“O setor vinícola tem desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento económico da região do Dão”, admite Arlindo Cunha

Em entrevista à Executive Digest, Arlindo Cunha, Presidente Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVR Dão), explicou o que caracteriza esta região, qual o seu impacto económico para o país e como está a ser feita a internacionalização da marca.

André Manuel Mendes
Dezembro 20, 2024
14:39

Nos últimos anos, os Vinhos do Dão têm experimentado uma transformação notável, tanto na sua qualidade como na sua notoriedade, consolidando-se como uma referência no panorama vitivinícola nacional e internacional. Esse progresso tem sido reconhecido em concursos internacionais e pela crítica especializada, elevando os vinhos do Dão ao estatuto de produtos premium, com crescente procura em mercados externos.

A Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVR Dão) tem sido uma peça chave nesse desenvolvimento, promovendo a região através de iniciativas como o enoturismo e ações de marketing direcionadas, que têm contribuído para o reforço da imagem da região como um destino de excelência para os apreciadores de vinho.



Em entrevista à Executive Digest, Arlindo Cunha, Presidente Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVR Dão), explicou o que caracteriza esta região, qual o seu impacto económico para o país e como está a ser feita a internacionalização da marca.

 

Como caracteriza a evolução do Vinho do Dão nos últimos anos, tanto em termos de qualidade como de notoriedade?

Nos últimos anos, os Vinhos do Dão têm demonstrado uma evolução significativa, refletida tanto na sua qualidade, como na crescente notoriedade a nível nacional e internacional. Este progresso deve-se a uma combinação de fatores: modernização das técnicas de produção, investimento em tecnologia nas adegas e a aposta em práticas sustentáveis. Paralelamente, a valorização das castas autóctones (como é o caso da Touriga Nacional e Encruzado) e o regresso às raízes têm sido fundamentais para preservar a identidade do Dão. Esta melhoria contínua tem sido reconhecida em concursos internacionais e revistas especializadas – pelo seu carácter, complexidade, elegância, equilíbrio, maturidade, potencial de envelhecimento e combinação perfeita com a gastronomia – o que tem reforçado a reputação dos Vinhos do Dão como produtos premium, aumentando a procura e o prestígio da região nos mercados externos.

De recordar que já em 1900, ainda antes da demarcação da região (o Dão foi a primeira região a ser demarcada para vinhos não licorosos em Portugal, em 1908), levou o grande cientista Professor Cincinato da Costa a afirmar no monumental trabalho de levantamento da viticultura nacional (Portugal Vitícola) que “A região Vinhateira do Dão é uma das regiões privilegiadas em todo o reino, pelas condições especiais do seu clima e dos seus terrenos para a produção de magníficos vinhos de pasto, em tudo semelhantes aos bons vinhos da Borgonha; vinhos capitosos e aromáticos, de longa vida e segura conservação, quando bem fabricados e oriundos das melhores castas”.

 

Quais têm sido as principais iniciativas da CVR Dão para modernizar a produção e atrair novos consumidores?

A CVR Dão tem implementado uma série de iniciativas estratégicas para ajudar a modernizar a produção vitivinícola e atrair novos consumidores. Entre as principais ações estão as formações técnicas contínuas para viticultores e enólogos, focadas na inovação e na sustentabilidade. Temos também promovido a certificação das vinhas e incentivado a utilização de práticas ecológicas. Para atrair novos públicos, a CVR tem apostado fortemente no enoturismo, criando experiências imersivas na região, bem como campanhas de promoção em mercados internacionais e em consumidores mais jovens. Eventos de degustação e presença em feiras internacionais e nacionais têm sido cruciais para reforçar a imagem dos vinhos do Dão como produtos de excelência e contemporâneos.

De forma mais detalhada, posso referir que no caso da CVR Dão, temos previsto um investimento em promoção superior a meio milhão de euros, centrado em dois eixos:

No plano interno organizamos eventos como o Dão Primores e a Gala “Os Melhores do Dão”, além de dois concursos que anualmente organizamos, bem como eventos localizados em Lisboa e Porto. Além disso, mantemos  de forma consistente a participação, apoiando os nossos produtores, nos eventos Essência do Vinho, no Porto e em Lisboa e na Grandes Escolhas | Vinhos & Sabores, em Lisboa. Importa ainda referir as parcerias da CVR Dão com alguns Municípios em eventos de sua iniciativa para promoção dos respetivos territórios através do vinho. Também organizamos pontualmente algumas campanhas publicitárias em diferentes tipos de media e plataformas.

No plano dos mercados externos, vamos continuar a trabalhar com a VINIPORTUGAL, no quadro do Protocolo de colaboração que celebrámos em 2014 e no quadro do qual a CVR cofinancia a participação produtores do Dão em eventos promocionais nos mercados que mais nos interessam. Assim, para além das frequentes visitas à nossa região de comitivas de compradores e jornalistas de vários países, temos participado em provas e outras ações promocionais realizados em Países Terceiros e da União Europeia, como sejam a Prowein-Alemanha, a Prowein-Brasil ou o evento Vinhos de Portugal em São Paulo e no Rio de Janeiro, sem esquecer a nossa participação com um stand coletivo na Vinexpo Paris 2025. Temos também apoiado os produtores interessados em feiras de Enoturismo, como a de Valladolid, em Espanha e a de Gramado, no Brasil.

