Trump pressiona Ucrânia a ‘vender’ lítio e outros recursos em troca de armas e dinheiro para a guerra

A administração de Donald Trump está a pressionar a Ucrânia para ceder recursos naturais estratégicos, incluindo terras-raras, lítio, cobalto e níquel, como contrapartida pelos 75 mil milhões de dólares que os Estados Unidos já forneceram a Kiev desde o início da guerra.

Pedro Zagacho Gonçalves

A administração de Donald Trump está a pressionar a Ucrânia para ceder recursos naturais estratégicos, incluindo terras-raras, lítio, cobalto e níquel, como contrapartida pelos 75 mil milhões de dólares que os Estados Unidos já forneceram a Kiev desde o início da guerra. O presidente norte-americano deixou claro que espera um retorno financeiro pelo apoio concedido, admitindo mesmo a possibilidade de abandonar a Ucrânia ao seu destino caso não chegue a um acordo favorável.

“Pode ser que voltem a ser russos, pode ser que não”, declarou Trump numa entrevista à Fox News, referindo-se ao futuro de Ucrânia. O presidente acrescentou que quer recuperar o dinheiro investido, exigindo o equivalente a 500 mil milhões de dólares em terras raras como parte do acordo. “Eles estão dispostos a aceitar, então pelo menos não nos sentiremos estúpidos”, afirmou.

As declarações de Trump caíram como uma bomba na Europa e reforçaram a crescente incerteza sobre o futuro da guerra e da reconstrução da Ucrânia.

Ucrânia dependente da ajuda ocidental
A economia ucraniana está altamente dependente dos financiamentos internacionais, com os empréstimos dos aliados a cobrir cerca de 80% do défice do país em 2024, segundo a Kyiv School of Economics. Para uma reconstrução completa, o Banco Mundial estima que serão necessários 486 mil milhões de dólares, um montante que Kiev dificilmente conseguirá reunir sem apoio externo.

“Não acho que seja impossível sobreviver sem ajuda internacional”, afirma Dmytro Krukovets, analista de macroeconomia da Kyiv School of Economics, “mas seria muito, muito mais difícil do que agora”.

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Entre os sectores estratégicos que exigirão mais investimentos estão a energia, os transportes, a agricultura, o aço verde e os materiais críticos – recursos fundamentais para a indústria tecnológica e militar. É precisamente sobre esta última categoria que Trump quer concentrar o acordo.

Negociações em curso para exploração de minerais críticos
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, viajará a Kiev ainda esta semana para negociar um acordo sobre minerais críticos, de acordo com informações divulgadas pela agência Bloomberg.

A ideia de trocar recursos naturais por apoio militar parece agradar ao presidente ucraniano, Volodímir Zelenski, que incluiu no seu plano para a vitória a “proteção dos minerais estratégicos”. O líder ucraniano reconheceu a prioridade dos EUA neste processo:

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“Os americanos ajudaram-nos mais do que qualquer outro país, por isso devemos dar-lhes prioridade nestas oportunidades”, declarou Zelenski numa entrevista à Reuters. O presidente garantiu ainda que transmitirá essa prioridade pessoalmente a Trump, numa reunião prevista para antes de março.

Oportunidade ou risco?
A exploração dos recursos naturais da Ucrânia é vista como um investimento altamente lucrativo para os EUA, mas enfrenta desafios significativos. De acordo com estimativas de especialistas ucranianos, cerca de metade dos minerais críticos do país estão atualmente em territórios ocupados pela Rússia, o que limita o potencial de qualquer acordo imediato.

Olga Slyvynska, diretora de Relações Internacionais da Kyiv School of Economics, considera a exigência de Trump irrealista e exagerada. “Nem sequer temos uma análise rigorosa dos recursos disponíveis. Não há uma definição clara dos minerais críticos, não é assim tão simples fazer esses cálculos. A cifra de 500 mil milhões de dólares não é fiável”, alertou, em declarações ao jornal El Español.

Além disso, a Ucrânia possui as maiores reservas de titânio da Europa, essencial para a indústria aeronáutica e aeroespacial, bem como vastos depósitos de urânio, altamente valorizados por países com programas nucleares. Estes recursos tornam o país num alvo de interesse não só para os EUA, mas também para outras potências globais.

A grande questão agora é se a Ucrânia aceitará as condições impostas por Trump ou se conseguirá negociar um acordo mais equilibrado sem comprometer a sua soberania sobre os seus recursos estratégicos. Entretanto, o tempo escasseia e a pressão norte-americana aumenta, deixando a Europa e a própria Ucrânia numa posição cada vez mais delicada.

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