O novo Kominform

Opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Executive Digest

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

O Kominform foi criado em 1947 (após a dissolução do Komintern) e tinha como função ser o centro de controlo internacional do movimento comunista, facilitando a influência soviética e uniformizando a ação comunista. Este organismo foi extinto em 1956. Mas rejuvenesceu com o Presidente Lula da Silva recentemente, a propósito da sua posição com a guerra na Ucrânia e a utilização do dólar nas transações na economia mundial (utilizado em 84,3% das trocas comerciais a nível global, mas por livre iniciativa dos países, nomeadamente do Brasil). E rejuvenesceu não apenas por questões ideológicas, mas diria para mim mesmo, “É a economia, estúpido!”.
O Presidente Lula repetiu a tese russa, colocando a Rússia e a Ucrânia no mesmo patamar, quando afirmou que “é preciso que os EUA parem de incentivar a guerra e comecem a falar em paz, para convencermos Putin e Zelensky que a paz interessa a todo o mundo e a guerra só está interessando, por enquanto, aos dois”. Atacou os EUA, a NATO, legitimou a Rússia e a ambiguidade da China. Só que se esqueceu que a democracia respeita a liberdade dos povos e condena quem agride os outros povos e começa uma guerra, invadindo outro país. Pelo que Lula demonstrou que tem um conceito de democracia e respeito pela ordem internacional, pouco esclarecida. E ainda considerou Portugal, como membro da NATO e da UE, um agressor como Zelenski e igual a Putin. Ou seja, a ambiguidade da posição do Brasil na guerra, dissipou-se. Inseriu-se na blocalização, passando de não alinhado a membro do bloco que inclui o Brasil, Rússia, Irão, China, Venezuela, Coreia do Norte, Síria e Nicarágua – O novo Kominform! A questão chave agora, é a posição da Índia, que tem uma ligação forte economicamente aos EUA e um conflito histórico com a China. Mas, como o Brasil até agora, manteve sempre a ambiguidade na invasão Russa e aproveitou-se dos hidrocarbonetos baratos que a Rússia passou a oferecer.
Julgo que Lula ainda defende uma posição ideológica antiga, esquecendo que já saiu do Sindicato dos metalúrgicos há muito tempo. Quando ainda defendia a limitação do direito de propriedade privada e a estatização do sistema financeiro (nomeadamente na Constituinte Brasileira). Mas esqueceu-se que também defendia o rompimento de relações diplomáticas com países que adotassem políticas de discriminação racial. Ou seja, esta limpeza étnica que os russos pretendem fazer aos ucranianos (ou os Chineses aos Uigures ou a Taiwan) devia provocar um “rompimento das relações com a Rússia e com a China”. Mas a ideologia e os princípios “curvam-se” perante a economia e é um mal menor para os interesses do Brasil que Lula, legitimamente, defende. E tem mesmo de defender pois a China é, desde 2009, o maior parceiro comercial do Brasil e uma das principais origens de investimentos em território brasileiro. As exportações para a China chegaram a quase a 90 mil milhões de dólares em 2022. Assim como a Rússia é o principal fornecedor de fertilizantes para o Brasil e em 2022, o comércio bilateral atingiu o recorde histórico de US$ 9,8 bilhões. O Abu Dabi foi um “fait-divers” mas que trouxe 11 biliões de dólares de investimento ao Brasil. “É a economia, estúpido!”.
Daí que Lula queira “elevar o patamar da parceria estratégica” com o Governo chinês e, “em conjunto com a China, equilibrar a geopolítica mundial”, sendo que para isso tem de justificar a invasão russa. Mas não apenas por questões económicas, pois Lula quer um “lugar á mesa” dos considerados “grandes países”, pois nunca conviveu bem com a existência do G7 do qual não faz parte (apenas faz parte do G20). Portanto China e Rússia são importantes para o Brasil economicamente, assim como para a criação de um novo polo aglutinador. Um novo Kominform, que defenda os interesses do Brasil (mesmo sacrificando os valores que defendia) e coloque Lula “á mesa dos grandes países” numa definição duma nova ordem e sistema mundial. “É a ânsia do poder, estúpido”, diria para mim mesmo!
Por respeito ao Brasil e aos Brasileiros, a posição de Lula deve apenas ser diplomaticamente criticada. O Brasil é um país soberano, pelo que livre de definir a política externa da sua nação. Não podemos esquecer também, os fortes laços que nos unem há 200 anos com o povo Brasileiro. Portanto Lula deve visitar o nosso país, como previsto, e discursar no nosso parlamento, mesmo tendo embaraçado a diplomacia portuguesa. Mas não podemos aceitar que faça parte do nosso “bloco” pois não respeita os valores e princípios que defendemos, não existindo convergência no futuro comum que defendemos na ordem e sistema internacional.
Todos deveríamos utilizar um pin com a bandeira Ucraniana nos dias em que nos visita, afirmando de forma civilizada, a nossa divergência profunda por culpa do presidente Lula! Depois, “a economia e a política” ditarão as relações entre os blocos!



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