Na sua carreira o risco tem sido uma componente essencial para o sucesso?
Sem sombra de dúvida. Eu tenho formação de gestão, e nesta área temos a noção de que a rentabilidade e o risco são duas coisas que andam a par e passo. Um menor risco resulta numa menor remuneração, ao mesmo tempo que o risco tende a aumentar quando existe uma maior perspectiva de ganhos.
Ao longo da minha carreira, tive dois caminhos completamente distintos. Um, enquanto director e gestor de grandes empresas, onde trabalhava como executivo. Quando se trabalha nestas condições, a noção de risco existe, sem dúvida, mas é de alguma forma mitigada com o facto de se tratarem de grandes empresas. Para um executivo, os maiores riscos são de reputação, de emprego e de bónus. Tipicamente, nestas empresas existe uma componente de remuneração associada aos resultados e, assim, as pessoas correm também o risco de ver parte da sua remuneração reduzida. Isto quer dizer que, neste primeiro cenário, não é o nosso dinheiro que está em jogo, mas sim a responsabilidade sobre o capital de terceiros.
A verdade é que eu sempre cuidei do dinheiro dos outros com a mesma responsabilidade com que cuido do meu, e isto traduz-se em mitigar riscos. A velha máxima de diversificar os investimentos é essencial e, por outro lado, encontrar áreas de negócio ou oportunidades com maior e menor risco, estudar as probabilidades e ter uma componente geral de produtos, serviços ou empresas em que o capital esteja distribuído.
Num segundo momento da minha vida, a partir dos 50 anos, passei a estar envolvido com empresas que ou são minhas, ou onde tenho uma posição accionista importante ou maioritária. E aí, a noção de risco muda um pouco, porque qualquer euro é um euro a mais ou a menos nos nossos bolsos.
É curioso ver como quando se passa para este lado, diferente de trabalhar por conta de outrem, o pensamento muda. Quando se está numa empresa de grandes dimensões, por vezes multinacionais, é típico as pessoas valorizarem mais o carro que lhes é atribuído, o regime em que se viaja e outras coisas deste género. Esta é muitas vezes a lógica de quem trabalha para grandes empresas. Quanto isto vira e nós temos os nossos negócios, pensamos numa lógica diferente. Provavelmente iremos viajar em business, não por uma questão de status, mas por uma questão de conveniência, porque há uma reunião importante na manhã do dia seguinte e podemos viajar durante a noite para ganhar tempo. Por outro lado, nas férias, já não há nenhum retorno de viajar em business e viaja-se em económica sem nenhum problema. Este é um exemplo.
Em suma, não é que se descure o risco quando se trabalha para os outros, mas quando se tem um negócio próprio existe uma lógica mais racional ao olhar para os custos.
E acrescento que, no que diz respeito a isto, temos uma aprendizagem a fazer com os mais novos. Esta nova geração valoriza muito menos os símbolos de status. O gabinete dos novos executivos é telemóvel e o PC. Hoje estão numa sala e amanhã noutra, e muitas vezes nem sequer trabalham fisicamente na empresa. Tudo está a mudar.
A empresa que preside enquadra-se no ramo imobiliário. Como tem vindo a evoluir a vossa análise de risco/oportunidade?
O que fazemos, quando analisamos as nossas empresas, é partir sempre da lógica que um investimento tem sempre de servir o objectivo de ganhar dinheiro. E, para isso, procuramos sectores rentáveis. Foi o que fiz. Há oito anos, quando criei a Quantico, procurei saber quais seriam as áreas, com base em factos e em números, que teriam possibilidade de crescimento nos próximos anos. Claramente saltaram à vista três áreas: a biotecnologia, as soluções tecnológicas baseadas na Web (IoT, Inteligência Artificial) e a imobiliária.
Nas duas primeiras áreas tenho posições accionistas, dedicando a maior parte do tempo à terceira, que corresponde à Quantico. Quando começámos, uma área que se demonstrou muito interessante dentro do sector imobiliário foi a reabilitação urbana. Isto porque existiam muitos activos, a preços interessantes, além de fortes incentivos fiscais para que se fizesse a reabilitação. Os governos dos últimos anos consideraram a reabilitação uma prioridade, e daí alguns incentivos a nível fiscal. Apostámos, por isso, em canalizar os nossos investimentos para a reabilitação urbana de Lisboa e Porto, e foi uma boa aposta.
