Apesar do debate sobre a inteligência artificial e a forma como continuará a transformar sectores e organizações, um dos principais estimuladores do seu papel na economia global serão as cidades. O modo como lidam com as mudanças que se avizinham determinará as que serão prósperas no futuro.
Muitas têm planos para se tornarem “cidades inteligentes”, armadas com processos e serviços estimulados por inteligência artificial para melhorar as vidas dos residentes, como sistemas de controlo de trânsito. Contudo, a adopção destas tecnologias não será suficiente para garantir o seu sucesso. Os empregos que existem hoje podem não existir amanhã. Muitas pessoas ainda não têm as competências necessárias para os empregos do futuro. As cidades não podem simplesmente aumentar e diminuir a sua população e talento conforme é preciso.
Para aproveitar o potencial da IA, as administrações locais têm de trabalhar com empregadores de forma a planearem novas oportunidades. As cidades – juntamente com organizações e especialistas em educação – precisam de avaliar e preparar-se para lacunas nas competências relacionadas com a IA.
MUDANÇAS URBANAS
Tal como acontece noutras revoluções tecnológicas, a passagem para um uso generalizado de IA irá provavelmente dar origem a mudanças urbanas. Para compreender melhor o seu alcance, fizemos três estudos. Primeiro, examinámos quantas pessoas nas cidades norte-americanas trabalham em empregos com mais de 70% de hipóteses de serem automatizados. Aplicando uma estrutura desenvolvida por Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, investigadores da Universidade de Oxford, a 24 grandes cidades norte-americanas, chegámos à conclusão que entre 33% e 44% das pessoas trabalham em empregos considerados de alto risco, incluindo vendedores no retalho, caixas, empregados de escritório e de serviços.
Isso significa que milhões de pessoas precisarão de ajuda na transição para novos empregos e cargos nos próximos cinco anos. Em cidades como Nova Iorque ou Los Angeles, com milhões de pessoas empregadas, muitos colaboradores terão de procurar novas profissões (como os que se encontram em cargos altamente vulneráveis: especialistas em impostos, agentes de empréstimos, bancários, recepcionistas e assistentes administrativos, por exemplo) à medida que a natureza do trabalho se transforma completamente. Até em centros tecnológicos globais como São Francisco e San Jose, na Califórnia, aproximadamente 400 mil pessoas trabalham em cargos vulneráveis semelhantes.
Inquirimos mais de 9000 pessoas em 21 grandes cidades globais e descobrimos até que ponto esperam, e podem já estar a experimentar, mudanças resultantes das novas tecnologias. Estas descobertas reafirmam que as transições para empregos relacionados com a IA podem tornar-se problemáticas dentro da força de trabalho. Embora a maioria das pessoas (69%) espere que as suas cidades e residentes beneficiem de alguma forma nos próximos 20 anos com novas tecnologias como a IA, quase metade (45%) espera também que os seus próprios empregos sejam automatizados na próxima década. Um terço dos inquiridos na América do Norte e Europa estão inseguros em relação à visão do governo local sobre a melhor maneira de lidar com as mudanças tecnológicas.
Para estudar esta questão mais aprofundadamente e quantificar até que ponto mais de 100 cidades globais estão preparadas para enfrentar desafios relacionados com a IA, entrevistamos especialistas. Falámos com instituições académicas, governos locais e negócios para determinar o que realmente significa “estar preparado” na prontidão das cidades perante mudanças sociais e económicas. Os dados que recolhemos mostram que, para obterem novas hipóteses criadas pela IA, minimizando riscos, as cidades precisam de aproveitar quatro qualidades essenciais: uma visão para responder às mudanças tecnológicas; uma administração local capaz de activar novos planos; uma forte base de talento de topo, empregadores de topo e instituições académicas de topo; e dinamismo para aproveitar novas oportunidades.
