A PSP emitiu um alerta dirigido a pais e educadores sobre o uso de emojis nas conversas entre jovens, revelando que muitos destes símbolos aparentemente inofensivos possuem significados ocultos ligados ao aliciamento sexual (grooming) e ao consumo e tráfico de drogas.
A internet e as redes sociais têm vindo a moldar a forma como os jovens comunicam, criando uma espécie de “linguagem secreta” que pode passar despercebida aos adultos. De acordo com a PSP, um simples emoji pode assumir um significado muito diferente daquele que aparenta.
“Pais e jovens devem estar atentos a este duplo significado dos emojis, pois podem estar perante uma situação de aliciamento sexual”, alerta a PSP.
Entre os símbolos mais usados, a polícia destaca que um coração castanho ou um cavalo podem estar associados à heroína, enquanto um emoji de “cocó” ou um emoji de nariz constipado podem significar cocaína. Já emojis como o cachorro-quente, banana e maçaroca são frequentemente utilizados para representar o órgão sexual masculino, ao passo que um taco, uma peça de sushi ou um emoji de gato remetem para o órgão sexual feminino.
Risco de “grooming” e conversas de teor sexual com desconhecidos
A PSP sublinha a necessidade de vigilância, sobretudo quando os jovens utilizam esta linguagem em interações online com desconhecidos. “Apesar das conversas de teor sexual entre jovens, a partir de uma determinada idade, poderem fazer parte do crescimento, a PSP apela a um especial cuidado quando se utiliza este tipo de linguagem (emojis) no diálogo com desconhecidos em chats, aplicações de encontros, plataformas de jogos online, entre outros”, reforça a força policial.
A polícia lembra ainda que os jovens podem estar a dialogar com adultos que se fazem passar por menores, tentando ganhar a sua confiança para eventuais encontros presenciais. Este tipo de aliciamento, conhecido como “grooming”, é um dos principais perigos apontados pelas autoridades.
Criminalidade juvenil em ascensão em Portugal
O alerta da PSP surge num contexto de aumento da criminalidade juvenil, sobretudo desde a pandemia. De acordo com os dados provisórios do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), os incidentes envolvendo jovens entre os 12 e os 16 anos têm crescido, sendo mais evidentes nas periferias de Lisboa, Porto e Setúbal. Estes grupos juvenis atuam frequentemente em estações de transportes públicos, centros comerciais e proximidades das escolas.
O impacto da série “Adolescência” na perceção dos pais
O tema tem ganhado destaque em grande parte devido à série “Adolescência”, recentemente lançada na Netflix, que aborda o uso de emojis como linguagem codificada entre jovens e o seu impacto na delinquência.
“Nos comentários do TikTok, por vezes as pessoas usam asteriscos ou arrobas em vez de certas letras em palavras de discriminação, para não serem banidas da aplicação”, explica Ana (nome fictício), uma jovem de 15 anos. Sobre o uso de emojis de conotação sexual, afirma que “enviam beringelas, mas isso é mais básico”.
A psicóloga Bárbara Ramos Dias confirma que a série tem gerado um debate aceso entre os pais. “Não tem havido outro tema que não a série. Os pais têm feito muitas perguntas, como: ‘É adequado a minha filha com 13 anos ver?’ ou ‘Devo ver com os filhos ou deixo-os ver sozinhos?’”, partilha a especialista.
Emojis e droga: um fenómeno ainda pouco presente em Portugal
Segundo a PSP, embora não haja uma grande evidência do uso de emojis para comunicação relacionada com drogas entre jovens portugueses, as autoridades estão atentas ao fenómeno. “Os pais devem estar atentos ao duplo significado da utilização de determinados emojis, pois podem estar conotados a conversas relacionadas com o consumo/tráfico de drogas”, alerta a PSP, acrescentando que o trabalho preventivo nas escolas tem sido reforçado.
A nível internacional, a polícia britânica de Surrey divulgou uma lista de emojis frequentemente associados a substâncias ilícitas, incluindo um trevo de quatro folhas para canábis, um cavalo para ketamina, um nariz ou um floco de neve para cocaína e uma caveira ou um extraterrestre para ecstasy.
A PSP reconhece que, por vezes, séries televisivas e conteúdos digitais podem ter um efeito mimético, levando os jovens a adotar comportamentos apresentados na ficção. “Por vezes, as séries têm efeito mimético, e agravando-se a situação pelo facto de ‘Adolescência’ estar agora na moda, a PSP vai estar atenta e aumentar a prevenção”, garante a comissário Patrícia Firmino, da Divisão de Proximidade da PSP.
Uma linguagem juvenil em constante evolução
A utilização de códigos secretos entre jovens não é um fenómeno novo. A linguista Alexandra Guedes Pinto explica ao Observador que a atribuição de novos significados a símbolos já existentes é um processo natural. “Em linguística damos um nome a este fenómeno: neologismo semântico. No fundo, aproveitamos um sinal já existente, como um emoji, e mudamos o seu significado”, esclarece.
A especialista defende que os adolescentes utilizam esta linguagem para criar um grupo de identidade e se diferenciarem dos adultos. “Agora talvez até mais cedo, porque as redes sociais aceleraram este processo de criar uma espécie de gíria”, acrescenta.
Contudo, este fenómeno pode ter implicações preocupantes quando associado a grupos à margem da lei. “Na idade adulta, o uso de códigos pode significar envolvimento em atividades ilícitas, onde é necessária uma comunicação sigilosa”, alerta a linguista.
Para mitigar os riscos associados a esta nova forma de comunicação, especialistas recomendam um maior acompanhamento por parte dos pais. A psicóloga Bárbara Ramos Dias sugere ao mesmo jornal online que os adultos assistam à série “Adolescência” com os filhos para facilitar o diálogo sobre estes temas. “Aconselho os pais a verem a série com os miúdos. É melhor [os jovens] saberem da série através dos pais, connosco a explicar e a partilhar os perigos e a tirar todas as dúvidas”, recomenda.
Por outro lado, Jack Thorne, co-autor da série, propõe uma abordagem mais radical, sugerindo que o governo britânico proíba o uso de smartphones por menores de 16 anos. O dramaturgo argumenta que “os cérebros dos menores de 16 anos são incapazes de lidar” com certos conteúdos na internet e redes sociais.














