Papa Francisco cancela a Inquisição. A implosão (controlada) do antigo Santo Ofício

Mais um passo histórico tomado pelo Papa Francisco e que promete representar um ‘salto’ na Igreja Católica rumo à modernidade.

Pedro Gonçalves
Julho 17, 2023
14:03

Mais um passo histórico tomado pelo Papa Francisco e que promete representar um ‘salto’ na Igreja Católica rumo à modernidade: depois de nomear 21 novos cardeais, e renovar o rosto da Santa Sé, e de indicar mais de 50 mulheres para participarem e votarem no sínodo de outubro do Vaticano, Francisco nomeou um novo Prefeito para o do Dicastério para a Doutrina da Fé, a instituição que é a herdeira da Inquisição.

Desta forma, apontam teólogos e especialistas, ouvidos pelo El Confidencial, Francisco está a levar a cabo uma ‘implosão’ controlada do organismo da Santa Sé que ficou na história pelos piores motivos, por ter proibido e destruído importantes obras literárias e científicas, bem como por ter mandado pessoas para a fogueira ao menor sinal de heresia ou heterodoxia.

Víctor Manuel Tucho Fernández foi o escolhido pelo Papa Francisco. Também argentino, de 60 anos, é o ex-reitor da Universidade Católica Argentina. Foi do quarto onde estava internado, devido a problemas de saúde, que Francisco ligou ao amigo para lhe propor o desafio, garantindo a manutenção da doutrina, mas com o compromisso de o fazer de “uma forma totalmente nova”.

O então arcebispo de La Plata aceitou a nova missão, cujo principal objetivo será agora garantir que o organismo fomenta a investigação teológica de forma a entrar em dialogo com o mundo.

A mudança trará certamente críticas dos setores mais conservadores da Igreja Católica, e ciente disse Francisco assegurou numa carta os desafios que o novo Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé.

“Como novo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, confio-lhe uma tarefa que considero muito valiosa. Tem como finalidade central guardar o ensinamento que brota da Fé para dar razão pela nossa esperança, mas não como inimigos que apontam e condenam. O Dicastério que o senhor presidirá, em outros tempos, utilizou métodos imorais. Foram tempos em que, em vez de promover o conhecimento teológico, perseguiam-se os possíveis erros doutrinais. O que espero de si é sem dúvida algo muito diferente”, sublinhou Francisco na missiva enviada, assumindo os erros da Inquisição de uma forma que nenhum líder da Igreja Católica tinha até aqui feito, e que indica uma mudança de postura consistente com o ‘fim’ da Inquisição como era conhecida (neste caso da sua ‘herdeira’).

“Precisamos de um pensamento que saiba apresentar de forma convincente um Deus que ama, que perdoa, que salva, que liberta, que promove as pessoas e as chama ao serviço fraterno”, continua a carta enviada pelo Papa Francisco.

Com efeito, Fernández colaborou com Francisco nos principais textos e encíclicas que emitiu, e o Papa sublinha agora que os elementos da Igreja aceita “o magistério recente”, na medida em que este novo responsável já ajudou a trilhar a estrada do pontificado do atual Papa.

As críticas começaram logo a partir de, por exemplo, do cardeal alemão Gerhard L. Muller, que sustentou que na Doutrina da Fé havia o arquivo que mostrava que o novo responsável tinha sido investigado pelo organismo que agora vai chefiar.

“A notícia caiu como uma bomba no Vaticano”, sustentou. Francisco respondeu e justificou que o que quer é “uma volta radical na Doutrina da Fé”.

Fernández, que já foi também nomeado cardeal, respondeu nas redes socais e sublinhou que o pedido partiu diretamente de Francisco.

“Este Dicastério noutros tempos chamava-se Santo Ofício, e era o terror de muitos, porque era dedicado a denunciar os erros, a perseguir os hereges, a controlar tudo, até a torturar e matar. O que me pede [o Papa] é algo muito diferente, porque os erros não se corrigem perseguindo ou controlando, mas sim através de fazer crescer a Fé e a sabedoria. Essa é a melhor maneira de preservar a doutrina”, sustentou,

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