Nenhuma cidade se superou nas quatro dimensões – a maioria só consegue liderar num ou em dois factores. Singapura e Dubai têm visões pormenorizadas sobre como serem líderes na futura era de mudanças tecnológicas. A Estrutura de Acção para a Economia Digital de Singapura declara arrojadamente que deve procurar novas oportunidades digitais para os seus negócios e pessoas. Agências governamentais do Dubai já afirmaram que estão a analisar formas de adoptar novas tecnologias e de recrutar laboratórios e inovadores de topo na IA, em parte para apoiar a estratégia de IA mais abrangente dos Emirados Árabes Unidos e eventualmente aumentar o produto interno bruto da região em 35%.
Governos de cidades europeias como Estocolmo, que possuem fortes leis de propriedade intelectual e políticas de imigração abertas, sobressaem quando se fala da implementação de planos relacionados com a IA. Megacidades como Londres, Nova Iorque e Paris têm o trio raro de talento, empregadores e instituições académicas de topo. Cidades como Hangzhou e Shenzhen, na China, focam-se em ter sucesso na era da IA e em crescerem rapidamente, em parte porque agora têm ecossistemas de universidades e startups que atraem empresas. COMO
AS CIDADES E AS EMPRESAS SE PODEM PREPARAR
Então, o que devem cidades e empresas locais fazer para se prepararem para o sucesso e para as mudanças vindouras? Primeiro, os governos devem começar a avaliar se as suas comunidades estão bem posicionadas para as futuras mudanças tecnológicas. Como as aplicações e outras tecnologias se espalham rapidamente e se vê a adopção a ter diferentes taxas em diferentes locais, as cidades têm dificuldade em ter noção da velocidade e do grau do impacto de determinada tecnologia. Mas as cidades podem abordar esta preocupação com uma análise aprofundada à força de trabalho e criando parcerias público-privadas.
Os governos precisam de examinar a composição dos empregos na sua força de trabalho e as competências que serão necessárias no futuro. Assim que as cidades determinam como será a futura força de trabalho, podem compreender melhor o alcance e natureza da diferença entre o ponto em que estão e onde devem estar.
Segundo, precisam de comunicar de perto com empregadores para que compreendam melhor as novas utilizações de IA – e como terão impacto na força de trabalho – para o bem ou para o mal. Os agentes locais devem investigar se as empresas locais têm programas-piloto para automatizar o serviço ao cliente. Terão de se preparar para o impacto do programa-piloto bem-sucedido de uma empresa e também de outros empregadores com colaboradores semelhantes.
No outro extremo do espectro, os governos devem apoiar os esforços de requalificação e desenvolvimento de competências na comunidade para que residentes e colaboradores encontrem novas oportunidades. Para tal, entre outras estratégias, as cidades devem nomear Chief Digital Officers, como aconteceu em Nova Iorque ou Londres. Algumas cidades começaram a oferecer apoio financeiro, como Hong Kong, onde o Fundo de Educação Contínua duplicou, para se prepararem para a requalificação das pessoas que perderão o emprego.
Ao mesmo tempo, as empresas devem estar ligadas à comunidade e tornar as cidades mais conscientes das suas necessidades. As empresas sabem onde ocorrerão os cortes nos empregos, enquanto as cidades têm a responsabilidade de lidar com o impacto. Para facilitar a transição, empresas e cidades terão de trabalhar em conjunto. As novas competências ganhas a partir de troca de empregos ajuda as pessoas a reestruturarem e a conseguirem empregos mais gratificantes.
Por fim, as cidades devem investir em programas de requalificação para mitigar os riscos da adopção generalizada da IA, dando às pessoas as competências para cumprir essa promessa, que seriam lançados através de iniciativas educacionais no 12.º ano. Eventualmente, as cidades terão de alterar os programas educacionais se querem que os residentes que entram na força de trabalho do futuro tenham as competências exigidas para aproveitar, e até criar, inovações de IA. A maioria dos nossos inquiridos espera sentir o impacto da IA nos próximos cinco anos. Não há tempo a perder.










