilidade do negócio. Esta é uma lição valiosa, não apenas para as empresas, mas, também, para os cidadãos, reforçando a capacidade crítica, a capacidade de manter opções em aberto e escolher de forma criteriosa.
Introduzir a literacia financeira nas escolas portuguesas é uma excelente iniciativa, mas o seu impacto pode ser exponenciado se complementado por uma forte cultura de auditoria. Promover esta sinergia, acreditando que a combinação de conhecimento financeiro e práticas de auditoria eficazes são essenciais para o desenvolvimento de uma geração e da comunidade, com indivíduos e organizações mais responsáveis e bem-sucedidas, é um pilar fundamental para um futuro financeiramente sustentável. A segurança e independência, que hoje tanto se falam, serão a consequência. E não é opção.




