Luso-venezuelana libertada quer mais determinação de Portugal na defesa dos presos políticos

Com 42 anos e presa desde os 36, Carla Rosaura da Silva Marrero diz ter agora uma nova missão: o compromisso moral de lutar pela liberdade de companheiros que estão presos e de acompanhar os seus familiares

Executive Digest com Lusa

A luso-venezuelana Carla da Silva, agradeceu hoje o acompanhamento das autoridades portuguesas enquanto esteve presa na Venezuela, mas reclamou mais determinação de Portugal na defesa dos presos políticos de origem portuguesa.

Com 42 anos e presa desde os 36, Carla Rosaura da Silva Marrero diz ter agora uma nova missão: o compromisso moral de lutar pela liberdade de companheiros que estão presos e de acompanhar os seus familiares.

“Portugal deveria ter um pouco mais de presença, como a embaixada de Espanha e França que lutam sempre pelos seus compatriotas. Seria melhor fazer alguma aliança e ser um pouco menos imparcial, para que os portugueses que estão presos possam sair, mesmo que seja para o exílio”, disse à agência Lusa.

Carla da Silva lembra que foram libertados norte-americanos, espanhóis, franceses, um checo e vários os alemães e diz que “graças a Deus, foi a [agora] portuguesa que saiu” em liberdade, sublinhando acreditar que é possível fazer “um pouco mais para que os outros companheiros também possam sair em liberdade”.

“Têm que fazer mais (…). Os portugueses [autoridades] são mais bem-humorados, mais imparciais, tentam evitar inconvenientes ou algo assim, mas outros países lutam mais pelo seu povo. E não se pode distinguir se alguém nasceu lá [Portugal] ou aqui, simplesmente somos portugueses”, disse.

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E insistiu que não se trata apenas que Portugal “preste mais atenção, porque sempre esteve presente” e a “mãe sempre foi recebida, atendida e ouvida pelo consulado”.

“É a forma, é a luta. É lutar e batalhar pelos seus compatriotas, mesmo que seja para um exílio (…), para que eles sejam libertados, assim como fazem outros países”, frisou.

Sublinhando não saber o quanto se arrisca ao falar porque está à espera para se apresentar no tribunal para conhecer a sua atual situação, se ficará em regime de apresentação periódica, explicou ter sido detida apenas por conhecer uma pessoa que envolvida na operação Gedeon.

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“Fui detida pelas Forças de Ações Especiais [FAES], onde fui torturada, e fiquei lá três dias, depois levaram-me para o Serviço Bolivariano de Inteligência [SEBIN, serviços de informações], para o Helicoide, onde fiquei lá cinco anos e quatro meses”.

Foi no SEBIN que recebeu visitas dos familiares, sendo que o Consulado de Portugal esteve presente, explicou, precisando estar convencida de que “há muitos inocentes presos” e que na Venezuela qualquer cidadão “está exposto a isso”.

“Podem prender-te sem qualquer razão, sem qualquer prova, como aconteceu comigo”, disse sublinhando que “não havia provas” que a envolvessem no caso.

Sobre o tempo na prisão, explicou que “foi complicado, porque era inocente” e nunca tinha imaginado estar nessa situação.

“Para a minha família foi muito doloroso, sobretudo nos últimos meses, quando fui transferida para o INOF, onde só recebia a visita da minha mãe e do meu padrasto uma vez por mês. Isso é o mais difícil, despedir-se da família e saber que não pode ir com eles, porque estás privada de liberdade (…), a despedida era muito dolorosa, assim como os aniversários e os natais”, explicou.

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Carla diz ser importante mencionar “que há muitas mulheres presas que não são tidas em consideração” aquando das libertações, apesar de serem pilares do lar, mães, filhas e cônjuges.

“Devem dar mais importância, valorizar o facto de sermos mulheres e de sermos necessárias. E há muitas mulheres que estão presas por terceiros, pelos maridos, pelos filhos, por algum conhecido, que são danos colaterais, mesmo sem estarem envolvidas”, frisou.

No entanto, é da opinião que “as mulheres presas são mais lutadoras, têm muito mais força do que os homens”, que eles “tendem a ficar mais deprimidos”.

A luso-venezuelana Carla da Silva, condenada a mais de 20 anos de prisão na Venezuela, foi libertada domingo, anunciou o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) português.

Em comunicado, o MNE refere que “está a acompanhar o caso e em contacto com a família”.

Fonte do MNE indicou posteriormente à agência Lusa que Carla Rosaura da Silva Marrero estava presa desde 05 de maio de 2020 e que tinha sido condenada a 21 anos de prisão por “conspiração e associação para cometer crimes”.

Carla da Silva tinha sido condenada por um tribunal de Caracas em 23 de maio de 2024, juntamente com outras 28 pessoas, militares e civis, por conspirarem para derrubar o Governo da Venezuela.

A sentença foi conhecida após uma audiência de mais de 15 horas de duração, em que foram acusados de traição, conspiração, rebelião, tráfico de armas de guerra, associação para cometer crimes e financiamento de terrorismo.

Vinte dos acusados foram condenados a 30 anos de prisão e outros nove, entre eles Carla da Silva, a 21 anos na cadeia por terem alegadamente participado, em 03 de maio de 2020, na “Operación Gedeón”, também conhecida como “Macutazo”.

Esta falhada incursão marítima de ex-militares no exílio tentou, com o apoio de um antigo membro das forças especiais dos EUA, infiltrar-se no país e treinar venezuelanos para derrubar o Governo do Presidente, Nicolás Maduro, numa operação em que morreram seis dissidentes.

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