Milhares de europeus contaminados com cocktail de químicos. Portugueses incluídos

Sangue, urina e cabelo de milhares de europeus estão a ser analisados para detectar substâncias tóxicas.

Ana Rita Rebelo

Sangue, urina e cabelo de milhares de europeus estão a ser analisados para detectar substâncias tóxicas. Os estudos realizados até hoje «mostram que todos nós temos grandes quantidades de substâncias químicas tóxicas e persistentes que não deviam estar no nosso corpo, mas que absorvemos na nossa vida diária», afirma ao “Expresso” Dolores Romano, consultora na área da química do European Environmental Bureau (EEB).

De acordo com a EEB, rede europeia de organizações ambientalistas, as evidências científicas não deixam margem para dúvidas: os adultos europeus de hoje estão contaminados com «mais de 300 químicos sintéticos que não existiam nos corpos dos nossos avós» e que os absorvem através do que comem, bebem, respiram, vestem ou manuseiam. «As autoridades europeias não estão a controlar suficientemente este crescente problema de saúde pública e ambiental», avisa.

Perante os estudos que ligam esta exposição química a malformações genéticas, problemas de fertilidade, aumento de doenças como o cancro ou ao colapso de ecossistemas, a EEB enviou uma carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, a que o “Expresso” teve acesso, apelando ao reforço da legislação de segurança química no âmbito do anunciado «Green New Deal» europeu.

A EEB aponta que apenas uma pequena fracção das mais de 100 mil substâncias químicas (usadas em processos industriais, na agricultura, nos produtos de limpeza, embalamento de comida e bebidas ou vestuário, mobiliário ou aparelhos eléctricos) utilizadas na Europa foi até agora verdadeiramente avaliada pelas autoridades quanto aos seus impactos na saúde e no ambiente. Só que, a venda de químicos, cuja produção industrial ronda 400 milhões de toneladas anuais, deverá duplicar até 2030.

No documento, a rede chama a atenção para «as linhas vermelhas» que a estratégia europeia deve ter em conta e sublinha que «a poluição por químicos sintéticos é a maior e mais crescente ameaça para as pessoas e para a vida selvagem».

Continue a ler após a publicidade

«Quando as autoridades oficiais identificam uma substância não segura ou perigosa, podem levar mais de uma década até conseguir que seja regulada de modo a proteger os cidadãos e durante esse tempo continua a circular», explica Susana Fonseca, da associação Zero, destacando a importância de se aplicar «o princípio da precaução».

Esta é uma das razões que leva a rede ambientalista europeia, de que a Zero faz parte, a reforçar a importância do estudo europeu em curso em 20 países (incluindo Portugal), conhecido pela sigla HMB4EU, considerado o maior alguma vez feito sobre a contaminação humana com substâncias tóxicas. O estudo de biomonitorização humana, cujo objectivo é perceber como é que as substâncias químicsa entram no corpo humano e como se transformam em cocktails com impactos na saúde, teve início em 2017 e deverá estar concluído em 2020.

Em Portugal, adianta o “Expresso”,  foi recolhida a urina de 300 pessoas, entre os seis e os 39 anos de idade de várias regiões do país. O projecto tem o nome de INSEF-ExpoQuim e está a ser desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em parceria com outras entidades.

Continue a ler após a publicidade
Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.