O Velho do Restelo no “Trabalho híbrido”

Opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Executive Digest

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Quem me conhece sabe que sou um “velho do Restelo” em relação ao teletrabalho. Podem atirar a “primeira pedra”, é justo. Mas não gosto do modelo, porque ainda ninguém me demonstrou que é uma situação “win-win”. Para os colaboradores pode ser (“work life balance”) mas para as empresas tenho sérias dúvidas (excepto poupanças de curto prazo). Não sou um “Musk” do teletrabalho pois os meus motivos são diferentes. Até porque na minha organização já tínhamos um modelo bastante flexível, com horários relativamente flexíveis, tolerância a faltas e ausências necessárias, trabalho de casa “não como regra mas por necessidade do colaborador”. Ou seja gestão de bom senso, confiança e senso comum. Embora saiba que o senso não é tão comum assim!
Nunca entendi, no entanto, a formalização do teletrabalho e muito menos a legislação sobre o mesmo, que considero um insulto á inteligência das pessoas. Pelo menos nas áreas funcionais das organizações onde é possível (um empregado fabril não pode trabalhar remotamente na linha de montagem). Foi preciso um vírus aparecer e demonstrar que a gestão e liderança das organizações precisa de senso comum e confiança? Não acredito que se construa uma equipa, que se inove, que se construam soluções para problemas que surgem diariamente, que os líderes liderem sem sentir o “smell of the place”, que alguém se sinta motivado sempre atrás de um ecrã, que o trabalho de gestão não implique construção de relações pessoais com stakeholders, que se integrem colaboradores novos, que se comunique uma nova estratégia… de forma remota! Em algumas áreas como as TIs acredito que funcione até porque já era uma prática, a cultura organizacional dos colaboradores já era assim, o modelo de trabalho permite-o. Nas outras áreas, acho que não. Acho que é uma moda, útil para os colaboradores gerirem bem o seu tempo, evitarem trânsito, mas sem perceberem que as organizações também vão mudar. Vão obviamente reconverter, otimizar e obrigar à partilha dos locais de trabalho como a Google fez (reduzir certamente muitos metros quadrados e poupar dinheiro nos espaços vazios, com toda a legitimidade; embora nenhuma o vai admitir). Vão avaliar se mantêm as políticas de viaturas de serviço e de função, rever os valores de subsídio de refeição quando acima do valor fiscal máximo, renovar as políticas de contratação e progressão de carreiras (o senso comum explica este ponto de forma simples :” quem não é visto, é esquecido”!), entre outros. Ou seja, acho que pode ser bom, mas não pelos motivos corretos.
E nem quero pensar que há “calões” que vão aproveitar para não fazer nada quando estão remotamente a “trabalhar”. Embora acho que se isto acontecer, é em pequena escala. Acho que o que acontece é o contrário, trabalha-se mais, pois há uma proliferação e invasão de reuniões e contactos remotos a qualquer hora, apenas porque estão todos em casa, potencialmente disponíveis. As reuniões presenciais com uma agenda e programadas atempadamente, deixaram de existir, de fazer sentido. Portanto tudo passou a ser urgente. Quem nunca recebeu um “teams” a pedir para reunir daqui a 10 minutos? Antes ligavam, agendavam uma reunião, informavam sobre o tema, programavam. Existia o “direito a desligar” no regresso a casa. Agora não! Acho portanto que as pessoas trabalham mais mas são menos produtivos. E correm o risco de perder condições e benefícios. Embora no outono de 2022, um estudo da Microsoft entrevistou 20.000 trabalhadores em 11 países e os resultados foram reveladores: 87% dos colaboradores achavam que eram tão eficientes a trabalhar em casa quanto no escritório. No entanto, apenas 12% dos chefes acreditavam que as suas equipas eram produtivas a trabalhar remotamente. E por isso impõem regras de controle em que o “bom dia” no “chat de conversação” passou a ser o relógio de ponto (uma prática tóxica para a confiança dos colaboradores). Mas esta resposta era uma opinião dos próprios, portanto enviesada, aliás confirmada pela opinião contrária dos chefes (que também pode estar enviesada). Os líderes também têm de encontrar novas formas de avaliação que não seja apenas o número de horas passado a trabalhar.
“Velho do Restelo” bem sei. Até porque o regime de teletrabalho veio para ficar, mas não é numa maioria, pois há trabalhos cuja forma nunca poderá ser remota (o caixa do supermercado por exemplo). Só que finalmente descobri que há pessoas como eu, que não querem essa rotina. Não querem um modelo híbrido – de trabalhar alguns dias em casa, outros na sede da empresa. Querem sempre trabalhar no escritório, na empresa. E um inquérito nos EUA descobriu porquê. O estudo (2022 U.S. Workplace Survey, do Instituto de Pesquisa Gensler) recolheu online e de forma anónima junto de 2 mil pessoas, trabalhadores nos EUA, a sua opinião.  “E a conclusão mais importante é simples: as pessoas que querem voltar a trabalhar no escritório tomam essa opção porque…querem trabalhar.” Não que os outros não trabalhem, não! A falta de produtividade e interrupção regular impede que se concentrem mais nas suas tarefas, durante o horário laboral. Ou seja passaram de querer estar na empresa para trabalhar e colaborar em equipa (antes do covid) para querer estar na empresa porque se focam e concentram mais.
Há 2 áreas que se destacam no estudo: a arquitectura e design. claro, pois são profissões em que a concentração é fundamental. Mas não são únicos, pois empresas como o Goldman Sachs, Morgan Stanley, JPMorgan, Barclays, General Motors, entre outras pretendem um trabalho presencial regular. A colaboração é um dos principais motivos apontados. Inclusive a Apple solicitou este regresso mas a reação dos trabalhadores foi totalmente negativa com uma petição contra a decisão.
Com o híbrido, o trabalho em equipa deixou de ser prioridade, foi ultrapassado pelas reuniões remotas como fator relevante. Por outro lado, os escritórios ao serem reconvertidos, assim como a flexibilidade de ida ao escritório, concentram os colaboradores em alguns dias preferenciais (a 4f é o dia preferido para irem ao escritório). Portanto perdem eficácia na tranquilidade e não se focam na tarefa e no trabalho.  Segundo o estudo, os “escritórios nos EUA atingiram o nível mais baixo, nos últimos 15 anos, em relação à sua eficácia para permitir o trabalho focado”. E 69% dos inquiridos refere que a concentração é fundamental.
Talvez a solução seja “one to one”, muito à semelhança do que a minha organização já tem há muitos anos: gabinetes individuais ou duplos (no limite), portanto fechados; ou espaços semi-fechados; assim como ambientes abertos para socializar. Conseguimos assim um maior nível de concentração, mais privado, onde as pessoas possam fugir do barulho e das interrupções; ou socializarem quando pretenderem. Relembrando que o foco e a concentração também deve ser livre do digital e tecnológico. Mas este espaço é gerido por cada um de nós que tem de aprender a utilizar o e-mail, o telefone e as outras plataformas digitais com regras.



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