Ameaças de tarifas de Trump empurra mais americanos a viajar para a Europa (incluindo Portugal) em 2025

Com a incerteza económica e as novas políticas comerciais da administração Trump, a tendência de viajar para a Europa está a ganhar força tanto entre americanos como entre canadianos, enquanto expatriados dos EUA dizem não ter intenções de regressar ao país que consideram “tóxico e caro”.

Pedro Zagacho Gonçalves

A força do dólar e o boicote de canadianos aos Estados Unidos estão a levar muitos viajantes a mudar os seus planos, optando por destinos europeus. Com a incerteza económica e as novas políticas comerciais da administração Trump, a tendência de viajar para a Europa está a ganhar força tanto entre americanos como entre canadianos, enquanto expatriados dos EUA dizem não ter intenções de regressar ao país que consideram “tóxico e caro”.

À medida que as mudanças políticas e económicas nos EUA começam a fazer sentir os seus efeitos, especialistas analisam o impacto das novas políticas na indústria do turismo.

A valorização do dólar norte-americano face a outras moedas poderá tornar as viagens internacionais mais acessíveis para os americanos em 2025. Economistas preveem que as tarifas sobre importações anunciadas pela administração Trump enfraqueçam moedas concorrentes, como o euro, devido ao impacto nas taxas de juro.

Esta conjuntura permite que turistas americanos tenham maior poder de compra no estrangeiro, tornando as suas viagens potencialmente mais longas ou luxuosas. Quem reserva alojamento, restaurantes e excursões em moeda local poderá beneficiar de preços mais atrativos.

Muitos cidadãos norte-americanos que vivem fora do país não planeiam regressar, citando razões económicas e sociais. Craig Sauers, americano residente em Tbilisi, na Geórgia, afirma à Euronews que a eleição de Trump em 2016 foi um “choque” e que as eleições de 2024 o deixaram “envergonhado, irritado e indignado”.

Continue a ler após a publicidade

“Não planeio voltar para os EUA tão cedo. A mudança de regime do MAGA [Make America Great Again] é uma coisa, mas a pressão inflacionária também não diminuiu. Os EUA são um lugar tóxico e caro neste momento, e essa é uma combinação perigosa”, diz Sauers.

Apesar da sua recusa em regressar, ele admite que pretende visitar o país para manter contacto com familiares. “Não estou a ficar mais novo, e não posso deixar que o meu orgulho interfira nas relações com os meus pais, irmãos e sobrinhos”, acrescenta.

Jared Batzel, que vive em Madrid e está a estudar para um MBA, tem uma visão semelhante. Com experiência no exército dos EUA e em agências governamentais como a USAID, que praticamente encerrou sob a administração Trump, Batzel sente-se cada vez mais distante do seu país de origem.

Continue a ler após a publicidade

“Tenho regressado periodicamente aos EUA por vários motivos, mas essas visitas têm sido cada vez mais chocantes”, afirma. Mantém planos para visitar o país em maio por razões pessoais e profissionais, mas não sente saudades da sua terra natal, apesar de ter crescido numa região pró-Trump.

“Entendo algumas das queixas dos eleitores de Trump, mas já não reconheço muito do que é a América hoje”, explica. “E não se trata apenas da política do momento. Inclui coisas como a inflação, o custo de vida, o crime e os tiroteios em massa. Tudo isso tornou a marca americana tóxica a nível global.”

Batzel também observa que muitos dos seus colegas de trabalho internacionais em Espanha, que anteriormente consideravam trabalhar nos EUA, agora estão a repensar essa possibilidade e procuram oportunidades na Europa ou nos seus países de origem.

As ameaças de tarifas da nova administração Trump também estão a afetar os planos de viagem dos canadianos. Nos primeiros dias do seu mandato, Trump anunciou uma taxa de 10% sobre todas as importações chinesas e sugeriu medidas semelhantes para produtos vindos do Canadá e do México.

Em resposta, o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, incentivou os cidadãos a viajarem dentro do próprio país, promovendo as atrações naturais e culturais do Canadá. “Isso pode significar mudar os planos de férias de verão para ficar aqui e explorar os muitos parques nacionais e provinciais, sítios históricos e destinos turísticos que o nosso grande país tem para oferecer”, declarou Trudeau.

Continue a ler após a publicidade

Os canadianos parecem ter seguido o conselho do primeiro-ministro. De acordo com a Flight Centre Travel Group, uma empresa de reservas de viagens, vários clientes mudaram os seus planos para evitar os EUA. “Um dos nossos clientes de longa data cancelou uma viagem ao Arizona e agora pretende levar a família para Portugal”, afirmou a empresa ao site Open Jaw, especializado no setor do turismo no Canadá.

Os cancelamentos incluem não só viagens de lazer, mas também viagens de negócios. Um estudo recente da Corporate Traveller e da YouGov revelou que 40% das pequenas e médias empresas canadianas já reduziram as deslocações previstas para os EUA.

A diminuição do turismo canadiano pode ter um impacto significativo na economia norte-americana. Em 2024, 20,4 milhões de canadianos visitaram os EUA, gastando 20,5 mil milhões de dólares (cerca de 19,6 mil milhões de euros), segundo a Associação de Turismo dos EUA (USTA). Os destinos mais populares entre os turistas canadianos incluem a Florida, a Califórnia, o Nevada, Nova Iorque e o Texas.

A Air Canada já anunciou cortes em várias rotas para os EUA, incluindo ligações para a Florida, Las Vegas e Arizona, a partir de março. Segundo a Travel and Tour World, a companhia aérea justifica esta decisão com a disputa comercial entre os dois países e a desvalorização do dólar canadiano.

Havai teme queda no número de turistas em 2025
O arquipélago do Havai, um dos destinos de férias mais procurados nos EUA, também está a sentir os efeitos da incerteza económica. Apesar da sua identidade cultural distinta do continente norte-americano, o Havai depende da economia dos EUA e está a registar uma diminuição na procura por viagens.

Segundo o canal de notícias local Khon2, a companhia aérea WestJet, que opera voos entre os EUA e todas as principais ilhas havaianas, registou uma queda de 25% na procura nas últimas semanas.

A redução do turismo preocupa os residentes locais, que dependem fortemente desta indústria para a sua subsistência. Muitos apelam aos visitantes internacionais para que não cancelem as suas viagens.

O impacto destas mudanças nas viagens para os EUA ao longo de 2025 ainda está por ver, mas a combinação de tarifas comerciais, inflação e desvalorização das moedas estrangeiras poderá afastar ainda mais turistas e expatriados do país.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.