Neste momento, e mais uma vez numa lógica de gestão de risco/oportunidade, consideramos que o risco actual de fazer investimentos em reabilitação é muito mais elevado. Porquê? Por três razões: há muito menos stock disponível; os preços para adquirir os activos subiram muito; e os preços da construção também. Com este aumento do risco da reabilitação urbana, estamos a virar- -nos para a nova construção. Notamos que existe uma grande necessidade de produtos para a classe média a preços mais atractivos. Os preços dos produtos reabilitados, que se encontram no centro da cidade, são muitas vezes impeditivos para as famílias portuguesas. Assim, com base em tudo isto, refizemos os nossos investimentos para entrar nesta área. Criámos recentemente uma plataforma dedicada a investimentos em terrenos para construir habitação de raiz, não no centro das cidades, mas em zonas onde existe potencial. Em Lisboa, falamos de zonas muito interessantes como Benfica, Laranjeiras e Braço de Prata, entre outras. São zonas que estão a atrair atenção, porque tiveram projectos parados durante muito tempo e são bem servidas de transportes, comércio e condições para a habitação.
Já fizemos um primeiro investimento no Porto para construir habitação para a classe média. Para estes projectos, o apoio às famílias por via do crédito é fundamental, e neste momento os bancos estão disponíveis para financiar. Além disso, os imóveis são sempre bens muito interessantes como garantias bancárias ,por representarem menos risco do que outro tipo de investimentos, como sejam as acções, por exemplo.
Fala-se muito sobre a proximidade de uma nova recessão, possivelmente numa janela temporal de dois anos. Qual é a melhor estratégia hoje para fazer face a uma eventual crise económica?
Quando se começa a falar de crise é sempre mau sinal. A economia é feita de expectativas e, como tal, quando se torna comum falar da proximidade de uma crise, esse é o primeiro passo para que ela, de facto, chegue. Os fundamentos para uma eventual crise económica não são absolutamente claros. O que temos neste momento é um conjunto de questões macroeconómicas que se tornaram preocupantes. Existem pelo menos três temas em cima da mesa que terão influência no futuro da economia.
Em primeiro lugar, os custos que vai ser necessário alocar para fazer face aos desafios das mudanças climáticas. Este é um tema com que cada vez mais as economias vão ter de contar, porque chegará o dia em que deixaremos de limitar-nos a constatar o problema para passarmos a ter de definir quanto custa resolvê-lo. A limpeza do planeta não pode ser feita a custo zero. Uma segunda componente, muito perigosa, é a guerra comercial entre a China e os EUA, que causa grande instabilidade nos mercados. Por fim, existe um terceiro tema que para os leigos pode parecer uma oportunidade, mas é também um risco: as taxas de juro negativas e a deflação. Por definição, as deflações adiam as decisões de investimento. Ora o investimento é o motor da economia, e sem ele não há empresas, crescimento, produção, distribuição de riqueza… Estes são os grandes parâmetros que nos deixam apreensivos em termos macroeconómicos.
Quando analisamos isto em termos de risco, as principais formas de nos protegermos face a possíveis cenários de desaceleração ou crescimento mais lento são, por um lado, diversificar os investimentos para os sectores que teoricamente têm potencial – ciências biomédicas, educação, energias limpas, automóveis autónomos, novas gerações de pilhas, etc. – e, por outro, ter um cuidado muito grande para não entrarmos num excessivo endividamento. Um dos problemas que surgem sempre que há mudanças de ciclo é quando as empresas estão muitíssimo alavancadas por capital alheio. Os fundamentos do negócio podem não resistir ao desequilíbrio financeiro, daí ser tão importante esta segunda regra de controlar o endividamento para ter uma estrutura de capital adequada para fazer face a uma eventual desaceleração.
Outra regra a ter em conta nos dias de hoje é “navegar à vista”. Já lá vai o tempo em que fazíamos planos a cinco e a dez anos. Seria impossível, hoje, fazer planos a tão longo prazo com a velocidade a que as coisas mudam. Importante também é ter flexibilidade nos negócios. Não ter demasiados custos fixos e sempre que possível transformar esses custos fixos em variáveis. Aliás, a nova economia está muito ligada a isso, até porque já existe a noção de que é impossível uma empresa fazer tudo bem. O que é preciso é que cada empresa saiba fazer muito bem uma coisa, na qual se deve concentrar. Tudo o resto pode ser contratado a quem sabe melhor do que nós.
O boom imobiliário que vivemos nos últimos anos, com um grande aumento da oferta e uma grande valorização dos activos, tem alicerces para sobreviver a uma subida das taxas de juro quando ela acontecer?
