A França poderá deslocar caças com armamento nuclear para a Alemanha como parte da sua estratégia de dissuasão para proteger a Europa, numa altura em que os Estados Unidos ameaçam retirar as suas tropas do continente e defendem um possível acordo de paz na Ucrânia. A informação foi avançada pelo The Telegraph, que cita fontes diplomáticas e políticas envolvidas nas negociações.
A possibilidade de um reforço do escudo nuclear europeu surge num momento de transição política na Alemanha, com Friedrich Merz prestes a assumir o cargo de chanceler após a sua vitória eleitoral no domingo. Merz já apelou ao Reino Unido e à França para expandirem a sua proteção nuclear, como parte de uma estratégia que visa reduzir a dependência da Europa em relação aos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump. “O envio de caças será uma mensagem para Vladimir Putin”, afirmou um responsável francês ao jornal britânico. A medida poderá também pressionar o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, a seguir o mesmo caminho.
No domingo, Macron conversou com Merz antes de partir para Washington, onde se reuniu com Trump para apresentar um plano de segurança para a Europa e defesa da Ucrânia. No encontro, que coincidiu com o terceiro aniversário da invasão russa, Trump terá indicado que os EUA não pretendem garantir a segurança da Ucrânia após um eventual acordo de paz. Macron, por seu lado, alertou que a paz “não pode ser uma capitulação da Ucrânia” e apelou a um maior envolvimento dos europeus na defesa do continente.
Historicamente, a segurança europeia tem sido garantida pelo arsenal nuclear norte-americano, que conta com cerca de 100 ogivas estacionadas, incluindo na Alemanha. No entanto, o cenário atual está a colocar novas questões sobre o papel da dissuasão nuclear francesa, que, ao contrário do Reino Unido, não está integrada na estratégia da NATO. Na sexta-feira, Merz defendeu que Paris e Londres deveriam debater a possibilidade de estender a sua proteção nuclear à Alemanha e, no domingo, alertou que a Europa não pode continuar dependente de uma América “indiferente ao destino europeu” sob a administração Trump.
Entretanto, a questão da dissuasão nuclear europeia também tem sido discutida noutras frentes. Durante uma visita a Kyiv, Boris Johnson afirmou ao The Telegraph que a Ucrânia tem “justificação moral” para desenvolver o seu próprio arsenal nuclear, face à ameaça crescente da Rússia. Em Berlim, fontes diplomáticas afirmam que as negociações sobre uma potencial proteção nuclear europeia para a Alemanha ainda não começaram, uma vez que Merz se encontra focado na formação do novo governo de coligação.
O debate em torno da dissuasão nuclear poderá intensificar-se no Reino Unido, onde diplomatas alemães acreditam que a proposta francesa aumentará a pressão sobre Starmer para demonstrar um compromisso sério com a segurança europeia. Um diplomata alemão citado pelo The Telegraph afirmou que “se os franceses decidirem deslocar armas nucleares para a Alemanha, isso colocará uma pressão real sobre os britânicos para seguirem o exemplo”. No entanto, fontes próximas do processo alertam que o pedido alemão dificilmente será formalizado enquanto os EUA mantiverem a sua presença nuclear em território alemão.
Atualmente, a força de dissuasão nuclear francesa conta com cerca de 300 ogivas, distribuídas entre meios aéreos e submarinos, enquanto o Reino Unido mantém a sua defesa nuclear através do sistema Trident, composto por quatro submarinos da classe Vanguard, cada um capaz de transportar até 16 ogivas.
Keir Starmer, que participou num encontro virtual com líderes mundiais durante a cimeira de Kyiv, assinalou que Moscovo “não detém todas as cartas nesta guerra” e garantiu que o Reino Unido está “pronto e disposto” a apoiar um futuro acordo de paz, incluindo com o envio de forças para o terreno. David Lammy, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, reforçou essa posição no Parlamento, classificando Vladimir Putin como “um agente da KGB que atua através da mentira e da manipulação”.
Ao mesmo tempo, Trump sugeriu que tropas europeias poderiam entrar na Ucrânia como forças de manutenção da paz e afirmou que Putin estaria disposto a aceitar essa solução. “Perguntei-lhe diretamente”, disse Trump após o encontro com Macron. “Ele não tem problema com isso”. O presidente norte-americano indicou ainda que a guerra poderá terminar dentro de algumas semanas e revelou que Volodymyr Zelensky poderá deslocar-se a Washington nos próximos dias para assinar um acordo sobre minérios, cujos detalhes finais estão ainda a ser negociados.
Em Moscovo, Putin manifestou a disponibilidade da Rússia para cooperar com os EUA na produção de metais raros e admitiu a possibilidade de envolver países europeus num eventual processo de paz. As declarações foram transmitidas pela televisão estatal russa, num momento em que o Kremlin procura consolidar o seu papel nas negociações.













