Uma equipa de cientistas revelou recentemente que uma enorme laje da crosta terrestre, enterrada profundamente sob a região centro-oeste dos Estados Unidos, está a puxar grandes volumes da crosta norte-americana para o manto terrestre. Este fenómeno, conhecido como “pingos”, ocorre a cerca de 640 quilómetros de profundidade e está a afetar uma vasta área que se estende de Michigan a Nebraska e Alabama, com repercussões em todo o continente.
A descoberta, detalhada num estudo publicado a 28 de março na revista Nature Geoscience, descreve como a antiga laje oceânica da placa Farallon, que se fragmentou há cerca de 20 milhões de anos, está a causar um processo de “afinamento cratónico” em grandes regiões da América do Norte. Este processo resulta no arrastamento de material da crosta terrestre, em especial da zona conhecida como cráton – uma área estável e muito antiga da crosta continental. De acordo com os investigadores, as rochas da crosta norte-americana estão a ser puxadas horizontalmente antes de serem sugadas para o interior da Terra, criando uma espécie de funil subterrâneo.
Junlin Hua, autor principal do estudo e geocientista que realizou a investigação durante um pós-doutoramento na Universidade do Texas (UT) em Austin, afirmou em comunicado que a investigação revelou pela primeira vez o fenómeno do afinamento cratónico em tempo real, algo que nunca tinha sido documentado devido às vastas escalas geológicas envolvidas. “Felizmente, também conseguimos identificar o que está a impulsionar esse afinamento”, disse Hua, agora professor na Universidade de Ciência e Tecnologia da China.
A laje Farallon e o seu impacto na crosta norte-americana
O estudo indica que a laje da placa Farallon, um pedaço de crosta oceânica que se desprendeu da antiga placa tectónica e afundou-se sob a América do Norte, é a principal responsável pela criação dos “pingos” que se estendem para o interior do manto terrestre. Esta laje encontra-se a cerca de 660 quilómetros de profundidade, na zona de transição entre o manto superior e o manto inferior, precisamente abaixo do centro dos Estados Unidos. A placa Farallon foi responsável por um processo de subducção entre as placas tectónicas da América do Norte e do Pacífico, um fenómeno geológico que recicla material da crosta para o manto.
Os cientistas revelaram que este processo não só arrasta a crosta para o manto, mas também influencia a zona cratónica, fazendo com que se observe uma perda de material na parte inferior da crosta, o que afeta uma vasta área, abrangendo desde a região de Michigan até ao Alabama e Nebraska. O processo, conhecido como “afinamento cratónico”, é uma característica que, até agora, nunca tinha sido observada de forma tão clara.
A descoberta foi possível graças a uma técnica de imagem sísmica de alta resolução chamada “inversão de forma de onda total”, que permite aos cientistas mapear as camadas subterrâneas da Terra com grande precisão. Esta tecnologia utiliza diferentes tipos de ondas sísmicas para obter informações detalhadas sobre os parâmetros físicos do que se encontra abaixo da crosta terrestre. Com esta técnica, os investigadores conseguiram visualizar a influência da laje Farallon sobre a crosta norte-americana e documentar como o material da crosta está a ser puxado para dentro do manto.
O co-autor do estudo, Thorsten Becker, presidente de geofísica na UT Austin, comentou que a utilização desta técnica foi crucial para compreender melhor a zona de transição entre o manto profundo e a litosfera (crosta e manto superior). “Este tipo de investigação é importante para entendermos como o planeta evoluiu ao longo do tempo geológico”, afirmou Becker.
Impactos a longo prazo e a evolução do processo
Embora os cientistas tenham observado o processo em ação, não há previsão de que este fenômeno tenha consequências visíveis na superfície da Terra num futuro próximo. O estudo sugere que os “pingos” podem parar à medida que a laje Farallon afunda ainda mais no manto inferior e a sua influência sobre a crosta norte-americana diminui. Assim, a longo prazo, o impacto deste processo na crosta terrestre poderá ser mitigado à medida que a laje desaparece mais profundamente.
O estudo das camadas mais profundas da Terra e dos processos geológicos associados ao afinamento cratónico é uma peça chave para entender a formação e a evolução dos continentes. De acordo com os investigadores, a descoberta pode fornecer pistas sobre como a Terra se estruturou ao longo das eras geológicas, ajudando a esclarecer como os continentes se formam, se quebram e são reciclados no interior do planeta.
Este tipo de pesquisa ajuda a resolver um dos maiores enigmas da geologia: como os continentes e os oceanos se formaram e mudaram ao longo do tempo. Para Becker, “este estudo oferece uma melhor compreensão de como a crosta terrestre se comporta, como se forma e como as placas tectónicas interagem ao longo do tempo”.