Há duas vertentes a observar nessa questão. Em primeiro lugar, o endividamento dos investidores e dos promotores. Neste momento, o maior perigo é pensar que as taxas de juro irão continuar eternamente baixas ou negativas. É certo que não existe nada que nos indique que, a curto prazo, essa situação vá mudar. Pelo contrário, o Banco Central do Brasil está a baixar as taxas de juro, os EUA também, todos os sinais que temos indicam que para já as taxas manter-se-ão baixas. Mas esta situação não será eterna e, por isso, existe aqui um risco.
As empresas devem manter um bom equilíbrio entre capitais próprios e alheios. A grande crise nos anos de 2006 e 2007 ficou a dever-se ao facto de haver muitas empresas sem capital próprio, em que todo o negócio estava alicerçado naquilo a que se chama “other people’s money”. Não é possível manter este tipo de negócio porque quando alguma coisa corre mal, por pequena que seja, a falta de sustentação faz com que caia tudo por terra.
Em segundo lugar, na perspectiva das famílias, temos a mesma lógica, mas com uma diferença: é que as famílias endividam-se a longo prazo. Um crédito à habitação, tipicamente, pode ir até trinta anos. A probabilidade das taxas de juro se manterem ao mesmo nível durante tanto tempo não é plausível. Assim, quando contraem um empréstimo, as pessoas devem analisar o seu risco pensando naquilo que podem suportar, não com as taxas de juro hoje, mas com uma subida que poderá superar o aumento expectável dos seus rendimentos.
Os empresários portugueses arriscam de mais ou menos do que deveriam?
A minha leitura é que as empresas que conhecemos no mercado, com sucesso e com história, têm os níveis de risco acertados. Tem vindo a ficar demonstrado que têm uma boa gestão de risco.
O que me parece que tem vindo a melhorar em Portugal é o empreendedorismo. O risco no sentido de desenvolver negócios próprios e a lógica de haver uma maior tolerância ao erro. Por vezes é preciso falhar duas vezes, de uma forma controlada, para acertar numa terceira tentativa e criar uma empresa de grande sucesso. Isto é algo que em países como os EUA e em algumas economias da Europa é muito frequente. Pelo contrário, em Portugal, durante anos, houve apenas uma minoria de investidores em projectos novos, muitos de base tecnológica.
Um exemplo muito interessante tem a ver com os melhores alunos dos MBA internacionais, que até há poucos anos tinham a oportunidade de escolher e iam invariavelmente para a banca de investimentos e para as grandes consultoras ou empresas. Hoje em dia, segundo demonstram os dados disponíveis, mais de 50% destes alunos vão para startups ou para empresas muito recentes, criadas em network com outros colegas. Isto é uma alteração profundíssima porque dá origem a uma economia completamente diferente, em que as pessoas querem menos depender das grandes empresas e têm como objectivo de carreiras criar, desenvolver, investigar. Hoje vê-se jovens executivos, com cerca de 30 anos, que são um pouco nómadas. Os profissionais especializados em Inteligência Artificial, por exemplo, têm os empregos que querem, quando querem, a ganhar o que querem, e muitas deles ainda tiram longos períodos de férias. Fazem uma gestão por projecto, com uma dada duração, ganham bem e têm vidas muito dinâmicas, em que são donos do seu tempo. Este é um fenómeno novo que contagia, cada vez mais, os novos talentos, e ocorre, cada vez mais, em Portugal. Não é uma coisa vista única e exclusivamente em locais como Silicon Valley. Neste momento, Portugal, nomeadamente Lisboa, é um hub tecnológico de grande apetência. Muitos estrangeiros querem trabalhar no nosso País porque estão a descobrir uma atmosfera de empreendedorismo com muito impacto. É um Web Summit da vida, mas generalizado.
Sabendo o que sabe hoje, já se arrependeu alguma vez de não ter arriscado em determinado negócio?
Seguramente que sim, mas não costumo pensar nessa perspectiva. Preocupa-me sempre mais o que fiz, o que estou a fazer e o que ainda quero fazer do que aquilo que poderia ter feito e não fiz. É claro que é fácil identificar oportunidades de negócio onde poderia ter tido rentabilidade se tivesse investido no momento certo. Teria sido muito interessante ter investido na Amazon há dez anos. Mas não penso muito nisso. Preocupo-me mais em descobrir onde está a próxima Amazon.














