A necessidade de investir em I&D e a fuga de talento    

Opinião de Ricardo Gomes, Senior Consultant do FI Group

Executive Digest

Por Ricardo Gomes, Senior Consultant do FI Group

O investimento em I&D (Investigação e Desenvolvimento) tem vindo a ser evidenciado como um dos fatores que mais contribuem, de forma direta, para o aumento da produtividade e do crescimento económico. Contudo, em Portugal, o investimento em I&D ainda se situa em 1,68%, abaixo da média da União Europeia de 2,27% – dados de 2021, revelados pelo Eurostat. Estes dados vêm, portanto, evidenciar a necessidade de se criar um ambiente mais próspero para o fomento das estruturas e do ecossistema de I&D no país, atraindo investimento e retendo recursos humanos altamente qualificados.



Segundo o estudo realizado pela FI Group, ManpowerGroup e LLYC, cerca de dois terços das empresas inquiridas declararam que a perspetiva futura é de contratar mais recursos humanos que estarão afetos a atividades de I&D. Mais de metade procura perfis na área das tecnologias, como engenharia e TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação), sendo estes os perfis mais difíceis de contratar. A principal razão da dificuldade na atração de talento prende-se com a competitividade do salário e benefícios oferecidos, segundo 60% das empresas. Para além de que 56% constataram a inexistência dos perfis certos para as posições disponíveis.

Tendo as empresas a hipótese de recorrer a incentivos financeiros e benefícios fiscais, verifica-se que estas ferramentas poderão não ter o ímpeto necessário, nem estarão a chegar a todos os potenciais beneficiários.

A grande maioria das empresas admite que os projetos não foram realizados exclusivamente devido a apoios à I&D. Para 40%, o valor dos incentivos e benefícios não ultrapassa os 100.000€; para 64% não excede os 250.000€. Sendo parte deste valor canalizado para apoiar a retenção e recrutamento de recursos humanos, em 76% dos casos não permite integrar mais do que 5 pessoas. Além disso, os perfis contratados para atividades de I&D tendem quase sempre (83% dos casos) a ser financiados por uma componente significativa de fundos da própria empresa.

Por outro lado, das empresas que não utilizaram incentivos e/ou benefícios no último ano, 68% admite ter conhecimento sobre a existência destes apoios. Apesar de não terem utilizado, 58% afirma ter perfis dedicados a atividade de I&D. Quando procurámos perceber a razão para a qual estas ferramentas não foram ativadas, a maioria dos potenciais beneficiários diz não saber como as utilizar ou não as conhecer suficientemente bem. No entanto, para mais de 8 em cada 10 empresas, a perspetiva é de recorrer a estes mecanismos dentro de um ano. Consequentemente, questiona-se como será consumada tal diferença tão rapidamente. Estes dados são indicativos de um desfasamento entre a expectativa das empresas e a real capacidade de aceder aos incentivos financeiros e benefícios fiscais.

Apenas 40% das empresas considera adequado o atual sistema, sendo que todas identificaram potenciais melhorias. Destacam-se as sugestões no sentido de reduzir a burocracia, seguidas por propostas para aumentar as taxas de financiamento ou benefício. Por fim, exige-se o cumprimento dos prazos definidos para a análise das candidaturas e respetiva notificação, bem como a redução do tempo associada às restantes etapas (por exemplo, pagamento).

Sendo o país ainda moderadamente inovador, importa reforçar o investimento em I&D. O estudo permitiu-nos concluir que é indispensável uma revisão dos sistemas de apoio à I&D que potencie o número de beneficiários efetivos, assim como será inevitável uma revisão dos atuais mecanismos fiscais, por forma a conceder soluções concretas e realistas que permitam a execução de projetos.

É inadiável uma revisão que retenha e atraia talento, pois não é viável entorpecer áreas-chave do desenvolvimento económico do país.

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