 

O que distingue o vinho do Dão no contexto das outras regiões demarcadas em Portugal?

Os Vinhos do Dão destacam-se das outras regiões demarcadas de Portugal pelo seu terroir único, moldado por fatores naturais e culturais. A região, protegida por cadeias montanhosas, beneficia de um clima continental, com invernos rigorosos e verões quentes, o que contribui para a maturação equilibrada das uvas. Os solos predominantemente graníticos conferem aos vinhos uma mineralidade distinta. Além disso, o Dão é conhecido pelas suas castas autóctones, como a Touriga Nacional, Encruzado, entre outras, que dão origem a vinhos elegantes, estruturados e com grande capacidade de envelhecimento.

Apesar disto, não nos podemos esquecer que para além vos vinhos monovarietais destas castas, que aqui assumem perfis únicos, importa lembrar que o Dão, devido a essa grande variedade de castas, é essencialmente uma região de vinhos blend, de lote, incluindo castas como o Alfrocheiro, o Jaen, a Tinta Roriz, nos tintos, ou castas atualmente fora da moda mas com excelentes características como o Alvarelhão, o Bastardo ou o Rufete. No caso dos brancos, para além da Encruzado, as castas Malvasia Fina, Cerceal-Branco, Gouveio, Bical (Borrado das Moscas), ou, menos utilizadas atualmente, a Uva, Cão, Rabo de Ovelha, Branda, Luzidio, Terrantez, ou Barcelo. Segundo os trabalhos desenvolvidos pelo Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, temos registadas 70 castas daqui originárias ou sedeadas há muitas gerações.

Esta combinação de tradição, inovação e qualidade confere ao Dão uma identidade inconfundível no panorama vitivinícola português, tornando-o uma referência.

 

Que impacto tem tido o setor vinícola no desenvolvimento económico da região do Dão e no país?

O setor vinícola tem desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento económico da região do Dão, atuando como motor de crescimento e coesão social. A viticultura tem permitido fixar a população em áreas rurais, combatendo a desertificação e criando oportunidades de emprego, direta e indiretamente, desde a produção até ao enoturismo. A nível nacional, o Dão contribui para a promoção de Portugal como uma região de vinhos de excelência, impulsionando as exportações e atraindo investimento estrangeiro. A dinamização da região através do vinho tem também um impacto positivo no turismo, com cada vez mais visitantes a procurarem conhecer as quintas, os vinhos e a cultura local, o que fortalece a economia regional.

 

Quais os maiores desafios económicos que os produtores do Dão enfrentam atualmente?

Os produtores do Dão enfrentam diversos desafios económicos que exigem resiliência e adaptação contínua. Um dos principais desafios é a necessidade de modernizar infraestruturas e técnicas de produção, mantendo a sustentabilidade financeira. A volatilidade dos custos de produção, agravada pela inflação e pelos preços das matérias-primas, representa outra preocupação significativa. Além disso, a adaptação às mudanças climáticas, com fenómenos extremos cada vez mais frequentes, exige investimentos em práticas agrícolas sustentáveis e inovadoras. Outro desafio crucial é a valorização dos vinhos no mercado, assegurando margens de lucro justas em face da concorrência global. A internacionalização e a presença cada vez mais sólida em mercados estrangeiros, onde a competição é feroz, exigem estratégias de promoção bem definidas e contínuas.

 

Que mercados internacionais têm sido mais recetivos aos vinhos do Dão?

O Dão exporta cerca de 40% dos vinhos que certifica. Lá fora, os vinhos do Dão têm conquistado o seu devido reconhecimento, com destaque para a Europa Central, especialmente na Suíça, Alemanha e Reino Unido. Estes mercados apreciam a autenticidade e a qualidade dos vinhos do Dão, valorizando a elegância e o potencial de envelhecimento. Fora da Europa, os Estados Unidos e o Canadá têm demonstrado interesse crescente, reconhecendo o Dão como uma região vinícola de referência. No Brasil, a reputação dos vinhos portugueses é sólida, e o Dão tem vindo a ganhar espaço junto dos consumidores que procuram vinhos premium com história e identidade. Estes mercados representam oportunidades estratégicas para o crescimento das exportações da região.

Naturalmente, estamos também atentos a novos mercados que possamos explorar, sabendo que pela frente temos desafios exigentes fruto da conjuntura mundial, mas mantemos um sentimento de missão e confiança nos nossos produtores e nos nossos vinhos.

 

Que planos existem para consolidar o vinho do Dão como uma referência tanto a nível nacional como internacional?

Os planos da CVR Dão para consolidar os vinhos da região passam por uma abordagem multifacetada. A aposta na promoção internacional continuará a ser prioritária, além da realização de provas direcionadas a profissionais do setor e/ou consumidor final. A CVR também pretende intensificar as campanhas digitais e as parcerias com críticos e influenciadores de vinho. Não iremos perder o foco no fortalecimento do Enoturismo, criando experiências diferenciadoras que liguem o consumidor à região. A contínua valorização das castas autóctones e o apoio à inovação tecnológica serão fundamentais para garantir que o Dão se afirme como uma referência de qualidade, tradição e modernidade.

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