Opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati
A China quer criar um novo G7 através do grupo BRICS e rivalizar com aquele grupo económico. As economias emergentes querem ter um papel no mundo que está a deixar de ser global e passar a ser blocal. A África do Sul é o palco desta pretensão. O peso deste grupo é relevante pois é composto pela China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul, representando quase metade da população mundial. Só que este acordo por conveniência nunca pode ser duradouro pois cada um destes países tem um perfil muito próprio, sendo que alguns são nacionalistas e autocratas, defendem apenas os seus interesses e nunca cederão um “pedaço da sua autonomia”, algo fundamental para uma união como a UE.
A confusão aumenta pois 4 países dos BRICS pretendem o seu alargamento a outros estados. Pois representam quase metade da população mundial mas apenas um quarto do seu PIB. Necessitam portanto de mais peso económico no mundo, mesmo tendo adoptado uma linha abertamente anti-ocidental. A África do Sul convidou mais de 60 países para a cimeira e Pequim quer abrir a porta dos BRICS a vários destes países considerados aliados. O objectivo é atingir um PIB mundial semelhante à do G7, para ter uma voz colectiva mais forte no mundo. E este apelo não caiu em “saco roto”, pois mais de 40 países terão demonstrado interesse em aderir ao BRICS, com 23 a já ter solicitado formalmente a admissão. Mas muitos destes novos potenciais membros são nações sancionadas pelo Ocidente e isoladas diplomaticamente, como o Irão, a Bielorrússia e a Venezuela. Mas também a Argentina, Indonésia, Arábia Saudita, Etiópia e a Nigéria estão na lista dos interessados. O interesse não passa apenas por mais poder mas também por controlar a OMC, o FMI e o Banco mundial. Algo que para o Ocidente (e para o mundo) seria uma catástrofe. Imaginemos a OMC estar dependente da China? Um país que pensa a longo prazo na exclusiva defesa dos seus interesses próprios (e não do comércio livre). Alguém quer estar dependente de uma nação anti-democrata, que não respeita os direitos humanos, que é um dos maiores poluidores do mundo, cria medidas protecionistas para as suas empresas nacionais, promove a concorrência desleal para promover a exportação, é nacionalista e neo-colonialista.
Julgo que para o bem da humanidade, a oposição da Índia ameaça travar os esforços de alargamento. A Índia (na defesa dos seus interesses nacionais, pois cerca de 30% das suas exportações são para os EUA e para a UE ) não quer criar uma força política abertamente anti-Ocidente de pendor ideológico. E a Índia sabe que esse risco existe caso a Rússia e a China possam definir a agenda dos BRICS. Este grupo já criou inclusive um Novo Banco de Desenvolvimento, sediado em Xangai e fundado pelos BRICS. Só que em 2023, este banco continua fortemente dependente do dólar para a sua sobrevivência quando o seu objectivo era o oposto.
Portanto nada vai acontecer ainda, pois os BRICS não defenderam critérios ou prioridades claras para a sua estratégia comum atual ou para países que possam aderir futuramente. A única discussão e ponto comum é a “desdolarização” da economia com a redução da dependência do dólar no comércio internacional. Como? Sugere-se que os BRICS possam criar a sua própria moeda para rivalizar com a americana num futuro próximo.
Mas recordemos que desde a fundação dos BRICS em 2009, as ambições deste bloco de exercer uma influência política e económica global relevante foram sempre minimizadas pelas diferenças entre os seus membros. Num mundo em que 88% das transações internacionais realizadas são em dólares americanos e o dólar representa 58% das reservas cambiais globais. Portanto “desdolarizar” a economia mundial seria reduzir esta dependência total recusando a hegemonia dos EUA, reduzir a dependência da FED na depreciação das suas moedas, ou mesmo reduzir o uso de sanções como arma geopolítica como acontece com a Rússia. Mas “pasme-se”, pois estas acusações vêm de um país como a China, um regime totalitário que isolou 1 milhão de cidadãos Uigures em campos de concentração na China, para serem reeducados…
Só que criar uma moeda única como o Euro é muito difícil, dadas as assimetrias económicas e a complexa dinâmica política dentro dos BRICS. Para além de terem de acordar num mecanismo de taxa de câmbio, um sistema de pagamento eficiente, num mercado financeiro bem regulado, estável e acima de tudo confiável. Algo impossível neste grupo de países. Portanto se objectivos menos ambiciosos (“BRICS-pay”) como ter um sistema de pagamento integrado eficiente para transações internacionais até já existem e nunca funcionaram, imagine-se uma moeda comum. Nem sequer os outros grandes projetos multilaterais como desenvolver uma agência de classificação de crédito do BRICS ou criar um um cabo submarino comum. Agora imaginemos com 40 ou 50 países… quando nem 2 países conseguiram entender-se, como a Rússia e a Índia recentemente, tentaram criar um mecanismo de trocas em moedas locais, para compra de carvão e petróleo russo. Este acordo foi abandonado pela Rússia que se afastou por não pretender acumular rúpias indianas com valor reduzido internacionalmente.
Em suma, existirão certamente alguns avanços mas a hegemonia ocidental continuará. A oposição da Índia, os interesses individuais nacionalistas próprios de cada país, a desconfiança da moeda e dos sistemas financeiros individuais de cada nação (alguém confia na moeda venezuelana que desvaloriza diariamente?), a dependência americana de alguns governos e dos seus sistemas políticos, os próprios conflitos regionais (os confrontos fronteiriços China-Índia em 2020-21), são barreiras intransponíveis para este “caldeirão politico e económico” chamado BRICS que quer ser um Gxxxxx (pois o “x” significa o desconhecido).
Esta cimeira e as suas pretensões apenas virá a acelerar a Blocalização mundial e a criar dificuldades às economias emergentes, reforçando o poder do Ocidente quando forem notórias as diferenças profundas entre os países. BRICS, em minha opinião (com o respeito pela maioria dos países seus membros) deveria significar: “B” de Balbúrdia, “R” de Retórica, “I” de Inócuo, “C” de Conveniência e “S” de Sonho !!!




